{"id":3474,"date":"2015-08-07T12:16:22","date_gmt":"2015-08-07T15:16:22","guid":{"rendered":"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?page_id=3474"},"modified":"2020-11-06T23:04:51","modified_gmt":"2020-11-07T02:04:51","slug":"caetano-leao-veloso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?p=3474","title":{"rendered":"Alegria, Alegria"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #ffffff; font-size: 14pt;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"font-size: 14pt;\">Todo artista leonino gosta de se ver espelhado em sua obra, mas alguns fazem isso mais abertamente que outros. Caetano Veloso talvez seja o exemplo mais extremo de que se tem not\u00edcia; \u00e9 poss\u00edvel fazer um curso inteiro sobre o signo de Le\u00e3o se atentarmos \u00e0s letras de suas m\u00fasicas ou a seus posicionamentos como artista, \u00e9 admiss\u00edvel mesmo, mais que isso, entender como algumas caracter\u00edsticas do signo se formam.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">A chegada de Caetano no cen\u00e1rio musical j\u00e1 anunciava consigo a instaura\u00e7\u00e3o da marca leonina. Regido pelo Sol, Le\u00e3o \u00e9 um signo afeito \u00e0 alegria e a transmitir vitalidade, o doce b\u00e1rbaro descido da Bahia invadiu as praias do sul no final dos anos 60 anunciando em &#8220;alegria, alegria&#8221;: &#8220;O sol nas bancas de revista \/ Me enche de alegria&#8230;&#8221;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Caetano significou uma ruptura na psicologia da MPB. Ainda pouco analisada. Apesar de sermos o pa\u00eds do samba e do carnaval, a m\u00fasica brasileira nas d\u00e9cadas anteriores \u00e0 sua obra era tomada por um elogio obrigat\u00f3rio \u00e0 tristeza e \u00e0 fossa. Cantoras como Maysa vendiam como o qu\u00ea com letras de m\u00fasica onde lastimavam: &#8220;Meu mundo caiu \/ E me fez ficar assim \/ Voc\u00ea conseguiu \/ E agora diz que tem pena de mim&#8221;. Em Copacabana, havia uma boate que lotava suas sess\u00f5es noturnas para ouvir-se a cantora Waleska, apelidada de\u00a0 Sacerdotisa da Fossa remoer dores de cotovelo e ang\u00fastias por amores imposs\u00edveis. Mesmo m\u00fasicas de carnaval feitas para celebra\u00e7\u00e3o por vezes ostentavam letras como &#8220;tristeza n\u00e3o tem fim, \/ felicidade sim&#8221; que todos cantavam aparentemente inconscientes de que dan\u00e7avam enaltecendo um sentimento &#8220;para baixo&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Sim, at\u00e9 o carnaval podia ser ilustrado com drama, Nora Nei fazia cara dram\u00e1tica, triste e enfezada no filme &#8220;Carnaval em Caxias&#8221; enquanto colhia frutos do sucesso cantando &#8220;Ningu\u00e9m me ama, ningu\u00e9m me quer \/ Ningu\u00e9m me chama de meu amor \/ A vida passa, e eu sem ningu\u00e9m \/ E quem me abra\u00e7a n\u00e3o me quer bem&#8221;&#8230;&#8221;Vim pela noite t\u00e3o longa de fracasso em fracasso \/ E hoje descrente de tudo me resta o cansa\u00e7o \/ Cansa\u00e7o da vida, cansa\u00e7o de mim&#8230;&#8221; ou &#8220;Risque meu nome do seu caderno \/ Pois n\u00e3o suporto o inferno \/ Do nosso amor fracassado&#8221;. J\u00e1 Dolores Duran garantia seu lugar no Olimpo das r\u00e1dios com motes como &#8220;Eu tive orgulho e tenho por castigo \/ A vida inteira pra me arrepender&#8221; ou &#8220;Ai, a solid\u00e3o vai acabar comigo \/ Ai, eu j\u00e1 nem sei o que fa\u00e7o e o que digo&#8221; ou ainda seu emblem\u00e1tico &#8220;Fim de Caso&#8221;: &#8220;H\u00e1 um adeus em cada gesto, em cada olhar&#8230;&#8221;. J\u00e1 Linda Batista brilhou com os versos de \u00a0\u00a0&#8220;Vingan\u00e7a&#8221;: &#8220;Eu gostei tanto, \/ Tanto quando