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O Progresso que Interessa

O Progresso que Interessa

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Pedro Tornaghi

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“O homem sensato se adapta ao mundo;
o insensato insiste em adaptar o mundo a ele.
Todo o progresso depende, portanto, do homem insensato.”
Bernard Shaw

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Bernard Shaw disse que todo o progresso depende do homem insensato e meu irmão Eduardo – de ascendente virgem – ao ouvir questionou: “a propósito, o que vem mesmo a ser progresso?”. 

A pergunta procede. Fiquei curioso de saber o que é progresso no entendimento dele, mas preferi ficar com a pergunta, ecoando, como um “koan zen”, cavucando o solo do inconsciente, até beirar ou mesmo se esbaldar em alguma fonte interna. 

É, o que vem mesmo a ser progresso? Progresso é romper com o estabelecido e dar um passo adiante. Se é bom ou ruim, para o bem ou para o mal… depende do sentido em que o passo é dado e do ângulo em que se vê a cena. Não pretendo me estender em especulações filosóficas em todas as direções e possibilidades que a ideia de progresso permite, mas pegar a deixa para aprofundar uma questão. Estamos buscando um progresso que nos interessa ou perseguindo algo que enganosamente nos satisfaz? 

O que é o progresso no sentido humano? Somos um produto de luxo da natureza, cada um de nós uma semente de um Buda, sim, cada um de nós provido de alguma qualidade de consciência e carregando consigo a possibilidade de levá-la ao ápice. Mas quantos de nós chegam a esse estado? Quantos regam a semente de consciência, quantos a deixam crescer e chegar ao auge? Quantos chegam a usufruir da fragrância de suas flores e o sumo de seus frutos? 

Tenho amigos montanhistas que sonham em escalar o Everest, sabem que arriscam suas vidas nessa aventura, mas questionam qual o sentido da vida se você não puder se arriscar pela felicidade e auto-realização? Sim, verdade, mas quantos no mundo atual são capazes de “dar tudo”, realmente tudo o que têm para escalar os “everests” internos? E, quantos vislumbram que a felicidade pode estar neles? 

O progresso é algo inevitável, a questão é: para onde ele está acontecendo. O que está progredindo em nós? A inconsciência ou a consciência? 

Quando a pessoa adoece, pode-se entender o momento como o progresso da doença no corpo dela. A colônia de vírus em pleno progresso e sua saúde… caminhando para a falência. O mesmo acontece com relação à psicologia e às emoções. Quando a inconsciência avança dentro da pessoa, ela vê sumir, entre labirintos ocultos da memória e pelos corredores dos cânions de dias tensos, uma lucidez que trazia consigo. Quando a ansiedade progride dentro dela, o prazer e a calma fenecem. Quando o medo se desenvolve, o amor encolhe, se espreme e, o que era puro néctar, transforma-se numa alquimia nefasta e perversa, em asqueroso pus. Quando a ambição e a vaidade progridem, a lucidez se dissipa. 

Pode-se dizer que a energia que alimenta a inconsciência e a consciência é a mesma. A única a nosso dispor. Se ela, como um rio, corre na direção da inconsciência, a consciência adormece desnutrida. E vice-versa. Se a energia irriga o amor, o medo se dissipa, se ela alimenta a musculatura do medo, o amor é eclipsado. Se ela se adensa nos corredores da ansiedade, o prazer morre de inanição; se ela alimenta as crenças que levam ao orgulho e à vaidade, a lucidez some no ar como um balão de hélio, que voa tão alto até se perder de vista. 

Sim, a energia é uma só, as terras que ela irrigar se tornarão culturas férteis, as que sofrerem de abstinência de seu fluxo, minguarão. 

Se o homem é a semente de um Buda, se traz consigo todas as possibilidades de se tornar um iluminado, quando a energia irriga sua natureza original, ele tem tudo para tornar o projeto de consciência, que costumamos chamar de homem, em uma realidade. Mas, os desvios e as apropriações da energia pelos oportunistas de plantão, como o medo, a ansiedade, a ambição, o orgulho e cia, facilmente abortam o projeto legítimo que ele traz consigo. 

