{"id":2456,"date":"2013-09-13T10:48:38","date_gmt":"2013-09-13T13:48:38","guid":{"rendered":"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?page_id=2456"},"modified":"2020-11-10T19:24:12","modified_gmt":"2020-11-10T22:24:12","slug":"afogado-no-mar-sem-horizonte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?p=2456","title":{"rendered":"Afogado no Mar sem Horizonte"},"content":{"rendered":"<h5><\/h5>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong><em>Ai, caio,<\/em><\/strong><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 12pt;\"> <strong><em>como um raio.<\/em><\/strong><\/span><\/h5>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: 14pt; color: #ffffff;\">&nbsp;&nbsp;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Admiro sua profundidade, mesmo que, em lugar equivocado. Voc\u00ea aprofunda os sete palmos da derradeira retirada do mundo e nomeia de vida profunda o que \u00e9 a pr\u00f3pria fuga da vida. Suas palavras fortes me sensibilizam, a intensidade da sua seiva \u00e9 nobre, mas, envenenada. Admiro o que h\u00e1 de honesto na sua busca, mas, repudio e temo, temo o que h\u00e1 de desvio, de veneno amargo e cruel, esse veneno com o qual voc\u00ea se acostumou, se enamorou e por fim se viciou, esse veneno que tem te mantido vivo, mas nos cinco por cento de vitalidade, n\u00e3o responde nem \u00e0s suas quest\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 honesto achar que ele responda \u00e0 minha.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Por favor, poupe-me. Como tem poupado ali\u00e1s, entre momentos de perigo de erup\u00e7\u00e3o dos seus instintos mais incontrol\u00e1veis. A delicadeza hip\u00f3crita que voc\u00ea acusa de mediar nossas conversas e eternizar o erro de nossa rela\u00e7\u00e3o atrapalhada, tem sido sobreviv\u00eancia para n\u00f3s. Conhe\u00e7o, talvez como s\u00f3 voc\u00ea conhe\u00e7a, seu lado lobisomem e vampiro, que tantas vezes vi acordado e excitado \u00e0 Lua Cheia e \u00e0 Nova. Ele j\u00e1 est\u00e1 insegur\u00e1vel, querendo aparecer at\u00e9 sob o Sol. Ora ora. Afago seus pelos e ele me rosna, resignado, com medo de que a mordida seja fatal e definitiva, o fim do pr\u00f3prio lobisomem. Ok. Voc\u00ea se esconde por tr\u00e1s das palavras fortes e eu, impotente, tento me revelar nelas. Meu lado vampiro, suga cada gota do n\u00e9ctar inteligente que se derrama de seu desespero por mim, na esperan\u00e7a de lan\u00e7ar luz sobre tudo isso, e sobre todo o resto.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Cruelmente, busco luz no generoso sacrif\u00edcio, embalado pela sinfonia do seu desespero. Escuto s\u00f3 a abertura. Nunca tenho coragem de ficar at\u00e9 o auge, com medo de que a desgra\u00e7a anunciada no primeiro movimento se consuma. N\u00e3o h\u00e1 por que n\u00e3o se consumar. Mas, no dia seguinte, te provoco a cantar novamente a abertura, que me alimenta, preenche e tamb\u00e9m me permite continuar, continuar nossa hist\u00f3ria sem desfecho, de dois amantes, que at\u00e9 hoje n\u00e3o sabem se se escolheram ou se foram simplesmente riscados na mesma pauta, mas que sabem n\u00e3o poder escapar do conv\u00edvio comum, do fluir de um cora\u00e7\u00e3o rumo ao outro, de uma alma que deita, com rara delicadeza, os olhos sobre a sensibilidade da outra e, corre de um lado a outro antes que algo mais se consuma. Algo que se anuncia tr\u00e1gico. Algo que se ambiciona tr\u00e1gico e que se teme tr\u00e1gico. Voc\u00ea \u00e9 desejo e medo. O voc\u00ea que ainda n\u00e3o se conseguiu inventar \u00e9 o meu desejo, assim como sei que o eu que ainda n\u00e3o consegui inventar \u00e9 o seu pavor.