me contaram, \/ Que lhe encontraram \/ Chorando e bebendo \/ Na mesa de um bar&#8230; enquanto houver for\u00e7a em meu peito \/ Eu n\u00e3o quero mais nada \/ S\u00f3 vingan\u00e7a, vingan\u00e7a, vingan\u00e7a&#8221;. Orlando Silva se beneficiava dos versos amargos de Mario Lago em &#8220;Nada al\u00e9m&#8221;: &#8220;Se o amor \/ S\u00f3 nos causa sofrimento e dor \/ \u00c9 melhor, bem melhor \/ A ilus\u00e3o do amor&#8221; e sentenciava em &#8220;Tristeza&#8221;: &#8220;A tristeza \u00e9 a minha companheira, \/ \u00c9 a \u00fanica mulher que me quer bem&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Nelson Gon\u00e7alves sacava de seu coldre &#8220;Negue seu amor, o seu carinho \/ Diga que voc\u00ea j\u00e1 me esqueceu \/ Pise, machucando com jeitinho \/ Este cora\u00e7\u00e3o que ainda \u00e9 seu. \/\/ Diga que j\u00e1 n\u00e3o me quer! \/ Negue que me pertenceu&#8230;&#8221;\u00a0 A Bossa nova tamb\u00e9m n\u00e3o se fazia de rogada e assumia o veio, Jo\u00e3o Gilberto que se inspirou em Chet Baker, o g\u00eanio cool norte-americano, entoava com sua voz suave: &#8220;O nosso amor parou aqui \/ E foi melhor assim \/ Eu esperava e voc\u00ea tamb\u00e9m \/ Que fosse esse o seu fim \/\/ O nosso amor n\u00e3o teve, \u00a0querida \/ As coisas boas da vida&#8230;&#8221;\u00a0 ou &#8220;Ah, insensatez que voc\u00ea fez \/ Cora\u00e7\u00e3o mais sem cuidado \/ Fez chorar de dor o seu amor&#8230;&#8221; ou ainda &#8220;Aos p\u00e9s da Santa Cruz voc\u00ea se ajoelhou \/ Em nome de Jesus um grande amor voc\u00ea jurou \/ Jurou, mas n\u00e3o cumpriu, fingiu e me enganou&#8230;&#8221;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Tom Jobim letrado por Aloysio de Oliveira regava o solo da Bossa com p\u00e9rolas como In\u00fatil Paisagem com o irresist\u00edvel apelo de versos como &#8220;Mas pra qu\u00ea?\u00a0\/ Pra que tanto c\u00e9u? \/ Pra que tanto mar, pra qu\u00ea? \/ De que serve esta onda que quebra, \/ E o vento da tarde? De que serve a tarde?\u00a0\/ In\u00fatil paisagem \/\/ Pode ser \/ que n\u00e3o venhas mais; \/ Que n\u00e3o venhas nunca mais&#8230; \/ De que servem as flores que nascem pelos caminhos? \/ Se meu caminho \/ sozinho&#8230; \/ \u00e9 nada&#8221;&#8221;. Essa Caetano mais tarde contrap\u00f4s diretamente com &#8220;Paisagem \u00datil&#8221; onde, ao contr\u00e1rio da filosofia niilista da can\u00e7\u00e3o anterior, que fechava os olhos \u00e0 vida, Caetano chega com &#8220;Olhos abertos em vento \/ Sobre o espa\u00e7o do Aterro \/ Sobre o espa\u00e7o sobre o mar&#8221; e vislumbra &#8220;Luzes de uma nova aurora \/ Que mant\u00e9m a grama nova \/ E o dia sempre nascendo!&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Mesmo cantoras que n\u00e3o ostentavam o perfil pessimista em assuntos de amor como Marlene se rendiam por momentos a letras como a de Cabar\u00e9, &#8220;No drama, sufocado em cada rosto \/ A lama, de n\u00e3o ser o que se quis.&#8221; &#8220;Um cuba-libre treme na m\u00e3o fria \/ Ao triste strip-tease da agonia&#8221;. Assim como tamb\u00e9m sua contra-parte espiritual Emilinha Borba &#8220;Quem parte leva \/ saudades de algu\u00e9m, \/ que fica chorando de dor&#8230;&#8221; ou &#8220;Se eu chegar depois do sol raiar, \/ Ela bota outro em meu lugar&#8221; ou ainda &#8220;Foi t\u00e3o grande a pena\u00a0\/ Que sentiu a minha alma\u00a0\/ Ao recordar que tu\u00a0\/ Foste meu primeiro amor.