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Senso de Urgência

 

 

Senso de Urgência

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Pedro Tornaghi

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“Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo,
mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata….”
Carlos Drummond de Andrade

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Em artigos recentes sobre ecologia comentei o estudo do engenheiro Neddo Sandro Zecca, onde ele afirma: “nos dias de hoje, o consumo médio anual de energia pelo ser humano é de 400 quads (unidade de energia que equivale a 293.071.000.000 de kilowatts-hora) e o total de energia química fossilizada disponível no planeta Terra, somado ao total de ‘energia química biomassa de ciclos curtos’ é de 200.000 quads. Restam, então, para os ilustres humanos aproximadamente 500 anos de condições de sobrevivência.” Não tenho condições técnicas de garantir ou refutar consistentemente os argumentos do engenheiro mas é certo que, até agora, ninguém refutou o conteúdo dos artigos anteriores.

É claro que faço coro com as torcidas do Flamengo, Fluminense, Botafogo, Vasco, América etc, que desejam o surgimento de um novo dado salvador, que contrarie as previsões apocalípticas do cuidadoso estudo. Entretanto, enquanto isso não acontece, especulo: se ano passado tínhamos 500 anos pela frente, agora nos restam apenas 499, o novo ano significa 0,2 % de todo o tempo disponível ao bicho-homem para realizar o seu propósito de ser neste planeta. São João evangelhista, dizia que o homem ainda não existe, que existe apenas a semente dele. Bom, se temos apenas 499 anos para realizar um projeto que não conseguimos levar a cabo em quatro milhões de anos, urge regar essa semente caso almejemos vê-la como uma frondosa árvore.

A proximidade e, até mesmo, a possibilidade da morte criam o senso de urgência e esse, gera a intensidade necessária para a nossa transformação e crescimento. A intensidade é matéria preciosa e pode e deve ser usada em prol de nossos melhores propósitos. Meu professor de yoga na adolescência, Vayuananda, dizia que há duas forças que levam o homem a se transformar, o desejo e a necessidade. São poucos os que mudam movidos pelo desejo, a maioria só muda na necessidade, muitas vezes, apenas na extrema. Quem trabalha com autoconhecimento bem sabe disso, a maioria que procura por ajuda para se transformar, está em momento de crise, impulsionada pela intensidade de algum sofrimento ou dor. Quando se fala em aprofundamento da consciência, isso se torna uma verdade ainda maior.

Na Índia acontece um fenômeno interessante: todos os iluminados de que se tem notícia, são da casta dos Kshatryas, os guerreiros. Nunca um brahmane – casta dos intelectuais e eruditos – iluminou. Os brahmanes sabem descrever os passos necessários para chegar lá, mas nunca nenhum, de fato, chegou. E, note, eruditos na Índia se versam nos Vedas, talvez os livros mais inspirados e precisos tecnicamente quanto a caminhos para a iluminação. Isso ocorre por que os guerreiros têm intensidade de energia e vontade.

Outro fato interessante é o de que todas as datas de iluminação de que se tem notícia, aconteceram em uma Lua Cheia, a mesma efeméride dos lobisomens, o mesmo dia em que as estatísticas dizem aumentar o número de crimes nos mais diversos recantos do mundo, dia de aumento de resposta emocional no mundo animal. Não basta possuir a intensidade de um guerreiro, mas potencializá-la no dia em que ela já está, naturalmente, na plenitude para tão ousada transformação da consciência se dar.

Proporei então nesse artigo que, no novo ano, você se beneficie do poder miraculoso da intensidade, entregando-se a momentos de total fervor na busca de si mesmo. Experimente fazer da intensidade um exercício de fé, faça dela a sua religião. O que quer que você faça hoje, faça-o com você inteiro, sem ressalvas, dê tudo, mas tudo, realmente tudo de si na busca de se auto-conhecer, pague o preço que for necessário. Você descobrirá que nunca realizou algo tão essencial e satisfatório para si mesmo.