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">\u00c9 c\u00ednico sim. Sou c\u00ednico tamb\u00e9m, mas, por favor, n\u00e3o condene j\u00e1 o cinismo. Devemos a ele, talvez, a mais importante rela\u00e7\u00e3o afetiva que j\u00e1 ousamos, por mais que n\u00e3o ousemos e teimemos em n\u00e3o ousar. Devemos a ele a n\u00e3o exist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o, mas devemos tamb\u00e9m sua possibilidade de existir. Talvez, se pudermos desmontar com calma o cinismo, possamos nos ir aproximando devagar, da \u00fanica maneira poss\u00edvel sem que nossos fogos, eternamente apaixonados, devorem a vida que h\u00e1 em n\u00f3s.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Mas voc\u00ea. Voc\u00ea dinamita, s\u00fabito, o cinismo, em \u00edmpetos incontidos de se revelar. E n\u00e3o se revela em coisa alguma. E eu mais uma vez assisto. Que jeito. Assisto ao show que j\u00e1 conhe\u00e7o, do desespero existencial de quem quer se apresentar inteiro, de quem n\u00e3o aguenta mais suas faltas e car\u00eancias, que voc\u00ea sabe que n\u00e3o vieram de mim, mas que nutre a esperan\u00e7a de que eu seja solu\u00e7\u00e3o. Esperan\u00e7a c\u00ednica voc\u00ea sabe, esperan\u00e7a de quem sabe que se engana para continuar remando o barco, remando, remando&#8230; e voc\u00ea tira ganhos disso, claro que tira. Mas sabe que os ganhos s\u00e3o migalhas. Te mant\u00eam respirando, mas em caixa baixa. \u00c0 meia vela. Qual o sentido?&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Vou remando tamb\u00e9m sabendo que h\u00e1 algum descanso quando me atraco ao seu barco, e pegamos carona um na meia vela do outro&#8230; Mas n\u00e3o somos vocacionados para a metade. Nunca fomos ou nunca acreditamos s\u00ea-lo. Em, nosso mar sem fim, planamos e criamos nossas pr\u00f3prias tempestades para contornar a monotonia. Voc\u00ea teme a melancolia. Voc\u00ea teme a monotonia. Eu, o abandono. E me sinto estranhamente n\u00e3o abandonado por voc\u00ea, como n\u00e3o conhecia, como n\u00e3o me sentia, talvez, h\u00e1 vidas. Mas, sei que voc\u00ea n\u00e3o me entende nada. N\u00e3o quer. N\u00e3o pode. T\u00e3o ocupado que est\u00e1 em me fantasiar como o fim do seu sofrimento e isolamento. Mas, da maneira que voc\u00ea imagina, n\u00e3o, da maneira que podia ser.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">De qualquer modo, voc\u00ea \u00e9 ousado. E me quer ver usado. Voc\u00ea me pede verdades existenciais, que quando come\u00e7o a diz\u00ea-las, voc\u00ea se esconde feito filhote de lobo apavorado. Depois, fantasia que conversamos como lobos adultos. N\u00e3o. N\u00e3o fa\u00e7a isso. Ainda n\u00e3o \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o. Nem ao menos o encaminhamento do nosso caso.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Antes, \u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o de tudo o que ele tem de bonito e de feio em banho-maria. Aceito que n\u00e3o digeri o que vomito sobre voc\u00ea, e, agrade\u00e7o \u2013 como sempre agradeci \u2013 tua sinceridade neste ponto. N\u00e3o sei se conseguirei digerir. Isso seria maturidade e voc\u00ea sabe \u2013 sempre reclamou disso \u2013 o quanto isso \u00e9 dif\u00edcil para mim agora. Mas, come\u00e7arei devargarinho, tentando comer o angu pelas bordas. Mas, confesso que tamb\u00e9m o quero adulto. E, o meu lado crian\u00e7a que voc\u00ea implica e cobra, \u00e9 dele que o seu vampiro se alimenta, na dificuldade de se prover do pr\u00f3prio sangue.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Tamb\u00e9m enxergo onde voc\u00ea n\u00e3o digere. Talvez os deuses pudessem ser mais generosos e ter nos permitido, a n\u00f3s dois, nos enxergarmos com a mesma clareza e falta de pontos cegos com que enxergamos um ao outro. Ou pelo menos nos desse a sabedoria de enxergar um pouco mais, um pelos olhos do outro. Admiro sua lucidez, mas odeio sua cegueira. Mas n\u00e3o tenho o direito de te cobrar nada. Voc\u00ea, que foi mais generoso, atencioso e delicado comigo do que tudo mais de anterior. Voc\u00ea que foi curativo nem sei de qu\u00ea em mim&#8230; mas de qualquer maneira, sofro por n\u00e3o podermos ir adiante. Uma rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o oce\u00e2nica e.. sem horizonte. Eu com medo de me afogar, e voc\u00ea de morrer de sede. Eu feliz, e voc\u00ea fisgado na rede. Voc\u00ea sonhando com pedras e facas que me atira e eu, at\u00f4nito te ligando para dizer que n\u00e3o entendi. Claro que entendi. Quis dizer apenas que n\u00e3o sei de onde vem isso. Certamente, n\u00e3o foi de mim. Deve ter vindo desse oceano sem fim.