&#8221;. E mesmo a eterna int\u00e9rprete de Noel, Aracy de Almeida se dobrava \u00e0 desola\u00e7\u00e3o: &#8220;Pra que foste embora? \/ Por ti, tudo chora! \/ Sem teu amor, esta vida n\u00e3o tem mais valor&#8221; ou &#8220;Tudo tenho suportado \/ Sem falar, sem reclamar \/ Sem dizer que a tristeza \/ N\u00e3o me deixa descansar \/\/ Vem da\u00ed a conclus\u00e3o \/ Conv\u00e9m nossa separa\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Em meio a esse cen\u00e1rio onde toadas sobre amores fracassados e separa\u00e7\u00f5es sofridas brotavam como capim, Caetano se entregou \u00e0 tarefa herc\u00falea de arrebanhar amigos e cultivar um jardim de can\u00e7\u00f5es de incentivo e respeito \u00e0 vida e ao sol. Celebrar era uma t\u00f4nica. E ele se tornou pe\u00e7a-chave n\u00e3o apenas na implanta\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o de uma nova cultura da alegria, de uma cultura solar em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 das sombras que antes impunha suas cartas, mas, como o bom leonino que gosta de dar ritmo ao que come\u00e7a, sustentou a bandeira da alegria ao longo da carreira com seu &#8220;Trem das Cores&#8221; carregado de &#8220;s\u00e1bios projetos&#8221;, avan\u00e7ando, palmo a palmo pelas resist\u00eancias dos aflitos. Afinal, ele j\u00e1 avisara desde o in\u00edcio que vinha com &#8220;os olhos cheios de cores \/ o peito cheio de amores&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">E ele nunca se recusou a pagar o pre\u00e7o por essa aud\u00e1cia &#8211; outra qualidade do signo. Foi criticado pela esquerda com adjetivos descabidos como &#8220;agente alienador do imperialismo&#8221; ao fazer o primeiro show de MPB para se dan\u00e7ar entoando &#8220;Deixa eu dan\u00e7ar pro meu corpo ficar odara, \/ Minha cara, minha cuca ficar odara&#8230;&#8221;. Mas Le\u00e3o \u00e9 o signo que rege o cora\u00e7\u00e3o e a palavra coragem vem da mesma raiz que cora\u00e7\u00e3o. Caetano levou o estandarte da alegria adiante, entre farpas e cr\u00edticas destrutivas, &#8220;Por entre fotos e nomes \/ Sem livros e sem fuzil \/ Sem fome, sem telefone \/ No cora\u00e7\u00e3o do Brasil&#8230;&#8221; E, &#8220;por que n\u00e3o?&#8221; J\u00e1 que a &#8220;invas\u00e3o&#8221; tinha sido &#8220;preparada com o cora\u00e7\u00e3o?&#8221; como depois ele cantou em &#8220;Doces B\u00e1rbaros&#8221;?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Mas o elogio \u00e0 alegria, embora seja marca preponderante no Le\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica, e Caetano parece n\u00e3o ter esquecido de nenhuma em sua obra. Se o Sol \u00e9 o astro-rei, Le\u00e3o \u00e9 o rei do zod\u00edaco. E reis n\u00e3o s\u00e3o afeitos a se ocupar de coisas menores ou agir a partir de &#8220;motiva\u00e7\u00f5es de segunda classe&#8221; para usar uma express\u00e3o do pr\u00f3prio Caetano que, em &#8220;Eles&#8221;, ironiza os que &#8220;Durante o natal \/&#8230; guardam dinheiro&#8230; para o dia de amanh\u00e3&#8221; e que em &#8220;Beleza Pura&#8221; se posiciona definitivo: &#8220;N\u00e3o me amarra dinheiro n\u00e3o! \/ Mas eleg\u00e2ncia \/\/ &#8230;dinheiro n\u00e3o! \/ Mas a cultura.&#8221; &#8230; &#8221; dinheiro n\u00e3o! \/ Mas os mist\u00e9rios \/\/ &#8230;dinheiro n\u00e3o! \/ Beleza Pura!&#8221;. Sim, o bom leonino n\u00e3o \u00e9 afeito a mesquinharias. Prefere a grandiosidade. Quer o que seja &#8220;muito&#8221;, o que Caetano confessa sem problemas: &#8220;Eu sempre quis muito \/ Mesmo que parecesse ser modesto&#8221;&#8230; &#8220;Eu nunca quis pouco, \/ Falo de quantidade e intensidade, \/ Bomba de hidrog\u00eanio&#8230;&#8221;. Nunca foi segredo, ele j\u00e1 anunciara em rimas anteriores: &#8220;meu cora\u00e7\u00e3o vagabundo \/ quer guardar o mundo em mim.