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A Ciência da Felicidade

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A Ciência da Felicidade

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Pedro Tornaghi

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Aos vinte e poucos anos eu morava no Posto 6, em Copacabana, e costumava passar todo dia, no caminho de casa, por um mesmo mendigo que, sempre, de maneira renovada, me impressionava. Era um homem-toco que, a cada sinal fechado, deslizava em um rudimentar carrinho de rolimã entre os automóveis parados enquanto pedia dinheiro aos motoristas. O que me desnorteava naquele rapaz era o constate sorriso, talvez o mais generoso que eu tenha visto até hoje. Ele disparava para cada motorista seus dentes arreganhados, desprovidos de vergonha e com franqueza ímpar; fosse após uma contribuição espontânea, recusa de atenção, indiferença ou até mesmo desprezo.

 

Um dia, depois de meses de cumprimentos cordiais entre nós, como que atraído por um ímã, me aproximei para tentar desvendar minha crescente curiosidade sobre o enigma: de onde vinha aquela felicidade? Foi o que perguntei. Olhando de baixo para cima ele, desenvolto, me respondeu: “eu não tenho nada a perder”.

 

Naqueles dias, um outro sorriso parecido, também passou a me chamar a atenção. Tratava-se de mais um mendigo. Eu morava no segundo andar de um tradicional edifício e a janela de meu quarto dava visão frontal para o Clube de Bridge de Copacabana, cuja atividade se estendia sempre por toda a noite. Eu que era leitor apaixonado de Dostoievski e acabara de ler “O Jogador”, gostava de me debruçar na janela e observar os tipos curiosos que entravam no clube para dedicar noitadas insones aos prazeres do jogo. Havia uma escada estreita na entrada do clube por onde mulheres luxuosamente vestidas e homens de aparência bem-cuidada e distinta encolhiam suas poses e vestes para adentrar no templo do deus das sortes e azares. E, justo nessa escada estreita, todas as noites, independente de chuva ou estrelas no céu, se instalava, como um diligente e fiel cão de guarda, o mendigo de idade avançada.

 

Eu era músico em inicio de carreira e costumava chegar em casa tarde. Às vezes tinha o que comer, às vezes não. Numa noite de muito frio, em que cheguei e fiz uma omelete, fui à janela comer e devorei avidamente a iguaria enquanto admirava mais uma vez o incansável e plácido mendigo à porta do clube. Ao acabar de comer, corri à cozinha, ansioso, para preparar outra omelete, agora para o velho e cansado homem. Imaginava sua fome maior e mais desesperada que a minha. Desci com o prato na mão feliz por, naquela noite, ter o que compartilhar e o ofereci ao homem imaginando, claro, que teria o prazer de assisti-lo devorando o mesmo prato que, minutos antes, aplacara o desespero de meu estômago.

 

Foi aí que veio a surpresa. O atento senhor aceitou o prato com os olhos, pegou-o em seguida com a mão e o colocou sobre o colo, com uma solenidade de quem desconhecia a pressa, me fitou os olhos e agradeceu num sorriso, quase similar ao do homem-toco. Subi para minha janela achando que minha presença o inibia de comer e, observador solitário, fiquei esperando que ele começasse a comê-lo. Esperei por intermináveis minutos até que ele, contemplativo, levasse a primeira garfada à boca. A cena era curiosa, eu, escutando Mozart enquanto refletia sobre os atos daquele homem que provavelmente nem sabia quem era Mozart, mas se mostrava mais digno de ser sua platéia do que eu.

 

Essas duas experiências me levaram a me perguntar o que seria a felicidade. Onde moraria ela? Dentro ou fora de nós? Esses dois sorrisos eu tenho conservado dentro de mim como um troféu e como uma pergunta constante para a qual não quero uma resposta definitiva, mas, quero usá-la para investigar mais e mais as possibilidades e as verdades e mentiras sobre a felicidade.

 

Como na época eu era flautista e professor de yoga, comecei – movido pelo hábito – por observar a respiração de meus dois personagens casuais. Era impressionante como ambos respiravam com desenvoltura e sem esforço. Mesmo o homem-toco, com todo o esforço cotidiano dos braços para compensar a falta de pernas, respirava com uma fluência e mobilidade nas costelas que eu não via nem nos meninos da academia de yoga nem em meus treinados colegas de flauta.

 

Fiquei pensando então que, se houvesse uma ciência ou uma arte da felicidade, essa devia passar pela respiração e, como os dois se colocavam sempre na posição de observadores desidentificados de tudo que os cercava, essa ciência deveria passar também por algo muito próximo da meditação. Valia à pena perguntar: se o estado de espírito diferenciado daqueles dois homens os levou a respirar de maneira tão incomum, será que se mudássemos nossa respiração também poderíamos, por via oposta, alcançar um estado de espírito incomum?

