{"id":2882,"date":"2014-04-19T10:56:38","date_gmt":"2014-04-19T13:56:38","guid":{"rendered":"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?page_id=2882"},"modified":"2020-11-06T23:24:38","modified_gmt":"2020-11-07T02:24:38","slug":"tirando-coelhos-da-cartola-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?p=2882","title":{"rendered":"Tirando Coelhos da Cartola"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 14pt;\">A primeira lembran\u00e7a que tenho de uma P\u00e1scoa \u00e9 de minha inf\u00e2ncia em Itaipava. Ao acordar, eu e meus irm\u00e3os procur\u00e1vamos ovos de chocolate engenhosamente escondidos pela casa e pelo jardim. Mais tarde, \u00edamos todos ao Itaipava Country Clube onde nossos pais se esfor\u00e7avam para fazer o melhor para n\u00f3s em m\u00faltiplas brincadeiras, como corridas com ovo na colher, corridas com sacos envolvendo as pernas e por \u00faltimo, a que todos mais gost\u00e1vamos: ganh\u00e1vamos pintinhos e em seguida soltavam dezenas de coelhos de casinhas de madeira em um grande\u00a0 campo de futebol gramado onde corr\u00edamos, cerca de 20 crian\u00e7as, atr\u00e1s dos cerca de quarenta coelhos. Quem pegasse algum poderia lev\u00e1-lo para si. E meus pais eram generosos, n\u00e3o nos deixavam criar os pintos at\u00e9 crescerem porque t\u00ednhamos que voltar para o Rio de Janeiro onde mor\u00e1vamos em apartamento, mas, nos deixaram criar um dos coelhos, solto no apartamento, por anos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Essas experi\u00eancias eram marcantes e a P\u00e1scoa era uma del\u00edcia esperada todos os anos. Mas desprovida de maiores significados espirituais para n\u00f3s. Nunca entendia e nunca me explicavam a rela\u00e7\u00e3o de um coelho ou de ovos de chocolate com a p\u00e1scoa religiosa. Minha fam\u00edlia era extremamente crist\u00e3, daquelas que levava a s\u00e9rio a missa. Em lugar nobre da sala em nossa casa havia um orat\u00f3rio, um m\u00f3vel cheio de santos onde meu pai e minha m\u00e3e rezavam todas as noites. E pediam por mim e meus irm\u00e3os. Meu pai sempre dizia que pedia a Deus que desse jeito em mim, e me orientasse onde ele se sentia falhando: em me fazer acreditar nas mesmas coisas que ele. Em grande parte o rogo parecia nunca funcionar e eu teimava em ter opini\u00e3o pr\u00f3pria, discordante da dele em mais pontos do que ele achava razo\u00e1vel e conveniente. Mas ele respeitava e permitia as diferen\u00e7as, embora voltasse a pedir todas as noites a seus santos que me afinassem com aquilo que acreditava ser o melhor para mim.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Com tamanha devo\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja, eles se esfor\u00e7avam para que a P\u00e1scoa fosse realmente inesquec\u00edvel. O faziam com um amor e zelo tocantes. Mas, embora fosse f\u00e1cil perceber um enorme significado emocional naquelas comemora\u00e7\u00f5es, eu nunca entendia a rela\u00e7\u00e3o entre um ovo e um coelho, uma vez que coelhos n\u00e3o colocavam ovos. E muito menos a rela\u00e7\u00e3o entre aquela festa de coelhos e ovos pintados de alegria e do\u00e7ura e o sacrif\u00edcio de Cristo, tal qual me contavam. Para mim a p\u00e1scoa era comemora\u00e7\u00e3o do mart\u00edrio de Cristo e n\u00e3o da ressurrei\u00e7\u00e3o. Nunca via pessoas com cristos ressuscitando em seus pesco\u00e7os, somente com cruzes. E, minhas aulas de catecismos eram mais centradas no fato de que aquele homem havia morrido e sofrido por mim. A ressurrei\u00e7\u00e3o passava quase que desapercebida no discurso do padre.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Oras eu perguntava e ficava sem resposta, oras me esfor\u00e7ava para ligar os fatos por mim mesmo, mas era imposs\u00edvel para meus prec\u00e1rios neur\u00f4nios. E ficava me sentindo incapaz. O significado da p\u00e1scoa parecia escapar de minhas m\u00e3os com a mesma facilidade com que o coelho que cri\u00e1vamos pulava para fora de meus dedos quando brinc\u00e1vamos. E parecia n\u00e3o haver men\u00e7\u00e3o a coelhos no evangelho, de onde eles tinham sa\u00eddo? Com que prop\u00f3sito? Perguntei a outras fam\u00edlias de amigos, mas nenhum outro pai foi feliz em me esclarecer. Me impressionava sempre quantos rituais os adultos eram capazes de repetir sem se perguntar o significado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Mais tarde, um dia refleti que a p\u00e1scoa era comemorada no in\u00edcio da primavera no hemisf\u00e9rio norte, de onde vem nossa cultura. Da\u00ed imaginei que coelhos e ovos remetessem \u00e0 fertilidade, ao