&#8221;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">A ambi\u00e7\u00e3o leonina encontra as melhores causas em sua obra, est\u00e1 sempre presente, como em &#8220;Mel&#8221;: &#8220;\u00d3 abelha rainha faz de mim \/ Um instrumento de teu prazer \/ Sim, e de tua gl\u00f3ria \/ Pois se \u00e9 noite de completa escurid\u00e3o \/ Provo do favo de teu mel \/ Cavo a direita claridade do c\u00e9u \/ E agarro o sol com a m\u00e3o.&#8221; Le\u00e3o quer somente agarrar o Sol com a m\u00e3o&#8230; E assumi-lo. Adot\u00e1-lo. E, muito n\u00e3o \u00e9 muito se n\u00e3o for sempre: &#8220;\u00c9 meio-dia, \u00e9 meia-noite, \u00e9 toda hora&#8230;&#8221; e em todo lugar: &#8221; Na janela, na fresta da telha \/ Pela escada, pela porta, pela estrada toda afora&#8230;&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Sim, o leonino acalenta o sonho de ser onipresente e tamb\u00e9m de eternizar suas realiza\u00e7\u00f5es, a grandeza s\u00f3 \u00e9 plena se n\u00e3o tiver fim. Leoninos t\u00eam dificuldade de lidar com a finitude, seja da mat\u00e9ria, seja de rela\u00e7\u00f5es amorosas, que eles com frequ\u00eancia fazem o poss\u00edvel para eternizar. \u00c9 o que leva algu\u00e9m a declarar: &#8220;Eu nunca te disse \/ Mas agora saiba \/ Nunca acaba, nunca \/ O nosso amor \/ Da cor do azeviche \/ Da jabuticaba \/ E da cor da luz do sol&#8230;\u00a0 \/ Eu te amo&#8230;&#8221; &#8230; &#8220;N\u00e3o tem onde caiba \/ Eu te amo \/ Sim, eu te amo \/ Serei pra sempre o teu cantor&#8221;. Assim \u00e9 o Le\u00e3o, cada coisa acontece t\u00e3o grande, t\u00e3o forte, que por vezes n\u00e3o cabe dentro de si pr\u00f3prio, \u00e9 uma cont\u00ednua apoteose.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Mesmo quando uma rela\u00e7\u00e3o atravessa no ritmo, leoninos t\u00eam dificuldade de aceitar o final, seria admitir um fracasso, palavra riscada do dicion\u00e1rio de muitos nativos do signo. Caetano tem seu jeito particular de lidar com isso, todo leonino gosta de imprimir sua assinatura \u00fanica no que faz: &#8221; Nosso amor n\u00e3o deu certo \/ Gargalhadas e l\u00e1grimas \/ De perto \/ Fomos quase nada \/ Tipo de amor que n\u00e3o pode dar certo \/ Na luz da manh\u00e3&#8221;&#8230; &#8221; N\u00e3o me queixo \/ Eu n\u00e3o soube te amar \/ Mas n\u00e3o deixo \/ De querer conquistar \/ Uma coisa qualquer em voc\u00ea! \/ O que ser\u00e1? \/\/ Nada tem que dar certo \/ Nosso amor \u00e9 bonito \/ S\u00f3 n\u00e3o disse ao que veio \/ Atrasado e aflito \/ E paramos no meio \/ Sem saber os desejos aonde \u00e9 que iam dar \/ E aquele projeto ainda estar\u00e1 no ar&#8221;, leoninos n\u00e3o desistem facilmente, &#8220;N\u00e3o quero que voc\u00ea \/ Fique fera comigo \/ Quero ser seu amor \/ Quero ser seu amigo&#8230;&#8221; , e com alguma frequ\u00eancia justificam e pontuam, &#8220;Meu cora\u00e7\u00e3o galinha de Le\u00e3o \/ N\u00e3o quer mais amarrar frustra\u00e7\u00e3o&#8230; &#8220;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">J\u00e1 quando a grandeza n\u00e3o cabe dentro de si, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 export\u00e1-la. Assim, leoninos gostam tamb\u00e9m de real\u00e7ar e engrandecer amigos. Mestre nessa arte, Caetano os cita em abund\u00e2ncia em sua obra, Wally Salom\u00e3o, Sacarlet Moon, Mautner&#8230; E mostra o desejo de sempre motiv\u00e1-los para ir adiante. E, ningu\u00e9m tem tanto tato para elogiar como os filhos de Le\u00e3o. Eles gostam de estar atentos ao tom em que falam as coisas. Sabem que o tom faz toda a diferen\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Quando Caetano fez &#8220;Menino do Rio&#8221; para o Petit achei que ele tinha sido muito corajoso. Explico, Petit foi meu colega de adolesc\u00eancia, de manh\u00e3 estud\u00e1vamos juntos, de tarde peg\u00e1vamos onda no Arpoador e nos finais