Façamos não apenas hoje, mas todo um ano povoado de dias de intensidade maior, onde cada momento pode ser a última chance, o último suspiro. Experimente e veja que frutos tira da experiência. Viva cada momento do dia de hoje com arroubo e fervor, como se fosse o último. Apele para todo o estímulo e apoio possível e necessário, leia, Rimbaud, Lautremont, Artaud, Sade ou quem puder, turbine o seu toca-discos com Janis Joplin, Jimmy Hendrix ou, se você for mais propenso ao clássico, com os acordes passionais das sonatas para piano Scriabin (na gravação de Roberto Szidon, por exemplo) ou dos concertos de Rachimaninoff (opte pela gravação de Marta Argerich no terceiro, evite gravações mais frias e técnicas como as de Ashkenazy); vá ao teatro, assistir às peças mais experimentais e radicais, inscreva-se em oficinas de Butô, expressão corporal e meditação, em terapias corporais, experiências xamânicas etc. Viva tudo o que pode ser vivido de intenso no mergulho para dentro de si mesmo até, como um Édipo desesperado por inquietações internas, você decifrar seus enigmas íntimos, pelo menos os mais essenciais.

Porém, lembre-se, se todos os iluminados foram intensos, nem todos os intensos se iluminaram. Não basta ser intenso, mas transformar a intensidade em consciência. Comece agora, e aproveite cada momento de carga máxima para realizar a alquimia desejada. No primeiro momento, coloque todo o fervor possível na atenção que você presta no que faz. Em seguida, coloque sua energia em prestar atenção em “quem” está fazendo, “quem” está assistindo a essa cena. Em um terceiro momento, em como é esse “observar” a cena, o que é ele? De que substância se constitui? Como é o fluxo entre quem observa e o que é observado?

Se fui muito hermético nas palavras acima, apresse o passo, e se inscreva nos workshops de Butô, meditação, expressão corporal, terapia corporal etc;. É fundamental ter vivência interna para entender como as – mesmas – palavras usadas normalmente para definir a vida externa funcionam para comunicar acontecimentos da subjetividade. E como é bom explorar esse universo. A interiorização da atenção e da energia – toda a possível – provocará um fenômeno: uma fusão. Quando a energia de todos os desejos, aspirações e paixões se funde em uma única flama, você pode ter a força necessária a essa alquimia para a qual nascemos vocacionados. Quando resta apenas um em você e todas as suas forças estão voltadas para sua busca, você é intenso o suficiente para transpor o funil da auto-realização.

É como a palavra diz: in-tensidade, toda a tensão voltada para dentro. A outra possibilidade é a “ex-tensidade”, quando a sua energia se abre em um leque para fora, se dispersa em infinitas direções, você passa a ter mil e um desejos, se fragmentar em milhares deles, um indo para o norte, outro para o sul… você vai sendo impelido para fora, para fora de si. Você deixa de ser um, passa a ser uma multidão. E se você for uma multidão, irá se tornar miserável, refletirá, em cada caco seu, as misérias da multidão que o cerca (se você escutar Hendrix ou The Who, encontrará lá, está lá há muito tempo, registrado – embora pouco digerido por quem escutou – o momento em que seu espelho se quebra em mil cacos e você reflete a realidade fragmentada). Se você é uma multidão, nunca se sentirá preenchido; você não possuirá um centro. Intensidade significa criar um centro em você.

Há duas palavras importantes de serem entendidas, uma é “centrífugo”, fuga do centro, quando todas as energias estão se espalhando do centro para todas as direções, pequenas partes de você, se dispersando no espaço. Isto é o que todos estão fazendo. Outra é “centrípeto”, quando todos os vetores estão vindo para o centro, quando todos os fragmentos se juntam. No primeiro, você está se fazendo em pedaços, no segundo está podendo experimentar a integração.