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Oceano que \u00e9 voc\u00ea, que sou eu, que passa por n\u00f3s.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">No dia seguinte, ap\u00f3s o sono&#8230;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Faltou dizer:&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Se te vomito o que n\u00e3o digeri, voc\u00ea vomita para todos a tua indigest\u00e3o, numa s\u00faplica de que algu\u00e9m mais engula e d\u00ea conta das pedras que acordaram teu paladar. Mas, que voc\u00ea n\u00e3o suportou. Voc\u00ea \u00e9 corajoso para engolir, mas despreparado para dar conta. E metralha pedras, paus e facas para todo lado. Reverencia o velho ditado passarinho-que-come-pedra-sabe-o-cu-que-tem, mas, com seu pesco\u00e7o magro e comprido, prefere ser a girafa, que regurgita o que engoliu sem ter passado todo o trato intestinal. Suas entranhas ret\u00eam o alimento, num gesto ego\u00edsta\/vivencial, mas, voc\u00ea tamb\u00e9m n\u00e3o suporta ret\u00ea-lo, quer compartilhar, do jeito torto, achando que tenho complexo de Cronos, e que vou bem-vindar suas pedras disfar\u00e7adas de filhos.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Deixo-as para voc\u00ea, que tanto as reverencia e adora. Mas, n\u00e3o deixo de te adorar, com ou sem pedra, tua indigest\u00e3o, teu v\u00f4mito, e as flores que nascem no esterco f\u00e9tido de tua mat\u00e9ria decomposta. Voc\u00ea, que s\u00f3 consegue vislumbrar o para\u00edso atrav\u00e9s do contraste do inferno, voc\u00ea que constr\u00f3i e sustenta o inferno com a esperan\u00e7a de enxergar o mais sublime, mas reconhe\u00e7o, com uma coragem inigual\u00e1vel quando diz: o que vier eu tra\u00e7o. Mas, n\u00e3o tra\u00e7a. Risca tra\u00e7os, mas n\u00e3o tra\u00e7a. Antes de ser poeta, voc\u00ea j\u00e1 era. Mas voc\u00ea procura na poesia o que j\u00e1 existia antes dela. E, como n\u00e3o dizer, me alimenta de poesia, com o gosto e os tra\u00e7os daquilo que est\u00e1 al\u00e9m dela, com o cheiro do que queremos e ambicionamos. Mas, por que n\u00e3o dar o passo? Por que n\u00e3o atravessar para o lado do sublime? Por que o apego \u00e0s cicatrizes? Elas podem ser o mapa, indicar o caminho, mas n\u00e3o s\u00e3o o para\u00edso almejado. Nem substituto \u00e0 altura. Talvez se voc\u00ea n\u00e3o me chicoteasse com sua dor, fosse poss\u00edvel a comunh\u00e3o desejada. Talvez se eu ousasse os riscos de sua emotividade torta, pud\u00e9ssemos ir adiante em algo mais, ou quem sabe em tudo mais. Talvez, mas, dessa vez n\u00e3o foi. N\u00e3o pude, n\u00e3o soube.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">A hipocrisia tem nos salvado do pior. A do\u00e7ura tem mantido a possibilidade. A possibilidade que nos engana, mas que mant\u00e9m um fio vivo, e desse fio, tamb\u00e9m tento decifrar o carretel. Decifro-te ou devoro-te. Sem pressa, mas o fa\u00e7o. E pergunto: podemos dar um passo adiante? Agora???????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????&nbsp;<\/span><\/p>\n<p align=\"right\"><span style=\"font-size: 14pt;\">Pedro Tornaghi<\/span><\/p>\n<p align=\"right\"><span style=\"font-size: 14pt;\">\u201cOs Drag\u00f5es n\u00e3o Reconhecem o Para\u00edso\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"right\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<h1 align=\"center\"><\/h1>\n<h1 align=\"center\"><span style=\"color: #ffffff;\">&nbsp;.