de semana nos encontr\u00e1vamos nas festas de amigos em comum. Com seus cabelos desgrenhados ele me enganou por muito tempo passando por um cara &#8220;avan\u00e7ado&#8221; e aberto. Mas, por tr\u00eas vezes ele, que sempre se portava como amigo gentil, pareceu surtar e quis brigar a socos e pontap\u00e9s comigo; a primeira por eu n\u00e3o querer ir para a cama com uma amiga de col\u00e9gio que ele tentou com insist\u00eancia ganhar, aquilo mexeu com o machismo dele de uma maneira inusitada. As outras duas foram por raz\u00f5es parecidas. E brigamos mesmo, nas duas primeiras vezes consegui dobr\u00e1-lo na conversa, mas na terceira ele tinha bebido e n\u00e3o consegui evitar. Como ele fazia o tipo &#8220;sarado&#8221; e eu n\u00e3o, o resultado foi um olho roxo por 2 semanas. Quando vi o Caetano cham\u00e1-lo de &#8220;calor que provoca arrepio&#8221; e oferecer aquela can\u00e7\u00e3o &#8220;como um beijo&#8221; disse, esse cara \u00e9 atrevido mesmo, magrinho desse jeito mexer com o ninho de marimbondos da cabe\u00e7a do Petit&#8230; Mas ele aceitou o beijo masculino. E mudou sua vida com aquilo. Claro, Petit j\u00e1 era crescido e j\u00e1 n\u00e3o mais precisava ostentar certas ideias bobas de adolescente, mas de qualquer maneira pensei, leoninos t\u00eam uma maneira bonita de ado\u00e7ar palavras e torn\u00e1-las atraentes e aceit\u00e1veis. E t\u00eam uma habilidade interessante de influenciar o outro para se tornar algu\u00e9m melhor, n\u00e3o por apontar o &#8220;defeito&#8221; que deve ser mudado, mas a qualidade que pode crescer nele. Eles conseguem identificar um tra\u00e7o positivo que est\u00e1 na sombra da pessoa, no limbo e que ningu\u00e9m notava e traz\u00ea-lo para a luz, torn\u00e1-lo destaque e refer\u00eancia de sua personalidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">E sabem usar essa destreza n\u00e3o apenas no pessoal, mas tamb\u00e9m no social, conseguem pin\u00e7ar e real\u00e7ar coisas valiosas em meio ao caos do mundo. Foi se fiando nessa compet\u00eancia que Caetano desbravou o terreno nacional em &#8220;Tropic\u00e1lia&#8221;, sob o zunido de avi\u00f5es, sobre o trepidar de caminh\u00f5es, seguiu a dire\u00e7\u00e3o apontada pelo pr\u00f3prio nariz e avisou &#8220;Eu organizo o movimento \/ Eu oriento o carnaval \/ Eu inauguro o monumento \/ No planalto central do pa\u00eds.&#8221; Sim, os nativos desse signo sabem e querem estar no centro. No centro da reuni\u00e3o, no centro do pa\u00eds ou no centro do Universo. E sentem que podem faz\u00ea-lo. Le\u00e3o rege o cora\u00e7\u00e3o no corpo humano, e sente inclina\u00e7\u00e3o para ser o cora\u00e7\u00e3o da comunidade em que vive, ser o centro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">E, o que \u00e9 &#8220;organizar o carnaval no planalto central do pa\u00eds&#8221; para algu\u00e9m que nasceu &#8220;para ser o superbacana&#8221;? Algu\u00e9m que, mesmo &#8220;em meio a um batalh\u00e3o de super-her\u00f3is&#8221;, encontra espa\u00e7o para brilhar como &#8220;O Superbacana&#8221; e ainda se d\u00e1 ao direito de interromper o maestro com naturalidade? Leoninos sabem de sua voca\u00e7\u00e3o para estar no centro, sentem algo no meio de seus peitos que aponta, como uma certeza, nessa dire\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">E a inclina\u00e7\u00e3o para o centro facilmente alimenta o narcisismo, Caetano \u00e9 direto ao assumir seu narcisismo em &#8220;Sampa&#8221; e d\u00e1 pista de que a dificuldade de lidar com o novo dos nativos de Le\u00e3o &#8211; que costumam se sentir mais seguros com a cena sob controle, com tudo correndo dentro do planejado &#8211; \u00e9 a origem do narcisismo; que