Todos têm medo da intensidade, por ela estar associada ao perigo. Realmente, em momentos de perigo se experimenta a intensidade, mas isso não quer dizer que todo momento de intensidade seja perigo mortal. O perigo pode ser de morte da parte que você não gosta em você, da parte que te atrapalha, do seu karma negativo.

Por outro lado, quando você esteve em perigo, pôde experimentar um momento em que seus pensamentos cessaram. Pôde experimentar, pelo bem ou pelo mal, um momento em que se viu livre se sua mente. Iluminar-se é exatamente isso, conhecer uma consciência além dos grilhões da mente, só possível a quem prova essa liberdade. A intensidade é o único caminho efetivo conhecido até agora, a intensidade de um guerreiro, a intensidade da lua cheia, estimulada por um momento extremo como o que vivemos agora. Dessa maneira, já que a equação que resolveria os problemas do planeta se mostra maior que nossa capacidade de decidir, parafraseando o engenheiro Naddo, volto a propor aqui, do fundo do coração e desespero existencial: aproveite a chance da maneira mais digna e, “be happy”.

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Leia o artigo que originou e inspirou a este:
Montanhas Cariadas

http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=235

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7 Responses to Senso de Urgência

  • Gislaine Jacobino:

    maginifico…..preciosas palavras…meus beijos daqui

  • Anamárcia Tinoco de Oliveira:

    Fiquei ofegante com o texto e numa urgência infinita desta intensidade em meus projetos e minha vida. Acelerar e correr atrás!

  • Obrigada. Favor me manter informada.

  • Jeanine:

    Intensidade… essa palavra te lembra alguém, meu anjo?
    Impecável artigo, macias palavras.
    Beijos desta plutoniana.

  • Dalva Rausch:

    Então Pedro, intensidade você diz… maior que aquela de meu marte (em conjunção natal com mercúrio) agora com urano em trânsito sobre ele? Fazendo trìgono com meu Saturno em Leo (2ndo grau)….
    Não há nada mais intenso, explosivo mesmo que Urano e Marte juntos em ÁRIES!!!!
    Agora, adorei ter lido Norbert Elias…. Elias detalha os movimentos centrípetos e centrífugos na sociedade na forma de macro-mecanismos (pessoas transitando regularmente entre várias esferas ou na mesma esfera).. umas difundindo outras intensificando o interior de segmento qualquer. Desde sempre sou discípula de Yogananda e cada palavra que você menciona me parece um “dejá vue”. Estou assustada rsrs. Bjs + Tks!!

  • Antonio Paes:

    Pedro, lembro-me bem de ti em um encontro em Itatiaia, no Hotel Cabanas, encontro esse promovido por nosso saudoso mestre Vayuananda, tenho inclusive uma foto contigo na cachoeira em que você está tocando flauta, lembra? Que bom te reencontrar. Muita paz para ti e que continues com sucesso namaste ANTONIO

    Antonio,
    Que prazer e notícias suas e ouvir falar do Vayuananda. Algum dia temos que escrever sobre ele, para que os que vêm depois saibam um pouco da história do autoconhecimento nessas terras tupiniquins.
    Grande abraço e, de agora em diante, dê sempre notícias

  • Maria Angela Grolla Zanol Cavalcanti:

    Oi…Intenso, profundo e bastante explicativo…Amei o texto. Às vêzes me perguntava o que era ser iluminado…Acho que quando um ser humano se encontra num estado meditativo 24 horas por dia, é ser iluminado. Ele age com consciência e responsabilidade em tudo que faz, recebe as Graças Divinas, porque o próprio Deus o capacita para que ele se torne um instrumento do Bem. Essas pessoas são Consagradas, e assim sendo, se quiserem, podem evangelizar, catequizar, falar sobre Deus (não sobre religião) porque têm todo um potencial intuitivo.
    Um lindo dia pra ti…Bjs!!! Ângela

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