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Montanhas Cariadas

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Montanhas Cariadas

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Pedro Tornaghi

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Um planeta comenta com o outro: fui infectado por humanos
O outro responde: Não se preocupe, já tive isso, passou sozinho!

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Tomei um grande susto esta semana. Em um vôo para Belo Horizonte, fui sorteado para viajar na janela. Pensei, que bom, apreciar a vista daqui até lá. Quando eu chegasse, iria diretamente para o auditório onde faria uma palestra, a paisagem prometia ser o momento de descanso visual e inspiração reservados a mim em dias tão ocupados. Eu imaginava montanhas verdes, mata atlântica, ou qualquer vegetação nativa desfilando na próxima hora e meia ao meu lado, como uma espécie de tônico revitalizador para a alma. Ledo engano. Não me deparei com um único vale de mata original. No começo, a cidade do Rio, depois, plantações e pastos e, por último, o grande e pavoroso susto, as montanhas “cariadas” de Minas, montanhas e mais montanhas, todas deformadas e desfiguradas pela exploração de minério.

Peguei o jornal no console da poltrona à frente e o assunto era o resgate dos 33 mineiros chilenos que vem mobilizando atenções em todo o mundo nos últimos meses. Imediatamente me perguntei: como pode a humanidade se sensibilizar tanto com a angústia de 33 homens e, essa mesma gente, se mostrar tão insensível para o fato de estarmos esgotando as reservas de recursos minerais do planeta? A sensação geral de alívio e celebração, legítima, após o resgate encobre questões não levantadas dessa história. O que estavam esses homens fazendo a 700 metros de profundidade?

Trinta por cento do PIB do Chile vem da extração de minério. Houve um tempo em que esse minério era extraído da superfície, cariando montanhas à moda de Minas Gerais, depois, foi preciso perfurar o solo, entrar 15, 20, 30, 50 metros… até se chegar a setecentos. Setecentos metros é muita coisa, um apartamento costuma ter três metros de altura, setecentos metros correspondem a um edifício de 233 andares, algo impensável. Você se imagina da janela do ducentésimo-trigésimo-terceiro andar de um edifício olhando lá para baixo? Você poderia reconhecer sua irmã ou até mesmo o seu carro dessa altura? É quase impossível. Mas, a profundidade da mina é fato, para baixo foi possível. Após cerca de duzentos anos de revolução industrial, estamos esgotando fontes a setecentos metros do solo. E depois? Para onde ir? Quanto é possível entrar solo adentro antes de se ver repelido pelo magma terrestre? Quatro quilômetros? Quantos anos mais precisaremos até não termos alternativa e chegarmos às fronteiras internas do planeta? E quando chegarmos, que outro passo dar?

O caso dos trinta e três mineiros traz consigo a possibilidade de muitas e ricas reflexões ainda não ensaiadas pelos que se sensibilizaram com os angustiantes dias alheios sob o solo. O que parece ser comovente, uma experiência de bilhões de pessoas condoídas e enternecidas pelo momento angustiante de 33 “heróis” esconde uma faceta perversa da inconsciência endêmica de nossos dias. Ninguém, ninguém, até agora, levantou questões mais profundas a respeito por que não cabe na mídia levantar. O que parece ser uma demonstração de que princípios humanitários ainda movem o homem moderno é na verdade, uma ode ao sentimentalismo barato.

É claro, é digno comover-se com o fim do desespero desses homens, mas, às vezes é preciso navegar contra a corrente, por questão de honestidade e decência intelectual. Navegar contra a corrente aqui significa buscar um entendimento mais amplo dos fatos, mesmo que esse fira susceptibilidades, crenças ou contrarie a onda de sentimentalismo que assolou o planeta com o tom das reportagens sobre os mineiros veiculadas pela mídia.

Se esses homens sofreram privações básicas, que outras privações eles andam tramando para seus netos? Como esses netos vão viver em um planeta que se encaminha para transformar-se numa coleção de cáries, um esqueleto residual de materiais menos nobres que não foram lucrativos a seus avôs para que esses o retirassem do solo? Se é possível comover-se com a situação precária a que esses homens se viram submetidos, será possível comover-se nas proporções agigantadas do estado de carência – irresgatável e irreversível – ao qual estamos condenando não apenas 33 homens mas, talvez, 33 bilhões de pessoas daqui a cinco ou seis gerações?

