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Desvios do Caminho

Desvios do Caminho

Pedro Tornaghi

 . 

“Quando parares nesta estrada,
a estrada, dali em diante,
desaparecerá.”
Paul Auster

Ando me perguntando por que tantos se desviam do caminho do autoconhecimento, mesmo os que trilharam passos importantes dentro dele e reconheceram vocação para essa estrada; por que, tendo boas lembranças e as melhores perspectivas com a continuidade da experiência, tantos se afastam, com tão visível facilidade do próprio crescimento pessoal? Por que, mesmo depois de terem se sentido esclarecidos e realizados com as primeiras práticas espirituais, tantos conseguem dar as costas ao caminho e até esquecê-lo? 

É como se tudo o que sentiram e vislumbraram em suas vivências, tivesse agora pouco ou nenhum significado, mesmo que no momento primeiro tenha parecido ser o fato mais significativo de suas vidas. Teriam elas passado por algo ainda mais significativo depois, que justificasse apagar a importância dessas experiências anteriores? Não, não viveram. Apenas esqueceram a importância daquela experiência. Se desviaram das linhas condutoras que tinham descoberto para si mesmas, e passaram a vagar atrás de coisas efêmeras, vagar atrás de sonhos, esquecendo que o que um dia lhes deu contentamento, preenchimento não está presente em suas novas ocupações. Está neles, na parte deles que parou de ser ouvida, que deixou de desfrutar de suas preciosas atenções. 

Como retomar o caminho? Como perseverar nele até que a estrada evolua por novas curvas e revele novos horizontes? Paul Auster diz em seu poema: a estrada que você abandona, deixa de existir, o caminho que você deixa de percorrer, desaparece. Sim, desaparece. Como que cimentado, não apenas o caminho, mas também nossa consciência e lembrança dele. 

Tenho tantos amigos em que isso se tornou realidade… Aos dezenove anos, tive minha primeira experiência com meditação com uma senhora chamada Ruth. Ela foi impecável ao me instruir, passou alguns dias me orientando sobre a meditação que iria me ensinar, até chegar a hora da iniciação. Nesse momento, ela apagou as luzes, permaneceu ao meu lado orientando minha primeira meditação. Foi uma experiência de apenas quarenta minutos, mas eu queria que não tivesse parado tão rápido. Ao final, conversamos e me lembro de dizer a ela que, a partir daquele dia, se me colocassem em uma prisão perpétua eu não me incomodaria mais, pois sabia que poderia usufruir de uma experiência semelhante, mesmo encarcerado; ou em uma cama de hospital, ou onde quer que fosse. 

Entusiasmado com a experiência, passei a levar todos os meus amigos de adolescência para a meditação e o yoga. Nenhum permaneceu por mais de seis meses. Alguns foram só mesmo ao primeiro dia. Embora todos vivessem a procura de experiências extraordinárias, que transcendessem seus cotidianos habituais. Mas, eles se satisfaziam com drogas e bebidas nesse sentido. E me diziam que eu seria melhor se bebesse e comungasse com eles os coquetéis lisérgicos, sempre presentes quando nos encontrávamos. Nunca preguei a nenhum que voltasse à meditação. São todos meus amigos até hoje e imagino que estejam como querem estar, mas, certamente, para mim a experiência da meditação ressoou diferente. 

E não foram só meus amigos pessoais que me deram exemplos nesse sentido. Foram inúmeras as pessoas que conheci com os olhos brilhando quando falavam de meditação ou quando se entusiasmavam com suas experiências espirituais e que não continuaram com suas experiências. 

Observo-os não para demovê-los da desistência, sei não ter essa capacidade; e, quem sou eu para decidir o que será melhor para eles? Observo-os procurando aprender com eles, tentando usá-los de espelho, para não desistir inconscientemente da estrada. Se eu desistir, que seja por lucidez, e não por inconsciência. 

Não posso dizer que haja uma causa única para os que interromperam a estrada que diziam ser a melhor solução para suas vidas. Alguns sofreram demandas grandes de sobrevivência, suas e de suas famílias. Outros, foram satisfazer necessidades de socialização, outros foram atrás de aplausos, outros foram se afirmar na busca pelo poder; outros tiveram medo de perder suas identidades… 

Vou me deter em um aspecto de muitas desistências que vi. 

Há um momento em que torna-se tenso avançar no caminho do autoconhecimento, a estrada, rodeada de flores de fragrância insuperável, nos é de repente pintada como algo insuportável. Sim, mergulhar dentro de si próprio inclui encontrar o que quer que esteja acumulado aí dentro. De agradável ou desagradável. Todos entram na meditação com uma imagem ideal, de um paraíso de calma e serenidade. E é verdade. No fundo do seu oceano você irá encontrar essa paz. Mas, quem mergulha precisa passar pelas águas rasas, com suas correntezas e ondas, antes de chegar às mais profundas. E por toda a sujeira ali jogada e acumulada. 

