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Evoluir em Profundidade

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Evoluir em Profundidade

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Pedro Tornaghi

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Em artigo anterior falei da importância da intensidade, mais do que uma poderosa aliada, algo indispensável a quem pretende desenvolver-se, ao máximo, em seus potenciais e possibilidades pessoais. No entanto é preciso perguntar-se: desenvolver em que sentido, andar para onde? O que queremos realmente nessa vida, a que viemos, o que é uma pessoa plenamente realizada? O que nos tornará verdadeiramente felizes?

Meu convite neste artigo não é o de que você assuma respostas minhas para perguntas que eu propus e formulei, mas que investiguemos juntos essas questões existenciais.

Clarisse Lispector em uma conferência na Universidade de Austin, no Texas, em 1963, refletindo sobre o ofício do escritor, sua relação com a vanguarda e o que ela acreditava ser a tarefa da arte, sentenciou: “toda verdadeira arte é uma experimentação e, lamento [contrariar] muito[s], toda verdadeira vida é experimentação.” (os colchetes são do texto original)

Retirei o texto do livro “Mulheres Claricianas” de Paulo Germano Albuquerque. Paulo sugere que por “experimentação na arte”, “Clarice entende não uma maneira de representar a realidade, mas um instrumento avançado de pesquisa da realidade, cuja meta é arrebentar com nossa visão comum das coisas, em vistas de uma realidade outra que a linguagem pode apenas pré-sentir.” Dos quatro livros que Paulo Germano analisa, vou ficar aqui com Água Viva.

Vejo “Água Viva” como um fluxo de – geniais – palavras a respeito de estar no “instante”, no agora. Clarice, em sua palestra, sugere que sua espada para abrir a picada na floresta da ignorância, rumo a uma “realidade outra, que a linguagem pode apenas pré-sentir” é a arte; mas o manuseio experimental da espada, e não ela em si, é quem possibilita avançar, terreno adentro, para a realidade além e mais significativa.

Dizia Assuri Kapilananda Swami que “uma grama de prática vale mais que uma tonelada de teoria” e eu concluo que uma pitada de conhecimento vindo de experiência própria tem o gosto da verdade, enquanto toneladas de conhecimento teórico são apenas disfarces da realidade, com o poder de nos distanciar, cada vez mais, dela.

Em sua primeira visita à Inglaterra, o monge budista Achaan Chah falou a muitos grupos budistas. Uma tarde, após uma palestra, uma distinta senhora inglesa se apresentou como “antiga estudiosa da complexa cibernética da mente de acordo com os ‘oitenta e nove tipos de consciência’ estudados nos textos da psicologia abhidharma budista” – ufa, é de perder o fôlego – e perguntou se ele poderia “explicar os tortuosos aspectos dessa psicologia, a fim de que ela pudesse prosseguir com seus estudos”. Implacável, Achaan Chah respondeu: “A senhora se assemelha àqueles que criam galinhas em seu quintal e que, em vez de recolherem os ovos, recolhem o estrume”.

Quando adolescente, achava que Clarisse andava lendo Krishnamurti e os budistas quando escreveu Água Viva. É o caminho que ela aponta, pisa e repisa, de todas as maneiras ao seu alcance. Num certo ponto do livro, a personagem conta que sua maneira de escutar música é colando as mãos nas caixas de som e deixando que os acordes entrem pelos braços, até o coração, até onde as ondas sonoras forem capazes de penetrar (tradução livre minha, sou incapaz nesse momento de achar a página exata do livro, lido há tanto tempo).

Talvez esse seja um bom começo, talvez o que Clarisse proponha seja que não se pense tanto em para onde andar, mas com que profundidade e comprometimento com a vida, dar e digerir cada passo. Em vez de evoluir na horizontal, de A para B e daí para C, evoluir em profundidade, de A para A1, daí para A2… para A500, e assim por diante. E isso, pode vir em qualquer experiência.

