{"id":1763,"date":"2012-12-20T01:05:58","date_gmt":"2012-12-20T04:05:58","guid":{"rendered":"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?page_id=1763"},"modified":"2020-11-11T06:42:16","modified_gmt":"2020-11-11T09:42:16","slug":"reveillon-e-espiritualidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?p=1763","title":{"rendered":"Reveillon e Espiritualidade"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">A passagem de ano \u00e9 um momento cheio de significados e inspira uma dupla reflex\u00e3o. Por um lado, somos impelidos a fazer um balan\u00e7o do ciclo anterior e equacionar aquilo que consideramos erro ou acerto. Por outro lado, temos um ano come\u00e7ando do &#8220;zero&#8221; pela frente, uma p\u00e1gina em branco esperando por ser escrita, onde teremos o direito de inaugurar novas fases e retomar trilhas esquecidas anteriormente, atropeladas pela roda da sobreviv\u00eancia ou desviadas por escolhas agora consideradas equivocadas ou mesmo inconsequentes de nossa parte.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">A cidade onde vivo, o Rio de Janeiro, em outros tempos, tinha como tradi\u00e7\u00e3o e prioridade estimular esse esp\u00edrito de reflex\u00e3o nessa data. H\u00e1 n\u00e3o muitos anos atr\u00e1s, quando a festa de reveillon era um fen\u00f4meno mais espont\u00e2neo, as pessoas cultivavam o h\u00e1bito de ir para a frente do mar no \u00faltimo dia e passar um tempo se &#8220;re-conectando&#8221; com as for\u00e7as da natureza &#8211; personificadas ali por Iemanj\u00e1. Era um instante de profunda medita\u00e7\u00e3o sobre o significado, a import\u00e2ncia ou irrelev\u00e2ncia de experi\u00eancias anteriores e sobre que futuro se desejava para os anos seguintes. Pessoas re-faziam ali suas listas de resolu\u00e7\u00f5es para o pr\u00f3ximo per\u00edodo e, em seguida, entravam no mar para sacramentar o pacto com o ano desejado.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Entrar no oceano sempre teve o sentido de revela\u00e7\u00e3o, tanto de lucidez interior como exterior. Enfim, o \u00faltimo dia do ano era um momento dedicado \u00e0 consci\u00eancia e ao aprofundamento. E o &#8220;rito de passagem&#8221; n\u00e3o parava por a\u00ed, ap\u00f3s conquistar a clareza do que se queria para o pr\u00f3ximo ciclo, a pessoa recorria a um dos in\u00fameros terreiros de umbanda ou candombl\u00e9 instalados na praia, que com seus atabaques, baianas, velas e pais de santos, serviam como um apoio para que a pessoa fizesse as mudan\u00e7as desejadas em si. Era &#8220;de lei&#8221; terminar o ritual recebendo um &#8220;passe&#8221;, em uma atmosfera que costumava ser de acolhimento e carinho.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Depois disso, cada um ia para sua festa, celebrar o in\u00edcio do novo ciclo, muitas vezes at\u00e9 de manh\u00e3.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Enfim, o reveillon come\u00e7ava como um ritual pessoal de interioriza\u00e7\u00e3o e aprofundamento e terminava como alegre celebra\u00e7\u00e3o e comunh\u00e3o com os amigos. Era, para muitos, o dia de maior profundidade, calma e contato consigo mesmo, um dia que se diferenciava do usual, onde a pessoa j\u00e1 acordava sentindo que teria mais significado que o normal &#8211; na verdade, daria significado aos outros dias &#8211; e ia dormir renovada e &#8220;lavada por dentro&#8221;.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Em minha inf\u00e2ncia, por conta desse cen\u00e1rio buc\u00f3lico e \u00fanico da cidade, essas experi\u00eancias foram reveladoras e essenciais. Em nenhum outro dia meus pais me orientavam ou estimulavam a ir conversar com o mar. Quando crian\u00e7a, se eu ficasse quieto por muito tempo, j\u00e1-j\u00e1 vinha um adulto para saber o que estava acontecendo de errado. Mas no \u00faltimo dia do ano, a quietude e o sil\u00eancio interno me eram permitidos e respeitados. Em mim e em todos os que frequentavam a praia de Copacabana, por meus pais e por todos os que ali estavam. A cumplicidade inclu\u00eda a medita\u00e7\u00e3o e tenho o sentimento v\u00edvido do quanto aqueles reveillons contribu\u00edram em minha forma\u00e7\u00e3o como ser humano e, particularmente, para minha voca\u00e7\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o da medita\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Foi tamb\u00e9m nessas festas ao ar livre que tomei contato pela primeira vez com o lado vivo e pulsante da cultura afro-brasileira atrav\u00e9s dos terreiros de candombl\u00e9 e macumba. Era bonito ver como crist\u00e3os, judeus, mu\u00e7ulmanos, gente de todos os credos e pa\u00edses, faziam quest\u00e3o de entrar na fila para ganhar o &#8220;passe&#8221; dos pais de santos, confiavam a um desconhecido, de outra religi\u00e3o, a sacramenta\u00e7\u00e3o para as mudan\u00e7as que queriam implementar em suas vidas dali em diante.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">N\u00e3o houve um momento preciso para a desfigura\u00e7\u00e3o desses costumes, mas \u00e9 certo que os prefeitos e governadores tiveram um papel fundamental nela. Em um conjunto de atitudes orquestradas, os prefeitos ao mesmo tempo, come\u00e7aram a iluminar e sonorizar as praias na festa, produzir mega-shows e, deram o tiro de miseric\u00f3rdia nos terreiros ao proibir o estacionamento dos \u00f4nibus deles nas redondezas da praia. Ao mesmo tempo, algumas igrejas evang\u00e9licas investiram intensamente, desde o final dos anos 80, contra as religi\u00f5es de origem africana. Buscavam fi\u00e9is nas fileiras &#8220;advers\u00e1rias&#8221;.