esse funciona em parte como uma defesa, uma armadura frente ao desconhecido: &#8220;\u00c9 que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi \/ Da dura poesia concreta de tuas esquinas \/ Da deseleg\u00e2ncia discreta de tuas meninas \/\/ Ainda n\u00e3o havia para mim, Rita Lee \/ A tua mais completa tradu\u00e7\u00e3o&#8221;&#8230;&#8221; Quando eu te encarei frente a frente n\u00e3o vi o meu rosto \/ Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto \/ \u00c9 que Narciso acha feio o que n\u00e3o \u00e9 espelho \/ E \u00e0 mente apavora o que ainda n\u00e3o \u00e9 mesmo velho \/ Nada do que n\u00e3o era antes quando n\u00e3o somos Mutantes \/\/ E foste um dif\u00edcil come\u00e7o \/ Afasta o que n\u00e3o conhe\u00e7o&#8230;&#8221;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">A rela\u00e7\u00e3o com o desconhecido \u00e9 seara do signo oposto e complementar de Le\u00e3o, Aqu\u00e1rio. Mas, toda pessoa s\u00f3 se torna completa se desenvolver as caracter\u00edsticas de seu signo complementar. E o leonino quer ser pleno. Principalmente um que canta que &#8220;nunca quis pouco&#8221;. Mais uma vez Caetano n\u00e3o foge ao desafio e assume as principais caracter\u00edsticas da natureza aquariana latente em todo leonino.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Assume o sentimento de inadequa\u00e7\u00e3o dos aquarianos ao banal e ordin\u00e1rio ao reclamar sobre a guitarra que imita, estridente, com a pr\u00f3pria boca: &#8220;n\u00e3o quero mais essas tardes mornais, normais&#8230;&#8221; assume a necessidade de liberdade aquariana quando proclama &#8220;eu digo n\u00e3o ao n\u00e3o \/ eu digo, \u00e9 proibido proibir&#8221;&#8230;&#8221;Derrubar as prateleiras \/ As estantes, as est\u00e1tuas \/ As vidra\u00e7as&#8230;&#8221;; assume ainda a irrever\u00eancia criativa aquariana: &#8220;N\u00e3o tenho nada com isso, nem vem falar, \/ Eu n\u00e3o consigo entender sua l\u00f3gica, \/ Minha palavra cantada pode espantar&#8230;&#8221;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Mas, encarna principalmente o lado prof\u00e9tico aquariano, presente por exemplo em &#8220;Um \u00cdndio&#8221;. Aqu\u00e1rio \u00e9 um signo extremamente intuitivo e munido de dons prof\u00e9ticos, mas o Le\u00e3o, no af\u00e3 &#8211; quase necessidade &#8211; de ser portador de boas not\u00edcias, muitas vezes se faz de arauto, anunciador das novidades. Caetano anuncia que &#8221; Um \u00edndio descer\u00e1 de uma estrela colorida, brilhante&#8221; &#8220;preservado em pleno corpo f\u00edsico&#8221;, encarnando &#8220;o esp\u00edrito do espa\u00e7o e as fontes de \u00e1gua l\u00edmpida, mais avan\u00e7ado que a mais avan\u00e7ada das tecnologias&#8230;&#8221;. Um homem, preservado em sua humanidade, que vir\u00e1 em plena era tecnol\u00f3gica e ser\u00e1 a resposta que a tecnologia n\u00e3o conseguia apontar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Na Era de Aqu\u00e1rio na qual estamos entrando, os valores leoninos ter\u00e3o a tend\u00eancia a serem esquecidos ou diminu\u00eddos em sua import\u00e2ncia, sempre foi assim, toda era tem uma Idade M\u00e9dia em que os valores do signo oposto s\u00e3o marginalizados ou at\u00e9 perseguidos. Na Era de Peixes, Virgem foi perseguido, Virgem \u00e9 a Ci\u00eancia e a Natureza, que foram perseguidas em nome da preponder\u00e2ncia da f\u00e9, marca registrada de Peixes. Aqu\u00e1rio est\u00e1 ligado ao progresso, \u00e0 tecnologia e os valores humanos e do cora\u00e7\u00e3o a Le\u00e3o, a tend\u00eancia na nova Era ser\u00e1 a tecnologia imperar e o humano, os valores do cora\u00e7\u00e3o dan\u00e7arem ou ao menos ficarem esquecidos por algum tempo no decorrer dela. \u00c9 preciso preserv\u00e1-los.