 

Aqueles dois homens me possibilitaram uma compreensão diferenciada dos processos de inteiração entre respiração e estado emocional e, por toda a minha vida, vêm me inspirando a atentar para o que é essencial e o que é supérfluo na utilização de técnicas respiratórias e na pratica de meditação. Pensar na respiração deles me trouxe respostas interessantes para o milenar dilema do quanto a felicidade depende de fatores externos ou de atitudes internas. Respirar é algo que envolve e integra os universos interno e externo. A respiração é uma ponte natural, sutil e palpável, entre os dois. Talvez a resposta estivesse na liberdade e na inteligência com que nos permitimos integrar essas duas realidades. E talvez a respiração fosse o meio mais indicado para realizarmos essa integração.

 

O olhar daqueles dois homens me possibilitou entender de maneira diferente todas as – boas – técnicas de respiração e meditação que vim a conhecer mais tarde. Dois olhares totalmente desprovidos de mágoa, cobrança ou expectativa, vindos de homens alijados de acesso às fontes de prazer mais disputadas pelas pessoas comuns. Aqueles dois olhares me ensinaram a valorizar, mas sem superestimar, o alcance das técnicas de autoconhecimento que aprendi.

 

Sim, as técnicas de respiração podem nos levar muito longe, mas desprovidas de uma certa postura, por mais longe que nos levem, elas jamais nos levarão ao grande e definitivo salto. Ao salto para a liberdade e a inteligência que os dois professores informais encarnavam. Com o homem-toco, aprendi o segredo do como fazer força sem fazer esforço. Notando como ele remava vigorosamente sua pequena plataforma sobre rodas pelo chão e, mesmo assim, continuava respirando livremente, percebi que ele exercitava uma das mais interessantes artes disponíveis ao homem, a de estar em um ritmo interno e outro externo ao mesmo tempo. Ele podia correr com o carrinho e continuar perfeitamente calmo por dentro. E observando como ele, a todo momento, levantava os braços em diagonal para acomodar sua pequena bolsa a tiracolo, percebi com que sutileza ele desenhava uma dança mágica e natural, que alongava os músculos intercostais. Ele me revelou algumas das chaves que uso até hoje para desbloquear caixas torácicas de amigos e alunos.

 

Já com o senhor do clube de bridge aprendi os segredos da calma trazida pela respiração lenta e sem esforço. A maneira gaiata com que ele cumprimentava os jogadores de bridge noturnos, batendo continência com a palma da mão para cima, servia para descontrair e aproximar os bem-vestidos. Era uma espécie de gesto assinatura, que lhe dava uma aura de inocência e de inofensividade. Ele fazia menção de bater continência e, quando sua mão chegava à testa, ele virava a palma para o céu e continuava o gesto como se fosse uma coreografia pessoal, passando a mão sobre toda a cabeça enquanto sorria largamente. Como quem dissesse: te pequei, hein. O gesto, engraçado, nunca falhava em descontrair as pessoas.

 

Imitando o gesto de minha janela, senti uma imediata e inédita ventilação na parte alta do pulmão e eu, que estudara com tantos professores de flauta, diversas e eficientes maneiras de controlar a saída do ar dessa região para que houvesse uma reserva extra de ar que permitisse maior fôlego em frases musicais longas, percebi que aquele homem ali, naquele momento, me dava o caminho, que mais tarde vim a desenvolver, de como prolongar o fôlego nessa região.

 

Os movimentos aparentemente ingênuos que os dois faziam escondiam em si as bases de um verdadeiro balé iniciático capaz de dissolver resistentes tensões crônicas da caixa torácica e desenvolver estados de espírito preciosos e raros.

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Participe do curso:

Autoconhecimento pela Respiração:

 http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=92

Esse curso é um convite à exploração de novas dimensões de sua vida a partir de mudanças em sua respiração. Nele serão experimentadas meditações baseadas em maneiras de respirar, capazes de revelar potenciais adormecidos e enriquecer a vida com amor, saúde e harmonia.

Em vivências progressivas e inspiradas, você descobrirá como a respiração consciente e profunda leva a uma mudança na qualidade de vida em diferentes áreas, trazendo mais energia ao corpo, relaxamento à mente e uma amorosidade espontânea que torna a vida mais vibrante e agradável.

No plano espiritual, a mudança na respiração proporcionará um silêncio interno que pavimentará o caminho para a meditação profunda, abrindo espaço para sentimentos de êxtase e liberdade interior.

A cada encontro serão experimentadas novas técnicas de meditação e ritmos respiratórios que aumentam a clareza e o discernimento e dão suporte à maior aventura possível a nós, a descoberta de nós mesmos.

O curso será composto de dois módulos de quatro meses cada, com opções de turmas semanais ou de encontros intensivos em um final de semana por mês.

 O primeiro módulo irá até dezembro deste ano, o segundo módulo será opcional e começará após as férias de verão em março do próximo ano.

Curso Semanal:

Início: 31 de agosto de 2016
quartas-feiras, das 16:00 h às 17:45 h ou das 20:00 h às 21:45h.