E, o problema é que nos esquecemos do projeto original que trazemos dentro de nós. O que fazer então para retomá-lo? E, se retomado, será que ele terá a capacidade de nos tornar felizes e realizados? 

Sim, dentro de nós, todos temos a lembrança de que um dia soubemos que esse “projeto original” era mais que um destino, era a verdadeira “terra prometida”, o lugar onde nos sentiríamos novamente “em casa” e à vontade no mundo em que estamos. Todos temos essa memória guardada em algum lugar recôndito dentro de nós. E, ao resgatá-la, não será difícil entender onde mora nossa felicidade. 

Mas a questão é, como recuperar essa memória do que nos é essencial? Como chegar a essa região interna onde supostamente temos a lucidez e o bom senso mais afiados? 

A resposta não é difícil. Nem mesmo de ser entendida. Todos temos algum amigo que um dia já foi assaltado. Quando chegou à delegacia para prestar queixa o delegado pergunta se ele pode descrever o assaltante, ao que o amigo reage: “como me lembrar do rosto dele? Eu estava muito tenso”. Mas e se o delegado é diferenciado e sugere uma sessão de hipnose… o que era impossível por se tornar mesmo fácil. Há registro de pessoas que foram capazes de se lembrar detalhes impressionantes com precisão cirúrgica, do tipo “tinha duas pequenas pintas acima do lábio direito superior e uma menor acima da sobrancelha, três fios de cabelo branco na extremidade esquerda da sobrancelha”. O rosto do assaltante estava todo lá. Como uma fotografia. Que, de repente, pode ser recuperada da memória graças ao profundo estado de relaxamento que a hipnose proporcionou à pessoa. 

Nossa memória funciona assim. Registramos nossas experiências em zonas rasas e profundas de nossa psique. Quando estamos tensos, temos acesso apenas à superfície desse mar, para chegar às zonas mais profundas, onde a memória está melhor organizada e nítida, é preciso relaxamento também profundo. Quando aprendermos a relaxar profundamente, teremos acesso a memórias como essas, mas também à memória que nos pode ser mais essencial e significativa. A memória de quem somos e de quem poderemos chegar a ser. A memória do que dentro de nós anseia, de maneira mais legítima, por progredir. O que era o nosso desejo original de progresso, antes que acreditássemos em tantos outros projetos de felicidade, implantados pela convivência social. Por vezes torta e equivocada. 

Quando recuperarmos essa memória interna, vamos nos lembrar do que sempre soubemos, mesmo quando nos esquecemos nas regiões mais rasas de nosso oceano interior: quem somos e a que viemos.

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Participe do curso:

“Memória e Rejuvenescimento Celular Através da Meditação”:

 http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=82

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Leia Também:

“A Arte Milenar da Memória “: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=1159

“As Meditações da Pineal”: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=1135

“O Paraíso Esquecido”: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=1177

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4 Responses to O Progresso que Interessa

  • Natividade:

    Texto profundíssimo e lindo. Me vi diante de reflexões inusitadas na minha concepção de caminhante. Tantas vezes me perguntava, por que me atraem tanto os temas do mistério da vida e de nós mesmos? Que há comigo? E a espiritualidade, saber das leis ocultas que regem nossa vida e o universo, por que gosto tanto? A resposta: “o homem tem tudo para tornar o projeto de consciência, que costumamos chamar de homem, em uma realidade”.
    O texto é maravilhoso!

  • Marisa Oreiro:

    Olá,
    Gostaria de participar da palestra nesta segunda sobre meditar para se ter memória e rejuvenescimento.

    Olá Marisa,
    A palestra é aberta, basta aparecer,
    Um abraço fraterno,
    Pedro

  • A questão de não saber que a jornada é a raiz de toda auto percepção, mas descobrir onde somos melhores no servir, somente.
    Que tipo de meditação entre em sintonia para aqueles que gostam do agir.

    Um Grande Abraço, encontrando “outros(as)-sintonia” no signo do servir com contentamento,sendo o crescimento do “outro” o nosso!!!

    Roberto Willians

  • Candida Amaral:

    Gostaria de receber suas programações.
    abraço

    Olá Cândida,
    Colocamos seu e-mail em nossa mala direta, você passará a receber as novidades.
    Abraço fraterno,
    Pedro

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