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Algum leonino precisar\u00e1 chamar para si essa responsabilidade de lembrar constantemente a import\u00e2ncia do humano, de n\u00e3o nos robotizarmos. A tecnologia \u00e9 moderna e tem seu valor, mas existe uma coisa eterna, mais importante, o amor, existente no homem natural. E Caetano anuncia a vit\u00f3ria do rom\u00e2ntico e natural sobre a tecnologia e a l\u00f3gica com a for\u00e7a e paix\u00e3o leoninos: &#8220;Vir\u00e1, imp\u00e1vido que nem Mohamed Ali \/ vir\u00e1, apaixonadamente como Peri \/ vir\u00e1, tranquilo e infal\u00edvel como Bruce Lee&#8230;&#8221; ; avisa que &#8220;Surpreender\u00e1 a todos, n\u00e3o por ser ex\u00f3tico, mas pelo fato de poder ter estado sempre oculto quando ter\u00e1 sido o \u00f3bvio.&#8221; Surpreender\u00e1 n\u00e3o por caracter\u00edsticas aquarianas, mas leoninas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">A s\u00edntese que Caetano faz em sua obra entre as qualidades leoninas e aquarianas alimenta e engrandece n\u00e3o apenas sua gera\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, \u00e9 refer\u00eancia e heran\u00e7a preciosa e de imensa utilidade para as gera\u00e7\u00f5es que vir\u00e3o. Afinal, se todo leonino tem voca\u00e7\u00e3o para super-pai, o mesmo vale para super-av\u00f4. Que o reino da alegria e da celebra\u00e7\u00e3o possa sobreviver aos caminhos e descaminhos que experimentaremos.<\/span><\/p>\n<h4 align=\"right\">Pedro Tornaghi<\/h4>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000080;\">Caetano \u00e9 o homenageado no cap\u00edtulo sobre o signo de Le\u00e3o no livro &#8220;Leonardo Astr\u00f3logo&#8221;<\/span><\/h3>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000080;\">Veja em<\/span><\/h4>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000080;\"><a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2015\/04\/1617905-leonardo-astrologo-percorre-a-trilha-da-astrologia-com-leveza-e-graca.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener noreferrer\"><span style=\"color: #000080;\">http:\/\/<wbr \/>www1.folha.uol.com.br\/<wbr \/>ilustrada\/2015\/04\/<wbr \/>1617905-leonardo-astrologo-<wbr \/>percorre-a-trilha-da-astro<wbr \/>logia-com-leveza-e-graca.s<wbr \/>html<\/span><\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000080;\"><a href=\"http:\/\/editoras.com\/leonardo-astrologo\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener noreferrer\"><span style=\"color: #000080;\">http:\/\/editoras.com\/<wbr \/>leonardo-astrologo\/<\/span><\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>. Todo artista leonino gosta de se ver espelhado em sua obra, mas alguns fazem isso mais abertamente que outros. Caetano Veloso talvez seja o exemplo mais extremo de que se tem not\u00edcia; \u00e9 poss\u00edvel fazer um curso inteiro sobre o signo de Le\u00e3o se atentarmos \u00e0s letras de suas<a class=\"read-more\" href=\"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?p=3474\">Continue Lendo<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-3474","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3474","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3474"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3474\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5454,"href":"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3474\/revisions\/5454"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3474"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3474"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3474"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}