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">As prefeituras foram tornando a passagem de ano numa festa marcadamente &#8220;externa&#8221;. Se, no passado, acord\u00e1vamos nesse dia de uma maneira diferente e mais reflexivos, dedicados a um contato conosco mesmos, agora, se acorda no \u00faltimo dia do ano pensando em que roupa se vai usar, se a bebida j\u00e1 est\u00e1 gelada, em quem vamos encontrar mais tarde, muitos pensando se a barba est\u00e1 bem feita, se o cabelo bem cortado e penteado etc. Enfim, o reveillon carioca foi para o outro lado extremo, se no passado era o dia de maior reflex\u00e3o interior e profundidade, hoje \u00e9 para a grande massa, o dia de n\u00e3o se pensar em nada de significado ou interior, de se pensar apenas na festa e nos fogos exteriores. O fogo interior que espere, hoje \u00e9 dia de festa.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Hoje, quando vejo os jornais (digo, os jornais cariocas) se ufanando do Rio de Janeiro produzir o maior reveillon do planeta, acho os argumentos question\u00e1veis. Falam da maior explos\u00e3o de fogos. Eu, que j\u00e1 passei essa dataem Nova Iorquee Paris assistindo a queima de fogos sincronizada com show de Jean Michel Jarre, eu que assisti a festival de fogos de artif\u00edcios na Fran\u00e7a, onde se desenhavam no ar figuras extremamente complexas feitas com fogos sofisticados, fico me perguntando como t\u00eam coragem de chamar a nuvem de fuma\u00e7a que se forma sobre as \u00e1guas de Copacabana, feita por roj\u00f5es escolhidos por concorr\u00eancia de pre\u00e7o, de maior espet\u00e1culo de fogos de planeta. Isso por que nunca passei um reveillon na China, imagino o que eles devam fazer por l\u00e1.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Fico me perguntando, se ser\u00e1 que nunca passou pela cabe\u00e7a dos prefeitos e dos que escrevem essas mat\u00e9rias no jornal, na cabe\u00e7a dos secret\u00e1rios de turismo, que comemoram quando h\u00e1 aumento de turistas internacionais nessa data, que o Rio de Janeiro tinha antes uma festa realmente \u00fanica, cheia de charme e identidade, que era mesmo fundamental para dar o tom da identidade da cidade. Ser\u00e1 que eles nunca imaginaram que a praia tomada pelos terreiros do passado recente, poderia ser, n\u00e3o apenas o diferencial da cidade, n\u00e3o apenas uma not\u00edcia que cativaria elogios da imprensa nacional, mas tamb\u00e9m algo com potencial para atrair os olhares da m\u00eddia internacional? E, principalmente, ser\u00e1 que nunca imaginaram que o Rio de Janeiro pudesse ser uma cidade melhor, por todo o ano, se cada novo ano se iniciasse com uma experi\u00eancia marcante onde presen\u00e7a interior e comemora\u00e7\u00e3o exterior fossem aliadas?<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Rio, querido e amado, diga-me como andas e direi quem \u00e9s.<span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/span><\/p>\n<h4 align=\"right\">Pedro Tornaghi<\/h4>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/h4>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000080;\">Leia tamb\u00e9m:<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?page_id=781\"><span style=\"font-size: 18pt;\">O Lugar Certo<\/span><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: 14pt;\"><a href=\"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?page_id=781\"><span style=\"color: #000080;\">h<\/span><span style=\"color: #000080;\">ttp:\/\/<\/span><span style=\"color: #000080;\">pedrotornaghi.com.br\/blogger\/?page_id=781<\/span><\/a><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?page_id=1544\"><span style=\"font-size: 18pt;\">Simplicidade<\/span><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: 14pt;\"><a href=\"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?page_id=1544\">https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?page_id=1544<\/a><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?page_id=399\"><span style=\"font-size: 18pt;\">Os Ouvidos t\u00eam paredes<\/span><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000080; font-size: 14pt;\"><a href=\"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?page_id=399\"><span style=\"color: #000080;\">https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?page_id=399<\/span><\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000080;\">Participe do curso<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: 18pt;\"><a href=\"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?page_id=107\">Medita\u00e7\u00f5es da Vis\u00e3o e da Audi\u00e7\u00e3o<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: 14pt; color: #000080;\"><a style=\"color: #000080;\" href=\"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?page_id=107\">https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?page_id=10<\/a><a style=\"color: #000080;\" href=\"https:\/\/pedrotornaghi.com.br\/?page_id=107\">7 <\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; A passagem de ano \u00e9 um momento cheio de significados e inspira uma dupla reflex\u00e3o. Por um lado, somos impelidos a fazer um balan\u00e7o do ciclo anterior e equacionar aquilo que consideramos erro ou acerto. 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