Enquanto penso isso no avião, me lembro de um estudo – sobre aquecimento global – do engenheiro Neddo Sandro Zecca que me caiu em mãos e que levei para ler na viagem. Abro imediatamente a brochura de 36 páginas e começo a colher dados objetivos sobre o momento do planeta.

No estudo, Neddo recorre à primeira lei básica da termodinâmica, de Lavoisier (popularmente: nada se cria, tudo se transforma) para advertir que “não existem fontes renováveis de energia”, segundo ele “profissionais que falam de energias renováveis tentam, de forma sofisticada, ressurgir o mito do moto contínuo” Para ele, combustíveis renováveis são “ilusões e expectativas sem fundamento, criadas pelo homem”. Pulo para a última página de seu relatório, onde o engenheiro conclui com ironia: “nos dias de hoje, o consumo médio anual de energia pelo ser humano é de 400 quads (unidade de energia que equivale a 293.071.000.000 de  kilowatts-hora) e o total de energia química fossilizada disponível no planeta Terra, somado ao total de ‘energia química biomassa de ciclos curtos’ é de 200.000 quads. Restam, então, para os ilustres humanos – caso não aumentem ainda mais os níveis atuais de consumo – aproximadamente 500 anos de condições de sobrevivência, Be Happy…………”

Ufa, que humor ferino. Olho uma última vez pela janela o horror das montanhas cariadas enquanto me pergunto: se formos capazes de transferir a comoção, da condição vivida pelos 33 mineiros nessas dezenas de dias, para a condição de vida que estamos criando para nossos bisnetos, será que poderemos deter a nave-desenfreada-do-progresso-a-todo-custo, movida pelo instinto cego de sobrevivência, e deixar de herança um mundo melhor do que o que recebemos? Espero que sim, embora ainda não enxergue sinais disso acontecendo. Enquanto bato essas palavras em meu lap-top sob uma luz acinzentada que entra pela janela do avião me pergunto, curioso e esperançoso: você, leitor, se habilitará como um dos que ajudarão a mudar o rumo atual das coisas para um novo sentido?

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Jornal Prana novembro 2010

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O Estupro da Terra 

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Correu o mundo a famosa foto da água saindo da torneira e pegando fogo. O fato ocorreu na pequena cidade de Dimock, na Pensilvânia, nos EUA. O fogo se deve à presença de metano, liberado pela exploração de gás de xisto nas redondezas.

As áreas vizinhas aos poços de exploração de gás de xisto já tiveram de suportar explosões, contaminação do lençol freático e da terra agricultável, inviabilizando a produção agropecuária, além de pequenos abalos sísmicos, em regiões onde as construções não estão preparadas para tremores de terra.

A exploração de xisto utiliza o método de fraturação hidráulica, chamado em inglês de fracking. Trata-se de injeção de toneladas de água, sob altíssima pressão, misturada com areia e produtos químicos, com o objetivo de quebrar a rocha e liberar o gás nela aprisionado.

Após inúmeros protestos da população, alguns estados da América do Norte, como Nova York, Maryland e Ohio nos EUA, Quebec no Canadá, proibiram o fracking. Na Europa, a fraturação hidráulica está proibida na França, na Bulgária e em diversos governos locais de vários países (Alemanha, Espanha, Irlanda e Holanda).

Esse tipo de extração utiliza 20 vezes mais água do que as técnicas convencionais. As pequenas cidades americanas nos arredores dos poços enfrentaram problemas de falta d’água para consumo e agricultura, além da contaminação dos aquíferos subterrâneos e das reservas de água potável. Tudo isso para uma duração de vida relativamente curta: o pico de produção é alcançado em dez anos e a produtividade começa a cair a partir do primeiro ano.

A Agência Nacional do Petróleo (ANP) decidiu realizar um leilão quinta-feira passada para pesquisar a exploração de gás de xisto nas bacias de Parecis, Recôncavo, Acre, Parnaíba, São Francisco e Paraná. A Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental e mais 12 entidades enviaram à presidente Dilma Rousseff um pedido para cancelar o leilão. E um parecer técnico de um grupo de trabalho coordenado pelo Ibama alertou que o Brasil não tem estudos geológicos suficientes para uma exploração segura de gás não convencional.

No caso do Paraná, a rocha a ser fraturada (o Folhelho Irati) se encontra a algumas centenas de metros abaixo do Aquífero Guarani, considerado a maior reserva subterrânea de água doce do mundo, abastecendo o Brasil e países vizinhos. Pelo menos metade da água injetada retorna à superfície com aditivos químicos e metais pesados. A contaminação do Aquífero Guarani seria uma catástrofe ecológica de impacto internacional.