<\/span><\/h1>\n<h1 align=\"center\"><span style=\"color: #000080;\">\u00c0 Beira do Mar Aberto<\/span><\/h1>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;e de novo me vens e me contas do mar aberto das costas de tua terra, do vento gelado soprando desde o p\u00f3lo, nos invernos, sem nenhuma ba\u00eda, nenhuma gaivota ou albatroz sobrevoando rasante o cinza das \u00e1guas para mergulhar, como certa vez, em algum lugar, r\u00e1pido iscando um peixe no bico agudo, mas essas outras \u00e1guas que lembro eram claras verdes, havia sol e acho que tamb\u00e9m um reflexo de prata no bico da ave no momento justo do mergulho, nessas \u00e1guas de que me falas quando me tomas assim e me levas para hist\u00f3rias ou caminhadas sem fim n\u00e3o h\u00e1 verde nem \u00e9 claro, o sol n\u00e3o transp\u00f5e as nuvens, e te imagino ent\u00e3o parado sozinho entre a faixa intermin\u00e1vel de areia, o vento que bate em teu rosto, as m\u00e3os com os dedos roxos de frio enfiadas at\u00e9 o fundo dos bolos, o vento e novamente o vento que bate em teu rosto, esse mesmo que n\u00e3o me olha agora, raramente, teu olho bate em mim e logo se desvia, como se em minhas pupilas houvesse uma faca, uma pedra, um gume, teu rosto mais nu que sempre, \u00e0 beira-mar, com esse vento a bater e a revolver teus cabelos e pensamentos, e eu sem saber que me envolve agora quando teu olho outra vez escorrega para fora e longe do meu, entre tua testa larga de onde \u00e0s vezes costuma afastar os cabelos com ambas as m\u00e3os, numa mistura de pregui\u00e7a e sensualidade expostas, e quando teu olho se afasta assim, n\u00e3o sei para onde, talvez para esse mesmo lugar onde te encontravas ontem, \u00e0 beira do mar aberto, onde n\u00e3o penetro, como n\u00e3o te penetro agora, mas \u00e9 quando a pedra ou faca no fundo do meu olho afasta o teu \u00e9 que te olho detalhado, e nunca saber\u00e1s quanto e como j\u00e1 conhe\u00e7o cada mil\u00edmetro da tua pele, esses vincos cada vez mais fundos circundando as sobrancelhas que se erguem s\u00fabitas para depois dilu\u00edrem-se em p\u00ealos cada vez mais ralos, at\u00e9 a regi\u00e3o onde os raspas quase sempre mal, e conhe\u00e7o tamb\u00e9m esses tocos de p\u00ealos duros e secretos, escondidos sob teu l\u00e1bio inferior, levemente partido ao meio, e t\u00e3o dissimulado te espio que nunca me percebes assim, te devassando como se atrav\u00e9s de cada fiapo, de cada poro, pudesse chegar a esse mais de dentro que me escondes sutil, obstinado, atrav\u00e9s de hist\u00f3rias como essa, do mar, das velhas tias, das inicia\u00e7\u00f5es, dos ex\u00edlios, das pris\u00f5es, das cicatrizes, e em tudo que me contas pensando, suponho, que \u00e9 teu jeito de dar-se a mim, percebo farpado que te escondes ainda mais, como se te contando a mim negasses quase deliberado a possibilidade de te descobrir atr\u00e1s e al\u00e9m de tudo que me dizes, \u00e9 por isso que me escondo dessas tuas hist\u00f3rias que me enredam cada vez mais no que n\u00e3o \u00e9s tu, mas o que foste, tento fugir para longe e a cada noite, como uma crian\u00e7a temendo pecados, puni\u00e7\u00f5es de anjos vingadores com espadas flamejantes, prometo a mim mesmo nunca mais ouvir, nunca mais ter a ti t\u00e3o mentirosamente pr\u00f3ximo, e escapo brusco para que percebas que mal suporto a tua presen\u00e7a, veneno, veneno, \u00e0s vezes digo coisas \u00e1cidas e de alguma forma quero te fazer compreender que n\u00e3o \u00e9 assim, que tenho um medo cada vez maior do que vou sentindo em todos esses meses, e n\u00e3o se soluciona, mas volto e volto sempre, ent\u00e3o me invades outra vez com o mesmo jogo e embora supondo conhecer as regras, me deixo tomar por inteiro por tuas estranhas liturgias, a compactuar com teus medos que