Buscar a própria profundidade requer fôlego, e requer disposição para enfrentar conteúdos que foram estocados no “quarto da bagunça”, um cômodo interno onde você guardou muitas experiências para serem “processadas” depois. Como quem compra mais revistas e livros do que consegue ler e as vai estocando, guardamos conteúdos emocionais dentro de nós, em parte porque as experiências ocorriam mais rapidamente do que as podíamos “processá-las”, em parte porque algumas, no momento em que aconteceram, eram demasiado fortes para serem digeridas, em parte porque nos sentíamos mais “ricos” colecionando conteúdos emocionais, em parte porque precisamos armar defesas internas para garantir nossa integridade psíquica e emocional em momentos desafiantes… 

Enfim, meditar e se buscar internamente, em um certo momento, requer coragem para encarar de frente as dificuldades que surgem de dentro de si. E em outros momentos requer delicadeza e gentileza totais para contatar sutilezas profundas. Requer que sejamos yin e yang ao mesmo tempo. E, em outros momentos que nem isso sejamos, que sejamos totalmente neutros frente ao que nos acontecer no processo. Talvez por isso tão poucos não se sintam talhados para o processo interior. Talvez desconheçam as suas próprias potencialidades. Talvez estejam presos a um estilo único de agir, e não consigam modular quando necessário. Talvez desconheçam que todo homem contém em si todo o Universo, e assim, tem a capacidade de ser como o novo momento exige. Talvez por desconhecer a própria universalidade, perca a oportunidade de vivenciar o que possui de mais particular: sua maneira de contatar a verdade. 

Mas, uma coisa é certa. Todos podemos avançar no caminho da auto-realização. Sempre pudemos. Sempre poderemos! E, se decidimos retomar a viagem, não há problema se o mato desfez a trilha, o prazer de abrir inédita picada, floresta adentro, rumo ao profundo de si, junto ao frescor da fragrância do momento, nos alimenta. A alegria de descobrir a vida em sua essência e o que significa estar lúcido e em seu habitat natural faz qualquer dificuldade do caminho, por maior que antes pudesse parecer, mostrar-se irrelevante. A sensação de estar de volta em casa, faz com que qualquer sentimento estrangeiro anterior se torne apenas uma fotografia descolorida, de um passado já sem força.

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Participe do Curso “Meditação Através dos Chakras e da Respiração”:

http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=68

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Leia também:

Psicologia dos Chakras:

http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=1258

Chakra do Coração:

http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=294

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4 Responses to Desvios do Caminho

  • Yam´na Jabour:

    Palavras sábias, Pedro! Como admiro a sua sapiência!!! Caminhar por esse caminho nos traz a certeza da verdade.E precisamos nos cuidar
    para que as ilusões não nos levem para caminhos opostos. Tenho reservado uma página com suas colocações, no hotmail. Obrigada por você existir!! Abraços fraternos. Yam´na

  • Luna Hobbs:

    Oi Pedro.
    Obrigada do sharing. I have been working a great deal on this subject. I say this , the road of self discover is not an easy road to travel.
    I can speak only on my own experiences and my life journey. Some people that stayed behind on my journey created great pains and others not at all. I guess sometimes we are not ready to cross a portal ,in this case we take a detour and life make us take a lot of detours indeed. Some of those unfinished self discover journeies when we stop for whatever reason ,we leave pieces of ourselves behind. As I grow older ,I find myself revisiting some of those places spiritually . Why ? That was the questions I had when I begun doing this. First I start just lightly touch the answers ….like I want to know but do I really want to know?I knew that for me to revisit those places and try to retrace where I was and where I am now and looking a bit far ,where I want to be, I would have to dive in spiritually…it can be scary .it leave us vulnerable to our own emotions. Anyway when I did it ,I found pieces of myself that had left behind ,some joyful pieces and some very painful that I had to face and deal with it. The spiritual work to reclaim all those little pieces of me took me deeply within my soul. It shook the very core of me but i made it….sometimes laughing , screaming and sometimes both at the same time. I want to be able to look at myself and the world without curtains ,with clarity and goodness of the heart.I want to walk the rest of my journey with peace ,joy and knowing that I will keep striving to be whole like Great Spirit created me. Keep sending those beautiful posts we all need them.Know in your heart that you touch souls when people read your writings.
    Walk softly and in peace
    Mitakuye Oyasin
    Luna

  • j virgilio moura:

    Oi Pedro…muito bom e oportuno para mim neste momento…pensei quase todos os dias desta semana exatamente o que escreves e descreves neste texto…obrigado…Virgílio

  • Angela Zanol Cavalcanti:

    Oi, Pedro… Minha mãe dizia que havia dois caminhos; um de flores e outro de espinhos e que um dia na vida teríamos que escolher entre ambos, eu era pequenina e perguntava…Quando? Ela me respondia: Quando você chegar na encruzilhada terá dois caminhos e você precisará escolher… Realmente é muito gratificante voltar para casa em vida… (muitos sei que estão esperando a morte para voltar para casa rsrsrs… mas penso que cada um é um (embora sejamos todos um perante o Divino, com os nossos diferentes planos de vida). Quando chegamos na encruzilhada da vida, ou abrimos mão da segurança, do conhecido para o desconhecido e abraçamos o Amor Universal ou continuamos na mesmice do conhecido. Grata por sua amabilidade e dedicação para com todos.
    Namastê!

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