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Os Novos Budas estão Chegando

Os Novos Budas estão Chegando

Pedro Tornaghi

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Se a palavra usada para crise é a mesma para oportunidade na língua chinesa, resta saber que oportunidades estamos tendo de crescer na atual crise. E se as estamos usando da melhor maneira ou apenas da maneira mais fácil. A evolução dificilmente se dá apenas pelo mais fácil. Se tentarmos desviar o olhar da crise, em busca de conforto, podemos estar jogando fora uma chance de crescer no rumo de uma situação melhor. É hora de aguçarmos sensibilidades e discernimento para aproveitar da melhor maneira possível a oportunidade atual. 

Em dois meses de enfrentamento entre manifestantes e um poder estabelecido que não quer abrir mão de privilégios nos quais se viciou (incluindo além de confortos físicos, a arrogância de não ter que dar satisfações sobre seu comportamento) houve uma enorme energia desprendida no ar, e uma outra quantidade de energia ainda maior, acordada em todos pela excitação dos novos fatos. Quando há uma tal energia presente, sempre se acendem luzes dentro de nós, revelações acontecem dentro de cada um, e, se estivermos atentos, podemos aprender com os lampejos individuais. 

O momento que vivemos é um momento-útero de uma grande revolução do saber, e a véspera do nascimento de uma geração de gênios que hão de trazer mais uma vez a oportunidade de um salto quântico na inteligência humana. Desde o início da civilização, há dez mil anos atrás, tivemos dois grandes saltos quânticos na compreensão social, política e filosófica da humanidade. O primeiro se deu quando foi criada a linguagem escrita, cerca de600 a500 anos antes de Cristo. Em um mesmo momento, ela apareceu para gregos, persas, indianos e chineses. E as mudanças foram enormes. Surgiu uma geração de sábios que mudou a rota de todas essas civilizações. Na Grécia, apareceram Sócrates, Platão, Diógenes, Zenão, Heráclito, Pitágoras e tantos outros que sei que muitos vão reclamar por eu não ter citado Aristóteles ou Paramênides ou… Na Pérsia, surgiu a maior expressão de sua cultura, Zoroastro – ou Zarathustra. Na Índia nasceram Budha e Mahavira (esse, embora pouco conhecido no Brasil, possui até hoje mais seguidores que Budha na Índia). Na China nasceram Lao Tsé, Confúcio e Chuang Tsu. Todos eles, contemporâneos, são até hoje os grandes marcos das culturas desses países e regiões. 

E, não apenas a filosofia sofreu uma mudança radical e subiu degraus em qualidade nessa época. Essa geração presenciou o nascimento da democracia na Grécia. Já na Pérsia, antes da linguagem escrita, cada novo imperador costumava recontar a história a partir de seu reinado. Ciro foi o último imperador por ali a conseguir contar a história a partir de si, seus sucessores Dario e Xerxes não tiveram mais como apagar a historia anterior. Nem que matassem todos os que a conheciam, ela começava a ser registrada por escrito. Isso possibilitou um questionamento crítico muito maior e, ser imperador nunca mais seria a mesma coisa. Na China, até o aparecimento da escrita, quando falecia um imperador, morriam juntos de10 a15 mil funcionários mais diretos, que tinham o dever de “ir-se” junto ao seu “chefe-semideus”. Dentre esses 4 impérios, o indiano talvez tenha sido onde a reforma política tenha sido menos visível e a religiosa mais evidente. Talvez pela espiritualidade para aquele povo ser tão mais essencial e importante do que o poder. No tempo de Buda, a Índia estava entre o meio e o final da invasão cultural e política ariana, onde tradicionais rituais religiosos védicos, trazidos pelos invasores, eram quase que obrigatoriamente adotados. Buda e Mahavira questionaram esses sofisticados, mas burocráticos, rituais arianos e propuseram uma visão da espiritualidade baseada em valores mais simples e essenciais, como compaixão e busca direta da verdade. 

Foi um momento de descentralização massiva de poder para todas essas civilizações. O mundo não seria mais o mesmo e, daí por diante, os chefes de poder não mais decidiriam qual visão de vida seus comandados deveriam ter. 

O segundo grande salto filosófico, religioso e político da humanidade aconteceu após um novo “upgrade” dos meios de comunicação, a invenção da imprensa. Após a criação de Gutemberg, uma geração de gênios como Leonardo Da Vinci, Botticelli, Michelangelo, Brueguel, Giordano Bruno, Calvino, Lutero, Machiavel, Shakespeare & cia teve a chance de mudar os rumos do conhecimento humano e vivenciar uma descentralização do poder político e religioso inimaginável anos antes, na Idade Média. 