n\u00e3o decifro, a aceit\u00e1-los como um c\u00e3o faminto aceita um osso descarnado, essas migalhas que me vais jogando entre as palavras e os pratos vazios, torno sempre a voltar, talvez penalizado do teu olho que n\u00e3o se debru\u00e7a sobre nenhum outro assim como sobre o meu, temendo a faca, a pedra, o gume das tuas hist\u00f3rias longas, das tuas mem\u00f3rias tristes, cheias de corredores mofados, donzelas velha trancadas em seus quartos, balc\u00f5es abertos sobre ruazinhas onde mo\u00e7as solteiras secam o cabelo, exibindo os peitos, tornarei sempre a voltar porque preciso desse osso, dos farelos que me t\u00eam alimentado ao longo deste tempo e choro sempre quando os dias terminam porque sei que n\u00e3o nos procuraremos pelas noites, quando o meu perigo aumenta e sem me conter te assaltaria feito um vampiro faminto para te sangrar enquanto meus dentes penetrando nas veias de tua garganta arrancassem do fundo essa vida que me negas delicadamente, de cada vez que me procuras e me tomas, contudo me enveneno mais quando n\u00e3o vens e ningu\u00e9m ent\u00e3o me sabe parado feito velho num resto de sol de agosto, escurecido pela tua aus\u00eancia, e me anoite\u00e7o ainda mais e me entrevo tanto quando est\u00e1s presente e novamente me tomas e me arrancas de mim me desguiando por esses caminhos conhecidos onde atr\u00e1s de cada palavra tento desesperado encontrar um sentido, um c\u00f3digo, uma senha qualquer que me permita esperar por um atalho onde n\u00e3o desvies t\u00e3o s\u00fabito os olhos, onde teu dedo n\u00e3o roce t\u00e3o passageiro no meu bra\u00e7o, onde te detenhas mais demorando sobre isso que sou e penses que sabe que se aceito tuas tramas, e vomitas sobre mim, e depois puxa a descarga e te vais, me deixando repleto dos restos amargos do que n\u00e3o digeriste, mas mesmo assim penses que poderias aceitar tamb\u00e9m meus jogos, esses que n\u00e3o proponho, ah detritos, mas tudo isso \u00e9 in\u00fatil e bem sei de como tenho tentado me alimentar dessa casca suja que chamamos com fome e pena de pequenas-esperan\u00e7as, enquanto definho feito um animal alimentado, apenas com \u00e1gua, uma \u00e1gua rala e pouca, n\u00e3o essa densa espessa turva do mar de que me falaste no come\u00e7o da tarde que agora vai-se indo devagar atr\u00e1s das minhas costas, e parado aqui do teu lado, sem que me vejas, lentamente afio as pedras e as facas do fundo das minhas pupilas, para que a noite n\u00e3o me encontre outra vez insone, recomponho sozinho um por um dos teus tra\u00e7os, dos teus p\u00ealos, para que quando esses teus olhos escuros e parados como as \u00e1guas do mar de inverno na praia onde talvez caminhes ainda, enquanto me adentro em gumes, resvalaram outra vez pelos meus, que seu fio esteja t\u00e3o agu\u00e7ado que possa rasgar-te at\u00e9 o fundo, para que te arrastes nesse ch\u00e3o que juncamos todos os dias de pap\u00e9is rabiscadas e pontas de cigarro, sangrando e gemendo, a implorar de mim aquele mesmo gesto que nunca fizeste, e nem sempre sei exatamente qual seria, mas que nos arrancasse brusco e definitivo dessa mentira gentil onde n\u00e3o sei se deliberados ou casuais afundamos pouco a pouco, b\u00eabados como moscas sobre a\u00e7\u00facar, melados de nossa pr\u00f3pria c\u00ednica do\u00e7ura acovardada, contaminado por nossa falsa pureza, encharcados de palavras e literatura, e depois nos jogasse completamente nus, sem nenhuma hist\u00f3ria, sem nenhuma palavra, nessa mesma beira de mar das costas da tua terra, e de novo ent\u00e3o me vens e me chegas e me invades e me tomas e me pedes e me perdes e te derramas sobre mim com teus olhos sempre fugitivos e abres a boca para libertar novas hist\u00f3rias e outra vez me completo assim, sem urg\u00eancias, e me concentro inteiro nas coisas que me contas, e assim calado, e assim submisso, te mastigo dentro de mim