Curso Intensivo:

Início: 17 de setembro de 2016
sábados de 14:30 às 19:3o h
domingos de 9:00h às 13:00h

Local: Academia Ananda 
Av Nossa Senhora de Copacabana 769/102 – Rio de Janeiro
Mensalidade: R$ 290,00
Informações e inscrições: (21) 2508-8608
meditarsempre@gmail.com
ou mensagem pelo site

http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=92

Leia também:

Respirar é Viver: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=1497

Explore a Sua Respiração: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=92

A Trilha Libertadora da Respiração: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=1471 

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22 Responses to A Ciência da Felicidade

  • Adoro as suas postagens,que deus o ilumine sempre ,pois com estas lindas e maravilhosas postagens muita gente se devia de interrogar.Um Abraço de luz

  • elisabete:

    Para quem tem olhos para olhar, este mundo é lindo demais,para quem tem sensibilidade refinada o mundo é pura magia.Obrigada por um maravilhoso texto que nos passa humildade e amor.

  • Marta Rainho:

    Adoro ler o que você escreve, Pedro! Entro nas cenas e desfruto de toda simplicidade e beleza das histórias aqui relatadas. Muito Grata por esses momentos de reflexão. ☼

  • Amei a estória dos mendigos e vou te contar a minha , bem curtinha: ávida toda eu “li” sobre meditar: como, onde, porque … Mas nunca pus em pratica!não tenho disciplina suficiente para aquilo que exige método e perseveranca com uso diário… Por isso estou com 25kls de exesso de peso aos 80 anos !mas quanto a respiração , sempre que me sinto cansada ou estressada, faço aquela chamada abdominal , deitada, logo após uma ducha quente , por 10 minutos… E minha energia volta renovada! Vou acrescentar a esta simples pratica a respiração dos teus mendigos, a da continência… e a diagonal, mas v. Poderia fazer um esboço delas para eu sacar se entendi bem….?põe no face que eu acho.Obrigada e um abracao!!!

  • Enice de Faria:

    Parabéns pelo texto, muito lindo e nos mostra como olhar o próximo com o olhar da alma! Fiquei encantada. Abraços!
    Enice

  • Amei Pedro,
    Lição de Sabedoria de vida, e não livresca.

  • Algenir Loiola:

    Bem interessante a forma como organiza seu texto. Senti vontade em lê-lo na íntegra. Cada parágrafo me levava avidamente a outro. Seu pieguices, as palavras fluiam “cotidianamente”, gostosamente. Já pensou em escrever um livro? Parabéns. Ah… as fotos complementaram a beleza do texto.

  • Algenir Loiola:

    Vou publicar o texto em meu facebook com a fonte!!!

  • Nadia:

    Bela reflexão!

  • Tereza Notini da Silveira Martins:

    Boa Tarde,Pedro

    Obrigado pelo carinho com que me recebeu e adoro tudo que se refere a autoconhecimento. Pratico yoga no Ananda Marga e sou vegetariana. VAMOS MANTER CONTATO………………

    ABRAÇO

    Tereza Notini

  • Vanilse T. C. de Jesus:

    Pedro
    Você sempre surpreendente com seus textos carregados de bons ensinamentos. Fico feliz por poder acessá-los sempre. Estarei no próximo mês no Rio de Janeiro e quero muito te conhecer pessoalmente, pois sei que és uma criatura muito radiante.

  • maria matos:

    AAAAAHHHHH felicidade agora está sendo bebericar suave e lentamente de suas doces águas de sensibilidade e beleza além dos encontros luminosos das segundas-feiras.
    Que bênção tê-lo em meu campo energético e compartlhá-lo com tantos outros mais!!!

  • HELOISA HELENA:

    O AMOR É A NOSSA PRÓPRIA ESSÊNCIA, É A VERDADEIRA PÁTRIA, É ONDE DEUS PROFUNDAMENTE HABITA, EM SUA CONSCIÊNCIA MÁXIMA!

  • Seus textos, como sempre, são maravilhosos e ótimos para nossa reflexão.
    Abraços com muito carinho.

  • YAM`NA JABOUR:

    As experiências de vida levam ás reflexões mais verdadeiras porque são sentidas com os olhos da alma. Parabéns! Obrigada por compartilhar com todos que o admiram! Yam´na

  • teresa Cristina:

    Muito bom.. Valeu!

  • CELIMAR VEIGA:

    Querido Pedro,
    Minha admiração por você… se amplia a cada dia… mais e mais. Só os Seres sensíveis…humanitários e possuidores de infinitos valores preciosos… são capazes de perceber a genialidade na simplicidade! Beijos de Luz!
    Celimar Veiga

  • iriagotti:

    Adoro suas postagens

  • Não consigo nem comentar, amigo, o semblante das duas fotos anexas fala tudo, e sua emoção fala muito mais ainda… Gratidão, Taza.

  • Ricardo Fabião:

    Tu és musico, flautista? Se tocas com a mesma harmonia com que escreves, gostaria de ouvir uma performa tua.

  • Cida Vieira:

    É incrível como você consegue com que façamos o movimento PRÁ DENTRO de nós!! Obrigada, sempre!!

  • Que lindo!! Observados, e as observações do observador…rsrs… :)

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