Hoje, vivemos uma terceira revolução muito mais significativa e radical. Ela começa por um diferencial em relação às anteriores: ela atinge diretamente a praticamente todos. Quando foi criada a linguagem escrita, uma percentagem ínfima de pessoas em todas as civilizações beneficiadas sabia ler. E, como os livros eram “pintados” à mão, um por um, não era algo simples ter acesso a um exemplar. A maioria dos livros possuía apenas um exemplar. Graças a essa exiguidade, a Igreja Católica conseguiu queimar toda a obra grega, que só conhecemos hoje em dia graças às suas traduções para o árabe. Graças a isso, conhecemos apenas três ou quatro dezenas de tragédias gregas. 

Também no renascimento, o acesso à novidade do livro foi restrita a muitos poucos. Nem reis, de forma geral, sabiam ler. A biblioteca de Leonardo Da Vinci tinha cerca de quarenta volumes, e estamos falando do principal personagem dessa revolução cultural. Hoje em dia, qualquer adolescente é capaz de carregar 3, 4 ou 5 mil volumes em um “pad” debaixo do braço. 

A revolução atual é sem dúvidas a mais abrangente e democrática. Fiz o mapa astrológico de um fazendeiro que me contou como seu pai costumava cortar com a tesoura as notícias das revistas e jornais que chegavam à fazenda da família. Ele censurava o que não queria que os outros soubessem. Na geração do meu cliente, aparecera na fazenda o “radinho de pilha” e seus peões passaram a tirar o leite todos os dias, às quatro horas da manhã, escutando notícias da Rússia, Inglaterra ou Rio de Janeiro. Passou a ser impossível para ele escolher o que os funcionários saberiam. Ele vivia algo semelhante a Dario em relação ao pai Ciro na antiga Pérsia, não podia mais escrever sozinho a história nem manipular o conhecimento. 

Multiplique-se agora, a revolução do radinho de pilha pela revolução da internet, dos canais de midia espontânea e social. Até dois meses atrás, meia dúzia de meios de comunicação, que funcionavam por concessão de governo e tinham seus orçamentos engordados com verbas de divulgação oficial, escolhiam o que radinhos de pilha e telas de televisão iriam dizer. Que interpretação dariam aos fatos. Nos últimos dois meses, as televisões oficiais tentaram continuadamente fazer prevalecer a versão de que os conflitos nas manifestações sociais surgiam sempre pela necessidade da polícia revidar ataques físicos vindos de manifestantes. Alguns poucos jovens foram capazes de forçar uma mudança no comportamento da desde-sempre-toda-poderosa-grande-midia. Munidos de dois telefones celulares, os meninos da “Midia Ninja” foram para o front das manifestações e transmitiram ininterruptamente o que ia acontecendo, muitas vezes desmentindo e desmoralizando versões oficiais. Suas transmissões geravam comentários que se espalhavam viralmente nas redes sociais e, “nunca antes na história desse país”, foi tão impossível às emissoras impor a versão de sua conveniência. E não ficou só nisso, milhares de meninos e meninas mostram impressionante desenvoltura de criar imagens dos protestos, de filmar a ação policial ou dos manifestantes por tantos ângulos que ficou impossível a polícia do Rio de Janeiro por exemplo, continuar insistindo em suas estratégias de forjar provas e criar falsas acusações sobre manifestantes. 

Em uma manifestação nas cercanias da casa do governador do Rio, por exemplo, policiais após darem todo o espaço necessário para haver um gigantesco quebra-quebra apareceram no final para pegar alguns inocentes e mostrar serviço. Prenderam o ator Rafucko, confiscaram dele uma segunda camisa que ele usava para, embebida de vinagre, conseguir respirar sob a nuvem de gás lacrimogêneo, e a encheram de pedras portuguesas para ser usada como prova de que era um “vândalo” que atacava policiais. Não perceberam que o ator filmava a tudo com seu celular, desde a abordagem a ele, até a criação de provas. Ao chegar à delegacia, Rafucko viu um representante da OAB e imediatamente entregou o celular a ele e disse: segura que está tudo aí. Menos de uma semana depois, a polícia correu atrás do menino Bruno que, mesmo depois de deitado e imobilizado no chão, cercado por vários policiais, foi vítima de uma descarga de choque elétrico por uma das chamadas “armas não letais”. A descarga parece ter sido excessiva, mesmo para um rapaz forte e de músculos privilegiados como ele, uma vez que ele desmaiou imediatamente. Bruno foi carregado desacordado pelos policiais, como se carrega um bicho morto, quatro deles o seguraram, cada um a um braço ou perna, e o levaram assim por cerca de800 metros. Ao acordar, Bruno ainda foi, apesar de algemado, agraciado com uma gravata e acusado de ter jogado o primeiro coquetel molotov sobre a tropa. Quando perguntou o nome do policial que o acusava (estavam todos sem a identificação obrigatória na farda) rapidamente sumiram com o policial acusador e um colega seu respondeu repetidas vezes: o nome dele é “senhor policial”. Minutos depois, choveram vídeos na internet, mostrando o Bruno em todos os momentos, inclusive sequências ininterruptas de todo o processo de perseguição, captura e acusação de que ele foi vítima. As sequências desmentiam cabalmente a versão da polícia. Na verdade a desmoralizavam. Quem irá acreditar no dia em que a polícia resolver começar a prender quem realmente deve ser preso? 