enquanto me apunhalas com lenta delicadeza deixando claro em cada promessa que jamais ser\u00e1 cumprida, que nada devo esperar al\u00e9m dessa m\u00e1scara colorida, que me queres assim porque \u00e9 assim que \u00e9s e unicamente assim \u00e9 que me queres e me utilizas todos os dias, e nos usamos honestamente assim, eu digerindo faminto o que teu corpo rejeita, bebendo teu m\u00e1gico veneno porco que me ilumina e me anoitece a cada dia, e passo a passo afundo nesse charco que n\u00e3o sei se \u00e9 o grande conhecimento de n\u00f3s ou o imenso engano de ti e de mim, nos afastamos depois cautelosos ao entardecer, e na solid\u00e3o de cada um sei que tecemos lentos nossa pr\u00f3xima mentira, t\u00e3o bem urdida que na manh\u00e3 seguinte ser\u00e1 como verdade pura e sorriremos amenos, desviando os olhos, corriqueiros, \u00e0 medida que o dia avan\u00e7a estruturando mil\u00edmetro a mil\u00edmetro uma harmonia que s\u00f3 desabar\u00e1 levemente em cada ro\u00e7ar temeroso de olhos ou de peles, os gelos, os vermes roendo os por\u00f5es que insistimos em manter at\u00e9 que o n\u00e3o-feito acumulado durante todo esse tempo cres\u00e7a feito c\u00e9lula cancerosa para quem sabe explodir em feridas vis\u00edveis indisfar\u00e7\u00e1veis, flores de um louco vermelho na superf\u00edcie da pele que recusamos tocar por nojo ou covardia ou paix\u00e3o t\u00e3o endemoniada que n\u00e3o suportaria a \u00e1gua benta de seu pr\u00f3prio batismo, e enquanto falas e me enredas e me envolves e me fascinas com tua voz monoc\u00f3rdia e sempre baixa, de estranho acento estrangeiro, penso sempre que o mar n\u00e3o \u00e9 esse denso escuro que me contas, sem palmeiras nem ilhas nem ba\u00edas nem gaivotas, mas um outro mais claro e verde, num lugar qualquer onde \u00e9 sempre ver\u00e3o e as emo\u00e7\u00f5es limpas como as areias que pisamos, n\u00e3o sabes desse meu mar porque nada digo, e temo que seja outra vez aquela coisa piedosa, faminta, as pequenas-esperan\u00e7as, mas quando desvio meu olho do teu, dentro de mim guardo sempre teu rosto e sei que por escolha imposs\u00edvel recuar para n\u00e3o ir at\u00e9 o fim e o fundo disso que nunca vivi antes e talvez tenha inventado apenas para me distrair nesses dias onde aparentemente nada acontece e tenha inventado quem sabe em ti um brinquedo semelhante ao meu para que n\u00e3o passem t\u00e3o desertas as manh\u00e3s e as tardes buscando motivos para os sustos e as ins\u00f4nias e as in\u00fateis esperas ardentes e loucas inven\u00e7\u00f5es noturnas, e lentamente falas, e lentamente calo, e lentamente aceito, e lentamente quebro, e lentamente falho, e lentamente caio cada vez mais fundo e j\u00e1 n\u00e3o consigo voltar \u00e0 tona porque a m\u00e3o que me estendes ao inv\u00e9s de me emergir me afunda mais e mais enquanto dizes e contas e repetes essas hist\u00f3rias longas, essas hist\u00f3rias tristes, essas hist\u00f3rias loucas como esta que acabaria aqui, agora, assim, se outra vez n\u00e3o viesses e me cegasses e me afogasses nesse mar aberto que n\u00f3s sabemos que n\u00e3o acaba assim nem agora nem aqui&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/span><\/p>\n<p align=\"right\"><span style=\"font-size: 14pt;\">Caio Fernando Abreu<\/span><\/p>\n<p align=\"right\"><span style=\"font-size: 14pt;\">Os Drag\u00f5es n\u00e3o Conhecem o Para\u00edso<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"right\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"right\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ai, caio, como um raio. &nbsp;&nbsp;. !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Admiro sua profundidade, mesmo que, em lugar equivocado. Voc\u00ea aprofunda os sete palmos da derradeira retirada do mundo e nomeia de vida profunda o que \u00e9 a pr\u00f3pria fuga da vida. 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