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Wu Wei

Wu Wei

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Pedro Tornaghi

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Wu wei é ao mesmo tempo o principal paradoxo e a ideia central do taoismo. Frequentemente traduzido como “ação sem ação”, ele se tornou um enigma difícil de ser decifrado ou entendido por ocidentais, algo do tipo decifra-me ou devoro-te. E tem sido mais devorador do que decifrado. Pudera, Lao Tse dizia que mesmo seus contemporâneos chineses eram incapazes de entender a sutileza da linguagem do Tao e particularmente o significado do wu wei. 

Mas ele não é tão difícil assim de ser entendido. E muito menos impossível. Wu wei é uma ação livre de dualidade, algo como deixar a energia vital fluir de dentro de você e deixar-se fluir com ela. Algo como agir a partir desse fluxo natural e assistir sua atividade. Deixar-se ir com ele, não resistir ao fluxo natural – da vida. Toda energia está em movimento e esse movimento possui um propósito e uma direção inerentes. Possui um endereçamento. Wu wei, em última análise, é assistir à energia brotar dentro de si e cumprir seu propósito, e “ir com ela”, nunca contra. 

Existe um mundo dual, que nos divide em muitos vetores. No wu wei, tudo em você está fluindo, nada barrado, os fluxos que vêm de sua região mais profunda podem se manifestar sem restrições, barreiras ou apropriações de sua energia. 

A dificuldade em se vivenciar uma ação sem dualidade vem de nossa mente que a tudo julga. Em sessões de meditação, quando peço a todos que prestem atenção à respiração, vejo em seguida todos tentarem controlá-la e respirarem da maneira que consideram ideal. É difícil só olhar, sem interferir a partir de um julgamento do que é bom ou ruim. Wu wei é uma ação descontaminada das ideias que temos de bom e ruim, certo e errado, melhor e pior e assim por diante. 

É quase impossível para um ocidental simplesmente estar atento à própria respiração. Você pede para a pessoa somente testemunhar o ar entrando e saindo das narinas, mas ela extrapola o papel que lhe é pedido. Imediatamente ela deixa de ser somente uma testemunha e se torna também um promotor que se acusa de estar respirando tensamente, rapidamente ou superficialmente; e assume também o papel de juiz, decretando como a respiração deve passar a ser, e veste a carapuça do réu, se sentindo culpada e diminuída por estar respirando mal, e se torna advogada de defesa, justificando a si mesma e apontando razões aceitáveis por estar respirando de maneira inadequada. E muitas vezes se imputa uma pena por isso. 

Freud criou o conceito de trieb, pulsão. Ele chamou de pulsão a energia excedente que criamos em nossa células e órgãos e que procura se manifestar e expressar além delas. Quando isso acontece, a energia encontra nossos pensamentos e ideias sobre a vida (ou quaisquer representações mentais) que se apropriam da energia e emprestam a ela seus objetivos. Wu wei, é agir a partir da energia pura, não impor a ela objetivos ilegítimos. 

Na Índia se diz que temos vários corpos, um corpo físico, um mental, um de energia, um emocional e um espiritual. Esses corpos costumam formar ideias próprias do mundo, e disputam o uso de nossa energia, tentando sempre influir em nossas atitudes. Mas nem sempre os desejos e vontades dos diferentes corpos são convergentes. Todos conhecem pessoas que vivem planejando fazer regimes para emagrecer, mas que acabam sempre comendo mais do que devem, ou pessoas que se propõem a acordar mais cedo para meditar ou fazer yoga, mas pela manhã, quando o despertador toca, elas o desligam e dizem a si mesmas: amanhã eu começo. O corpo mental da pessoa decidiu acordar cedo, mas o corpo emocional e o físico sabotaram. A pessoa fica se achando confusa, sem saber o que quer, chamando todas as sua partes indistintamente de “eu”, sentencia que sua vida é um constante conflito interno. Se a pessoa identificar que parte sua deseja acordar e qual quer dormir mais, já dará um passo para se tornar livre do conflito. Se ela conseguir libertar sua energia original dos propósitos de cada corpo seu, ela vivenciará o wu wei. 