Vivemos uma descentralização radical da informação e isso é bom. Mas, de toda essa crise e de toda essa revolução de comunicação, até agora só estamos vislumbrando as mudanças sociais, políticas e existenciais que daí virão. Temos no entanto direito a mais que isso no “banquete” desse “novo Renascimento”. Tal qual nas duas revoluções anteriores, podemos passar a enxergar o mundo de maneira muito mais abrangente, universal e essencial. Isso, no entanto, só acontecerá quando deixarmos de gastar energia sendo reativos aos novos fatos, e passarmos a ver a grandeza da oportunidade que se oferece à nossa frente. 

A atmosfera está propícia ao surgimento de novos Budas, que certamente aparecerão. E isso acontecerá dentre os que tiverem a ousadia de enxergar o mundo e a si mesmos com olhos “descontaminados” e descompromissados com as maneiras anteriores de ver. Acontecerá dentre os que se atreverem a ver o mundo com os olhos naturais e extraordinários que possuem acima do nariz, e não mais através de ensinamentos e crenças. Dentre os que inventarem de enxergar diretamente e sem filtros, como fizeram Leonardo da Vinci, Sócrates, Zoroastro, Buda e Lao Tse. Assim como podemos fazer você e ou eu. Se assim decidirmos.

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8 Responses to Os Novos Budas estão Chegando

  • vera lùcia Francisco Alonso:

    Boa tarde,
    Sou Budista, tenho pensado muito sobre toda essa revolução!!!Comentei outro dia com uma amiga também Budista, acho que estamos vivendo uma transformação que primeiramente vem do espiritual!!!
    Acontece que na leitura desse texto, completei meu sentimento!!! Faltava ligar a espiritualidade com os fatos. Acabei de ler um texto do Sérgio Cabral onde ele comenta que a favela é uma fábrica de marginais, se referia a meninas grávidas sem condições de fazer um aborto decente. Ele concorda com a legalização do mesmo, tudo porque para ele é melhor não nascer ali naquele lugar sem condições de uma existência digna. O que ele deveria dizer é que todos os seres humanos merecem viver de forma digna, portanto vamos encontrar um método para que possamos chegar a esse patamar de dignidade que todos merecemos!!!
    Não é pela da legalização do aborto que evitaremos a formação de marginais nas favelas. Evitaremos uma vida indecente para nossa população quando entendermos a igualdade de todos e agirmos de comum acordo com essa igualdade. O planeta é nossa casa!!! O que ele nos oferece, devemos respeitar, usar com sabedoria e dividir entre todos!!

  • Rosália Ferraz:

    Apropriado e abrangente o texto. Viver todo esse processo pelo qual o planeta está passando, distanciado do sagrado, não é por nada favorável a esse despertar do planeta e da humanidade.

  • Mariana Bulhões:

    Sou pedagoga e dançaterapeuta e me incluo na linha dos buscadores de si, onde encontrei na Sahaja Yoga uma integração prática e filosófica dos conceitos abordados por Buda ou Lao Tsé como por exemplo o silenciar a mente.
    Assistindo às manifestações – não estive presente em nenhuma pois moro numa chácara no interior de Goiás – percebo que o que o pedido era o PASSE LIVRE. Tomando a simbologia deste termo entendo que as pessoas realmente precisam de liberdade de escolha, de expressão, de pensar e até mesmo de silenciar quando conquistados os momentos de pausa e reflexão. Não será por meio do consumo, do sistema atual de estética, de corrupção, de manipulação de TV e jornais que a evolução espiritual se dará. Somente confrontando todos os elementos políticos e sociais dentro de si mesmo e podendo perceber quias são seus reais desejos é que poderemos ir além do desejo e ainda entender o desapego que é tão praticado por budistas. O caminho do meio pode vir com luta e com silêncio na medida certa devemos saber qual momento e lutar e este com certeza chegou @@@@ Veremos o momento de refletir, elaborar novas utopias e modos de vida onde todos tenham mais liberdade e dignidade.

