A Passagem do Bastão

O único elemento invisível à percepção
é aquele que se repete.
Se você quer ser consciente, mude. 

 

Em uma corrida de revezamento, o corredor recebe o bastão e o conduz, tal e qual o recebeu, para o próximo corredor. Ele é guardião do cajado mas, não o assina, apenas o passa. Na linhagem espiritual é um pouco diferente ou, pelo menos, deveria ser. 

 

Uma confraria espiritual, de certa maneira, é como uma dessas corridas, onde o líder  recebe o cetro do conhecimento de sua “linhagem espiritual” e deve conduzi-lo com maestria e total domínio, até o momento de passá-lo adiante, ao próximo líder. Com os ensinamentos que herda, deve nortear e orientar os que navegam em seu mesmo barco. Mas, cedo ou tarde, chegará o dia de passar o timão e o leme do barco a um novo comandante. E, junto, o plano de viagem. 

 

Na caminhada espiritual individual, da mesma maneira, herdamos a sabedoria e os caminhos trilhados por aqueles que neles evoluíram antes de nós. Esses nos passam também um mapeamento do que supostamente encontraremos à frente. 

 

O mapa, porém, não é suficiente para que cheguemos a nosso destino, é preciso que encontremos e usemos uma certa “bússola interna”. Não podemos seguir à risca a senda indicada pelos que, generosamente, nos legaram ensinamentos, precisamos decidir, quando aplicá-los ou não, à nossa maneira e conforme cada nova situação se apresenta. 

 

Heranças espirituais são importantes e podem ser extremamente úteis para nosso crescimento; mas, se junto à riqueza da instrução que nos é dada, nos é impingido um manual com regras fixas de como utilizá-la e, até mesmo, restringindo a finalidade com que devemos seguir nosso caminho, em vez do cetro nos levar à liberdade, nos levará ao atrofiamento da substância espiritual. Se aqueles que nos deram o saber, tentam realizar os propósitos que tinham para suas vidas através das nossas, e se permitimos que isso aconteça, em vez herdarmos uma sabedoria, estaremos herdando um karma. 

 

E, infelizmente, é o que comumente acontece. Mas nem sempre. 

 

Há dois tipos de passadores de bastão na escalada espiritual; há aqueles que se comportam como degraus e aqueles que se tornam patamares. De degraus, estou chamando aqueles que passam adiante o que receberam tal e qual receberam, esses são os que se auto-denominam “guardiões da tradição”, eles lêem um livro sagrado e repetem suas palavras como cães fiéis, preocupados em não mudar um vírgula para não distorcer, são preocupados em registrar a história de maneira fidedigna. 

 

Os que aqui chamo de patamares, são aqueles que acolhem os ensinamentos que recebem com tal honestidade e profundidade que se transformam radicalmente por dentro nas verdades que aqueles aprendizados apontam, se tornam novas pessoas, vêem revelarem-se frente a seus olhos os segredos do mundo interno e inauguram uma nova era, um novo viver em si. Esses,  ao se transformarem e bancarem a auto-metamorfose, possibilitam o “novo mundo” que as escrituras propunham. Esses, quando passam o bastão, o fazem depois de o terem trabalhado, esculpido, feito-o à semelhança daquilo que seus olhos vêem. Esses são Mestres. Esses, se repetirem as palavras das escrituras, o farão com um frescor tal, que todos reconhecerão originalidade em sua palavras, todos as perceberão como entes vivos e pulsantes, elas ressoarão em seus corações. 

 

Ambos têm sua importância, tanto os discípulos “degraus” quanto os “patamares”, mas há muito mais degraus do que patamares na escada e é conveniente que os degraus não cobrem dos patamares que esses encurtem sua área de compreensão para se assemelharem a degraus, é importante que quem sobe a escada com pressa, não reclame de um degrau mais longo que quebra o ritmo de sua marcha. Está certo que a maioria se comporte como degraus, mas é necessário que alguns sejam patamares. É preciso aceitá-los e valorizá-los. 

 

É no patamar que se pára para refletir, são os patamares que permitem o descanso, são os patamares quem permitem as curvas, as mudanças de rumo com menor trauma e perigo. São os discípulos patamares que inauguram os novos paradigmas que proverão de novos sentidos a escada, que possibilitarão levar cargas maiores ao andar mais alto ou ao mais profundo. 

 

O discípulo degrau, aprende um exercício espiritual ou uma meditação de seu mestre e o repete tal e qual aprendeu. Mas ele, de maneira geral, não chega a experimentar de fato, o nível de profundidade, de contato consigo mesmo e de lucidez própria espiritual que seu mestre propunha. Ele, em última análise, passa adiante o que ele mesmo não entendeu muito bem. O discípulo patamar, ao viver integralmente o estado de beatitude proposto pelo mestre, pode criar seus próprios exercícios e apresentá-los aos próximos. Esse, quando entregar o bastão, entregará um bastão personalizado, com uma nova fragrância, capaz de acordar e estimular os sentidos dos novos caminhantes e corredores que virão. Esses, colocam o sal de seu suor no bastão. Esses, são capazes de transformar a oportunidade em crescimento e realização. Esses, somos todos nós, quando nos dispomos a sê-lo..

Pedro Tornaghi

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4 comentários em “A Passagem do Bastão

  1. A MENSAGEM É EXCELENTE! PRECISAMOS COLOCÁ-LA EM PRÁTICA, DIUTURNAMENTE !
    MAS, JAMAIS ESQUECER QUE PARA CHEGAR AOS PATAMARES, PRECISAMOS PASSAR PELOS DEGRAUS, QUE IRÃO NOS CONDUZIR À POSIÇÃO MAIS ELEVADA. NESTA VIDA TERRENA PRECISAMOS DE TODOS OS TIPOS DE INFORMAÇÃO PARA ANGARIAR OS PÍNCAROS CELESTIAIS!
    QUERO DEIXAR NAS ENTRELINHAS OS NOSSOS AGRADECIMENTOS.

  2. Gostei muito da maneira simples como fez suas colocações, fácil entendimento para assuntos tão profundos…. No que se refere a mim…estou caminhando isso é o posso dizer.

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