Essa mesma pessoa, se gosta de futebol e vai acontecer uma partida importante no Japão, transmitida de madrugada, é capaz de colocar o despertador para tocar às quatro horas da manhã, mas acordar espontaneamente cinco minutos antes, e sem cansaço aparente. O que acontece é que naquele momento todos os corpos da pessoa querem a mesma coisa, e a energia converge. Quando ela se entrega ao wu wei, passa a ter sempre todos os seus corpos em uma dança e correlação harmônicas. Consigo mesma e com o universo. 

Essa energia que Freud chamou de trieb, o chinês chama de “energia chi”. Reconhecer o fluir do chi dentro e fora de você e afinar-se com ele é afinar-se com o que há de mais legítimo na vida, por trás da vida, em vida: o seu propósito original. Mas, para isso é preciso haver uma confiança na vida e uma confiança na sua própria energia.

 

Sua energia em estado original não tem dualidade. E ela sabe para onde quer levar você. Ela o quer levar a um lugar muito mais legítimo do que todos os objetivos juntos em que sua mente acreditou serem importantes durante a vida. Quando nos aproximamos da morte, vemos o quanto foram tolas nossas crenças de sucesso ou de moral, que consumiram quase todo o nosso tempo e combustível durante a vida. Quando amadurecemos, passamos a valorizar mais as coisas essenciais. O taoismo diz que o sábio age a partir do fluir espontâneo de sua natureza mais profunda. E por isso, se sente realizado. Essa energia sem endereço sobreposto a ela, ou o Tao, é a mais essencial experiência que podemos ter. A mais gratificante. A mais autêntica. Wu wei é vivê-la. Sem se opor. Ir com ela aonde ela lhe levar. Sem manipulá-la por interesses de segunda classe. 

Wu wei é deixar que a expansão natural de energia de dentro de você, sopre suas velas e leve seu barco adiante. É uma ação que surge do vazio interno. Vazio de concepções, de noção de si mesmo. Apenas com consciência da dança do universo acontecendo através de você. É uma dança que surge de um ponto de quietude dentro de você. Sem esforço. Sem influência da sua identidade, sem a interferência de desejos artificiais. Sem nada preso. Com o ser inteiro. Com o corpo integral. 

Wu wei é um estado de se sentir totalmente integrado aos fios invisíveis do universo. Sem tentar controlar essa integração. Apenas aceitando e usufruindo dela. É sentir-se sustentado pelo universo da mesma maneira que um dia você esteve sustentado por uma mãe em seu ventre. 

Wu wei é andar com naturalidade e descobrir sua verdadeira natureza conduzindo suas atitudes. Momento a momento. Simplesmente. Só. 

Essa natureza mais profunda que conduz as atitudes no wu wei era o que Lao Tsé chamava de Tao. E o adágio chinês vaticina que quando a ação acontece a partir do Tao, nada fica por ser feito. Nenhum conflito permanece por ser resolvido. A vida se torna um bailado harmônico, entre você e a consciência.

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Participe do Curso:

“Tao, Meditação e Respiração”:

http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=3020

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Leia também:

O Tao: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=2987

Meditação e Respiração: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=2503

Mestres da Meditação: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=2539

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2 Responses to Wu Wei

  • matilde ferraz:

    Que entendimento maravilhoso! Compreendi algumas coisas e me senti instigada a estudar mais. Fácil e complexo, mas quero poder praticar o Wu wei, sem julgamentos deixar a energia de todos os corpos fluir, penso que isso também é Amor por nós; por todos…

  • José Emilio Delben:

    Ação da não ação è a manifestação do Poder do não poder, sem a dispersão da energia, levando ao Grande Silêncio onde tudo age e penetra.

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