novo ciclo de vida que as plantinhas inauguravam a cada novo m\u00eas de mar\u00e7o e abril, ap\u00f3s um inverno rigoroso, onde toda a seiva havia sido guardada em suas ra\u00edzes, como garantia e meio de sobreviv\u00eancia ao rigor da esta\u00e7\u00e3o fria. Custei a entender que essa alegoria da vida brotando poderia tamb\u00e9m estar ligada \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o do Cristo, ap\u00f3s os anos de submiss\u00e3o \u00e0 for\u00e7a dram\u00e1tica da cruz eclipsando qualquer imagem de ressurrei\u00e7\u00e3o em minha mente infantil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Mas foi depois de adulto, lendo o Popol-Vuh, o livro sagrado maia, que comecei a vislumbrar a universalidade da imagem do coelho. Para eles, Menebuch, um coelho gigante, era a divindade m\u00e1xima que combateu monstros gigantes no grande dil\u00favio e restabeleceu a vida tal qual est\u00e1 at\u00e9 os dias de hoje no planeta. Menebuch apareceu na Terra em forma de uma pequena lebre e possibilitou ao homem que vivesse como o faz hoje em dia. Ensinou a ele a destreza e as artes manuais. O deus coelho era considerado pelos maias o \u00fanico interlocutor entre o mundo do sagrado e o terreno. O Messias por assim dizer. Mais tarde, quando evangelizados e constrangidos a abandonar seus &#8220;deuses pag\u00e3os&#8221; pelo colonizador, os descendentes dos maias passaram a representar Menebuch como Jesus Cristo. Assim como fizeram os afro-descendentes no Brasil ao buscar referenciais da Igreja Cat\u00f3lica que representassem e possibilitassem a continua\u00e7\u00e3o do culto e adora\u00e7\u00e3o a seus orix\u00e1s.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Ainda segundo os maias a deusa Lua certo dia, vendo-se em perigo, foi socorrida por um coelho que, salvando-a, salvou o princ\u00edpio da renova\u00e7\u00e3o c\u00edclica da vida, o princ\u00edpio que rege a continuidade das esp\u00e9cies vegetais, animais e humana. Com isso, eternizou-se como um patrono da fertilidade e entidade ligada \u00e0 primavera. Especificamente para os maias algonquinos, que habitavam e cujos descendentes ainda habitam a costa oeste norte-americana desde o Canad\u00e1 at\u00e9 o M\u00e9xico, assim como para alguns povos sioux, o coelho possui o segredo da vida elementar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Mais tarde fui descobrir que para os Eg\u00edpcios, que mantiveram o povo judeu escravizado e de cujas terras a fuga deu a origem \u00e0 p\u00e1scoa judaica, o coelho tamb\u00e9m era detentor dos segredos da origem da vida. Na mitologia eg\u00edpcia Os\u00edris \u00e9 por vezes representado por uma lebre que \u00e9 despeda\u00e7ada e atirada no fecundo rio Nilo para garantir que a regenera\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica n\u00e3o falte \u00e0quele povo. O povo eg\u00edpcio tinha o Nilo como centro da vida. A rela\u00e7\u00e3o que outros povos t\u00eam entre a primavera e a fertilidade, o eg\u00edpcio tinha com os ciclos de cheias do rio. Na \u00e9poca do ano em que ele enchia, alargava em quil\u00f4metros suas margens. Na esta\u00e7\u00e3o de baixa das \u00e1guas, o povo plantava na extens\u00e3o de terra fertilizada pelo alagamento e corria para colher antes da pr\u00f3xima cheia. Por essa raz\u00e3o o povo eg\u00edpcio desenvolveu t\u00e9cnicas revolucion\u00e1rias de armazenamento de alimentos, que permitiram o encaminhamento da humanidade na dire\u00e7\u00e3o do que hoje em dia se chama civiliza\u00e7\u00e3o urbana. O Nilo era a renova\u00e7\u00e3o e fertilidade. E o coelho se misturava ao s\u00edmbolo da \u00e1gua por l\u00e1.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Ainda nos dias de hoje, os camponeses xiitas da Anat\u00f3lia respeitam a proibi\u00e7\u00e3o de se alimentar de coelhos por defenderem que o animal \u00e9 encarna\u00e7\u00e3o de Ali, para eles o interlocutor entre Al\u00e1 e os crentes. Tamb\u00e9m na China cl\u00e1ssica a lebre representava a ideia de morrer para renascer e por isso \u00e9 representada em imagens da alquimia taoista sempre preparando a &#8220;po\u00e7\u00e3o da imortalidade&#8221;. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil encontrar rela\u00e7\u00e3o entre o coelho e o ciclo de renova\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a de nova vida, que costuma ser identificada como a raz\u00e3o do coelho representar a p\u00e1scoa. Por\u00e9m, s\u00edmbolos n\u00e3o fincam ra\u00edzes por quest\u00f5es racionais, mas org\u00e2nicas. Acho que uma das principais raz\u00f5es para o coelho ter &#8220;colado&#8221; como s\u00edmbolo da p\u00e1scoa crist\u00e3 \u00e9 sua rela\u00e7\u00e3o com a delicadeza e a sensibilidade. Coelhos s\u00e3o seres lunares por que dormem durante o dia e saem \u00e0 noite em pulos e saltos. E sabem, como a lua, aparecer e desaparecer com o sil\u00eancio e a efic\u00e1cia das sombras. Foram identificados com a lua n\u00e3o apenas pelos maias, manchas da lua s\u00e3o vistas como coelhos em diferentes civiliza\u00e7\u00f5es europeias, asi\u00e1ticas, africanas ou entre os astecas que dividiam a Am\u00e9rica do Norte com os maias. E, identificados com a lua, suas representa\u00e7\u00f5es divinas s\u00e3o sempre descritas como entidades que se imp\u00f5em pela delicadeza.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Cristo inaugurou a era de Peixes, encerrando a de \u00c1ries. Na era de \u00c1ries, a espiritualidade esteve sempre ligada ao esp\u00edrito guerreiro. Gregos, persas, indianos e povos n\u00f3rdicos foram invadidos e dominados por Arianos vindos das estepes russas, que trouxeram consigo uma mitologia repleta de her\u00f3is guerreiros. Os profetas dessas civiliza\u00e7\u00f5es vinham sempre das castas guerreiras. Cristo vem ao mundo para inaugurar uma religi\u00e3o baseada na delicadeza, no amor matizado de gentileza, no perd\u00e3o, em uma maneira feminina de se relacionar com a espiritualidade. Muito diferente do b\u00e9lico Odim &#8220;deus dos deuses&#8221; n\u00f3rdicos, muito diferente do indiano Krishna, um general que n\u00e3o hesita em aconselhar seu disc\u00edpulo a mergulhar em uma guerra sangrenta e n\u00e3o parar com o banho de sangue at\u00e9 que o poder da \u00cdndia esteja em suas m\u00e3os e seus primos mortos; em um racioc\u00ednio \u00e9tico oposto ao do profeta de &#8220;Dai a C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar e a Deus o que \u00e9 de Deus&#8221; ou de &#8220;D\u00ea a outra face ao inimigo&#8221;. Muito diferente da cren\u00e7a imperialista dos aqueus na Gr\u00e9cia, ou de Dario e Xerxes na P\u00e9rsia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Enquanto os deuses b\u00e9licos das civiliza\u00e7\u00f5es de cultura ariana eram her\u00f3is solit\u00e1rios que impunham justi\u00e7a e ordem pela for\u00e7a, o coelho surge como um animal delicado e grupal, que considera o outro como igual. Segundo Gilbert Durand,\u00a0<em>&#8220;Para os negros da \u00c1frica e da Am\u00e9rica, assim como para alguns \u00edndios, a Lua \u00e9 a lebre, animal her\u00f3i e m\u00e1rtir, cuja ambi\u00eancia simb\u00f3lica deve ser associada ao cordeiro crist\u00e3o, animal doce e inofensivo, emblema do Messias lunar, do filho em oposi\u00e7\u00e3o ao guerreiro solit\u00e1rio&#8221;.\u00a0<\/em>Coelhos s\u00e3o companheiros e caem como uma luva para representar uma religi\u00e3o ligada \u00e0 era de peixes, fundada teoricamente no amor ao pr\u00f3ximo e na democratiza\u00e7\u00e3o do divino.<\/span><\/p>\n<h4 style=\"text-align: right;\">Pedro Tornaghi<\/h4>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ffffff; font-size: 13px;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000080;\">Leia tamb\u00e9m:<\/span><\/h3>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ffffff; font-size: 18pt;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000080; font-size: 18pt;\">A Lei do Dharma e as Leis dos Homens:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000080; font-size: 14pt;\"><a style=\"color: #000080;\" href=\"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?page_id=2477\">https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?page_id=2477<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000080; font-size: 18pt;\">O Sentido do Reveillon:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000080; font-size: 14pt;\"><a style=\"color: #000080;\" href=\"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?page_id=2656\">https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?page_id=2656<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000080; font-size: 18pt;\">Reveillon e Espiritualidade:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000080; font-size: 14pt;\"><a style=\"color: #000080;\" href=\"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?page_id=1763\">https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?page_id=1763<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ffffff; font-size: 13px;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira lembran\u00e7a que tenho de uma P\u00e1scoa \u00e9 de minha inf\u00e2ncia em Itaipava. 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