Do ponto de vista econômico, especula-se que a expansão massiva da produção de gás poderá reduzir a demanda e o preço do petróleo, o que desestimularia os pesados investimentos de longo prazo no pré-sal. Parece estar faltando planejamento estratégico na área energética e, principalmente, planejamento integrado de energia e meio ambiente.

Do ponto de vista jurídico, o Brasil é signatário de tratados internacionais que recomendam o princípio da precaução, ignorado pela ANP ao leiloar áreas para a exploração de gás de xisto sem regulamentação e estudos de impacto ambiental, contando certamente com o silêncio complacente das autoridades ambientais.

Lizt Vieira

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Leia também:

“Senso de Urgência”:  http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=921

“Evoluir em profundidade”: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=999

“Procurando no Lugar Certo”: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=781

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11 Responses to Montanhas Cariadas

  • Claudia:

    Qual seria a cura para uma sociedade de consumo que se assemelha a uma criança comendo doce sem limites? O próprio limite seria o adoecer do planeta, atualmente caminhando nessa direção a passos galopantes apesar dos alertas. Mas enquanto a consciência e o amor ainda estiverem em desvantagem face à ambição materialista, por quais outros meios haveremos de encontrar o equilíbrio?

  • Oi Pedro, hoje, dia 5/1/2012 , nada está melhor quanto ao andamento dos buracos minerários. A construção civil desordenada e agressiva também avança agora na região de Brumadinho, Nova Lima, acabando com tudo pelo caminho. Sou vizinha de pelo menos quatro minerações da região e, por pouco, eles teriam já depredado tudo, não fosse uma meia duzia de “malucos” – como dizem eles – que querem preservar o que resta. Mananciais de água, fauna e flora nunca contarão como coisas dignas de respeito por eles. Estes poucos guerreiros barraram por ora a Gigante Vale – mas sabe-se lá até quando.

  • Vivo entre o litoral, as Serras fluminenses e a Zona Sem Mata mineira, sei bem do que você fala. Sigo de carro, dizem que as pegadas ecológicas são menores do que as de avião, mas não é por isso. É por conveniência. Culpo-me por rodar tanto, mas é difícil viver sem ver filhos e netos. Desculpas esfarrapadas, tenho-as aos montes. Compenso espalhando árvores que planto em todos os lugares onde passo e vivo. Mantenho meu consumo de água, eletricidade, recursos minerais e orgânicos num mínimo a ponto de ser ridicularizada pelos que me conhecem pouco. Conserto o que quebra, ao invés de substituir por novos. Cuido de meu lixo há mais de 30 anos. Sou considerada um exemplo? Não! Sou considerada uma velha maluca!

  • Vera Lucia:

    Olá Pedro, boa noite. Pois é, infelizmente nossos binestos não poderão ver nem sequer uma árvore e muito menos um rio por entre as matas .É uma pena mesmo que isso esteja acontecendo e acabando com nosso planeta.Um abraço. Parabéns pelo artigo, muito bom.

  • Silvia de Lamare:

    Olá Pedro, nós malucos que andamos de bicicleta, levamos nossa sacolas para o supermercado, reciclamos e cuidamos de nossos lixos, evitamos consumo desenfreado, ensinamos nossos filhos e netos sobre respeito, preservação do meio ambiente, valorizamos o amor, a amizade, a família e enfim aquilo que achamos o necessário para viver com dignidade, descobrimos que é insuficiente, precisamos compartilhar mais nossas indignações de maus tratos com o maior número de pessoas. Em busca da conscientização, solidariedade e ação. Obrigada, compartilharei , fazendo assim um pouquinho, talvez consiga algo tão especial que é atenção dos homens para o nosso Planeta, nossa casa.
    Bjs

  • Maria Regina Martins de Mattos:

    Oi Pedro, fiquei muito sensibilizada com este texto e há muito tempo venho me identificando com este mesmo pensamento. O que deixaremos para nossos netos e bisnetos? Como será nosso planeta? Florestas estão sendo derrubadas, queimadas, águas desperdiçadas, o lixo aumentando e é muito pouco o que hoje está sendo feito para a sobrevivência no futuro tão próximo.
    São poucos os que têm esta consciência.
    Estou trabalhando com reciclagem de materiais com a intenção de evitar a produção de lixo e rejeitos de todo o tipo que poluirão e contaminarão o meio ambiente e com esse foco, descobrir meios de reutilizar, reaproveitar ou reciclar quaisquer materiais que, em princípio, sejam inservíveis. Tenho criado bijuterias com garrafas pet com o cuidado de fazê-las de maneira elegante incentivando a utilização . Transformo também CDs que iriam ser desprezados, em mandalas, aproveitando o verso, transmitindo para as pessoas mensagens bonitas de escritores. Ensino também para pessoas que querem despertar e/ou estimular a criatividade ensinando-lhes várias técnicas de reutilização, reaproveitamento e reciclagem de materiais, visando à criação e produção de artigos com qualidade artística e/ou com apelo comercial.
    É muito pouco o que faço diante da grande necessidade de ajuda ao nosso planeta tão destruído, mas esta é a maneira que encontrei no momento de fazer alguma coisa!
    Postei algumas fotos no facebook para divulgação do meu trabalho!
    Um abraço
    Regina

  • Sonia Laranjeira:

    É realmente um assassinato o que os seres humanos estão fazendo com a nossa “nave mãe”. A ganância é um dos espíritos malígnos que corroem a “alma”. A imagem de “Ravan”, o demônio de cinco cabeças da religião hinduísta, ilustra bem isso. Em contrapartida, Jesus também nos disse que, no final dos tempos, o joio cresceria mais do que o trigo para que pudesse ser arrancado. Mas, quem irá arrancá-lo? Nós, os chamados “malucos”! Vamos ajudar os nossos semelhantes a investir em valores espírituais, o tesouro que todos carregamos dentro de nós, mas que os cinco vícios nos fizeram esquecer. A Paz, o Amor, a Felecidade, a Honestidade, a Dignidade, a Esperança, o Poder Espiritual dentre outros, são o tesouro que o Ser Supremo nos legou quando nos criou. Meditemos para recarregá-los junto a essa Fonte Inesgotável, a fim de darmos bons exemplos a essa humanidade tão carente que está vivendo uma vida tão alienada baseada em valores materiais. Também já fomos assim, de alguma forma. Agora que acordamos do sono da ignorância, sejamos os jardineiros de DEUS, arando e adubando a terra para que o DONO do Jardim possa colocar novamente a semente da nova árvore da humanidade! Saudações de Paz.
    OM SHANTI

  • Luna Hobbs:

    Oi Pedro.
    Muitos anos atras eu tive uma experiencia muito parecida com a sua. Eu estava voando de Virgina para Ohio, tudo ia tranquilo ate atingirmos as montanhas….meu Deus,que susto. Montanhas totalmente chapadas pela a extraction of coal. É muito triste ver o ataque ao nosso planeta quando você observa lá de cima, porque você pode ter uma visão total da destruição. It is the rape of our Mother Earth. We have lost hundreds of mountains here in the US and we are still loosing it. Fico triste de saber que no Brasil também, com a correria do capitalismo, querem sempre mais e nunca parece ser o bastante o que pegam. Com uma sede insaciável de dinheiro e poder, estão sendo destruídas tanta belezas naturais. Triste!….Talvez devessem criar uma organization como Ilovemountains.org no Brasil para prestar mais atenção às montanhas e às corporações que as estão destruindo. Nós indivíduos temos que continuar falando sobre esta destruição. Não podemos nos calar. Nunca.
    Walk softly and in peace
    Luna

  • Silvia Almeida de Oliveira Costa Martinez:

    dolorido…

  • Bondoso amigo PEDRO
    Moro numa cidade serrana onde aconteceu a maior tragégia
    que o BRASIL sofreu recentemente…. não sei se foi um meteoro… uma guerra invisivel…
    parecia à minha vista a invasão de BAGDÁ: explosões continuas na madrugadada sem luz,
    mihares de pessoas arrastadas por avalanches de pedras gigantescas, terra e água, com trovões e relâmpagos… te digo que só em Campo Grande, Posse (REGIÃO SERRANA DO RIO DE JANEIRO) moravam mais de 4 mil pessoas que desapareceram…. UFF CHEGA!!..PORQUE O QUE QUERO dizer é outro assunto… além das irregulares construções em morros e despenhadeiros, as pessoas aqui, desviaram o curso do rio, aterraram grande parte dele e construiram casas sobre o leito aterrado: quando vieram as águas, foram arrastados, tudo e todos…o resto da história vocês conhecem pela internet..l

  • “Essas montanhas de agua gelada flutuam em um mar de nitrogenio congelado e se movem da mesma forma como os blocos de gelo no oceano Artico da Terra”, informou a Nasa em nota.

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