  • Neyse Rodrigues:

    Também pratiquei o budismo durante 5 anos, e sempre digo que foi o meu “despertar espiritual”. Atualmente me considero universalista. Gostaria de mencionar um pequeno trecho do Livro dos Espíritos: Pergunta 344: “Em que momento a alma se une ao corpo? – A união começa na concepção, mas só se completa no instante do nascimento. No momento da concepção, o Espírito designado para habitar determinado corpo se liga a ele por um laço fluídico e vai aumentando essa ligação cada vez mais, até o instante do nascimento da criança.”
    E, como conceito de concepção:
    “Nos seres humanos, a gravidez se refere ao estado resultante da fecundação de um óvulo pelo espermatozóide.” http://pt.wikipedia.org/wiki/Gravidez_humana

    Sendo assim, entendi que o governo NÃO está a favor do aborto, e sim, tentando EVITAR uma gravidez indesejada em mulheres estupradas.

    Retirei um trecho do documentário Bom Dia Brasil (Edição do dia 02/08/2013).E, para maiores informações, recomendo o link abaixo do mesmo.
    “Para tentar acabar com possíveis interpretações de que a lei permite o aborto, a presidente Dilma Rousseff encaminhou ao Congresso um novo projeto para deixar claro: o remédio que será oferecido às vítimas de violência sexual, até 72 horas depois do estupro, conhecido como pílula do dia seguinte, tem eficiência precoce, ou seja, é para prevenir e não interromper a gravidez.” http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2013/08/dilma-sanciona-uso-de-pilula-do-dia-seguinte-para-vitimas-de-estupro.html
    Muita LUZ e PAZ a todos!

  • NANCI BRANQUINHO:

    O mundo está precisando cada vez mais de seres iluminados. Que venham os Budas. Acho que a hora é chegada.

  • Boa noite, Pedro!

    Parabéns pela escrita tão importante e informadora!
    Realmente novas pessoas estão vindo e surgirão para transformar o mundo em algo melhor!
    Assisti sua entrevista sobre Meditação Glândula Pineal e também adorei!
    Medito toda segunda-feira com meu instrutor de Yoga da Biopsicologia aqui em Conselheiro Lafaiete – MG antes de fazer Yoga e é tudo de bom!
    A propósito, como adquirir seu CD de meditação?
    Paz e luz, Namastê!

    Olá Mariângela,
    Obrigado pela sintonia e carinho. Fico feliz por seu ritmo e dedicação à meditação. Você encontra os CDs de meditação no site da Fatimah Borges. Nessa página você é redirecionada para lá: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=25
    Um grande abraço,
    Pedro

    Mariângela

  • Madiana Pinto Bandeira:

    Prezado Pedro, muita paz!

    Antes de mais nada, parabenizo-o pelo belo trabalho que você realiza no sentido de pacificar nossas mentes e nossos corações!
    Gosto de ouvir suas entrevistas e, sobretudo, de sua postura simples, sem os “aparatos” tão comuns numa época como a nossa, na qual a aparência serve como ponto de referência (às vezes, como alavanca) da essência, em vez do contrário.
    Ouvi-lo é sempre prazeroso porque você irradia sinceridade em suas crenças e ações. E, justamente, por isso, senti a necessidade de saber mais a respeito da meditação da rosa.
    Recentemente, efetuei a compra de três DVDs de sua autoria, enviados a Fatimah Borges.
    Porém, até o momento, não recebi resposta acerca do envio da encomenda. Menos pelo valor econômico (acredite-me!) e muito, muito mais pela necessidade de dar início a uma meditação tão bonita, é que gostaria de saber se você poderia informar-me a respeito.
    Que Deus ilumine sempre seus caminhos!
    Um abraço,
    Madiana

    Olá Madiana, obrigado pelas palavras carinhosas, enviei resposta para você por e-mail com cópia para a Fatimah Borges, tenho certeza de que ela já está verificando o que aconteceu com sua encomenda. Se não chegar, volte a se comunicar conosco.
    Um grande abraço,
    Pedro

  • Pedro, adorei esta escrita por onde pude viajar através do tempo e chegar até aqui. Você escreve muito bem e percebe o mundo com muita clareza.
    Eu me incluo dentre as pessoas que buscam a espiritualidade como alternativa dentro deste mundo, perfeito diga-se de passagem, e que sofrem com as intervenções do homem. Olhar para si não é muito simples, pois pagamos o preço.. mas ao mesmo tempo é muito simples (paradoxo) e nos liberta. Às vezes fico assustada com as percepções que andam galopantes para mim… mas tenho conseguido ter a fé necessária para aproveitar este privilégio.
    Um abraço e parabéns pela matéria.

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