Mas, aponta Clarice, para isso é necessário que a experiência e a arte sejam investigativas, cavar o terreno, até achar o poço, a mina d’água, viva. Tentando ser coerente com Clarice e com o que falamos até agora, passo a arriscar em soneto, o que propuseram ela e Achaan Chah:

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Como Deuses Pagãos Enfurecidos

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Talvez por perdida estares,
Perto de ti, fácil, me perco,
Criamos galinhas para comer o esterco,
Esnobamos a imensidão dos mares,

Por que a obstinação pelo pior?
Por que desperdiçar a ansiada ambrosia?
Assumamos a necessária carpintaria,
Espantemos as moscas ao redor,

E entreguemo-nos ao amor e ao sexo,
Como deuses pagãos enfurecidos,
Que criam significado além do nexo,

Busquemos a calma no fundo do arrepio,
E deixemos a ética de tempos idos,
Que a felicidade anda por um fio.

 

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Arrisque suas rimas também, homenageie a ânsia de Clarice, experimente, investigue, crie, que a felicidade anda por um fio.

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 Leia o artigo que originou e inspirou a este:

Senso de Urgência

http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=921

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Leia também:

“Procurando no Lugar Certo”

http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=781

“Os Sentidos Internos”

http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=375

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Se você gostou do artigo e deseja publicá-lo em seu blog ou site sinta-se à vontade e, por favor, lembre-se de citar a fonte

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4 Responses to Evoluir em Profundidade

  • Dalva Rausch:

    Ah Pedro… você fala da experiência pré-predicativa das coisas…. apenas usamos fontes diferentes…. quando você afirma “experiência versus teoria”, não entendo porque fiz da minha vida esta busca espiritual, intelectual de que você fala… e para mim a música é a profundidade A10000000…. vou ler mais o que você publica e espero continuar a amá-lo, e amá-lo + ainda. Tks so very much

  • Dalva Rausch:

    Dear Pedro, é inevitável que eu compare tuas assertivas com as de Norbert Elias. Segundo Elias as pessoas vivendo em compasso de movimento centrífugo, vivem múltiplas realidades e são fadadas a dividir suas personalidades – tal como você colocou como pedaços de vidros – em scripts tão difusos que facilmente se tornam personalidades limítrofes…. Muito comum hoje, não é? Mas a tônican do N. Elias é de que este vagalhão que envolve estas pessoas em vários macro e micro movimentos é, até certo ponto alheio às suas vontades. Mesmo tornando-se esquizóides em realidades múltiplas (veja Alfred Schutz sobre isso tb).
    Os scripts que as pessoas são obrigadas a perfazer, com suas diferentes obrigações e comportamentos, as obriga a entrar num efeito denominado “rarefeito”= isto é = “lack of communication”… estas pessoas envolvidas em micro ou macro movimentos não possuem consciência da totalidade e o que nos impede a estudar estes micro e macro-movimentos é sua velocidade cada vez maior (aqui você entra na questão intensidade também). Mas, o definidor velocidade aqui é empregado na forma de deslocamento geográfico…. há intensificações externas e internas. (Formas e elementos de pressão: working under stress or duress)…
    Por fim, as pessoas, por fim alquebradas e esquizóides em movimentos centrífugos são substituídas e esquecidas. Ninguém é insubstituível. Merciless.
    O excesso de especialização caracteriza as pessoas trabalhando em movimentos centrípetos. Elias define estes ambientes como homogeneos, corportivos, financeiros ou de alta tecnologia. Altas elites. Não se pode dizer que eles sejam menos esquizóides que aqueles vivendo em caóticos caleidoscópios…. Bjs, tks for your attention, D.

  • Bel Serrão:

    Como sempre, todas as suas sensíveis citações, são sempre benvindas.
    Obrigada…
    Abraços, Bel

  • Maria Angela Grolla Zanol Cavalcanti:

    Oi…Toda verdadeira VIDA é uma experimentação na ARTE de AMAR. A Mais perfeita ARTE “O AMOR” o mais belo dos sentimentos humanos tem princípio em DEUS. Portanto “AMAR é uma ARTE.” O verdadeiro arquiteto é o SER SUPREMO, DEUS, ou o nome que melhor nos afine para que possamos ser alunos conscientes, respeitosos, responsáveis e cuidadosos para aprender a ARTE DE AMAR.
    Paz pra ti!
    Bjs!!! Ângela

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