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Um Caso Terapêutico

 

Um Caso Terapêutico

Pedro Tornaghi

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Em 1990 quando o meu principal ofício era a astrologia, certo dia apareceu para se consultar um homem de meia-idade e cabelos grisalhos que, após sentar-se meio de lado à minha frente, olhando-me, também meio de lado, disse: estou aqui para você me provar que a astrologia existe.

Após recobrar-me do espanto frente àquela figura que parecia se esforçar para ser carrancuda, com a delicadeza que me foi possível, expliquei-lhe que não me propunha a provar nada, a ele e nem a ninguém mais, que não cobraria aquela consulta, mas também não a daria. Me ofereci para indicar-lhe o nome de dez diferentes astrólogos para que ele checasse se algum se ofereceria para esse papel. Ele se recostou na cadeira, cofiou o bem aparado cavanhaque, e disse solene: tudo bem, vou ficar, me diga o que você tem a dizer sobre o meu mapa. 

Foi uma consulta um tanto dolorosa para mim, mas também instigante, com o que aquele olhar apresentava de desafiador. Durante toda a consulta, meu mais recente cliente me encarou de lado; ele se sentava de viés sobre o quadril esquerdo, me escondia a face esquerda e expunha a direita. A certo momento cheguei a pensar que caso ele se sentasse sempre daquele jeito, seria vítima, sem saída, de uma acentuada escoliose. Com o ombro esquerdo cerca de cinco centímetros abaixo do direito, ele parecia respirar apenas com o pulmão direito. 

Ao final da consulta, o Sr Márcio sentenciou: você acaba de salvar uma vida. Arregalei os olhos como quem se pergunta “ainda há novas surpresas por vir nessa tarde que começou com ares de tão normal?”. Atento, ouvi-o explicar: Eu pretendia matar minha mulher e possivelmente, seu amante. Com essas coisas que você me falou, estou vendo as coisas de forma diferente, mas, ainda tenho medo de acordar amanhã pensando como antes. Soube que você dá grupos de meditação, você acha que isso poderia me ajudar? 

Márcio desenrolou sua história: após um casamento de 20 anos com a mulher que ele mais desejou nesse mundo, duas filhas queridas e amadas, ele estava sendo abandonado pela mulher. Ele havia passado as duas décadas trabalhando incansavelmente para dar conforto às três, e construir um lar ideal. Vinha trabalhando tanto, que nunca sobrava tempo para dar atenção e tempo a suas supostas amadas. Recentemente, a esposa chegara ao seu limite com a desatenção e resolvera se mudar, com as filhas, para a casa da mãe. Ele contou que nos últimos dias, vinha olhando as paredes de sua tão desejada casa e se sentia em um deserto, incapaz de sentir aquele ambiente como um lar. Só via paredes de concreto duras e desumanas e não mais um lar. Não enxergava mais sentido em nada. 

Nos últimos dias de convivência com a esposa, ele começara um processo obsessivo de persegui-la, havia colocado um detetive particular vigiando seus passos e, ele mesmo, não perdia a chance de revistar sua bolsa e bolsos, a qualquer descuido dela, em busca de uma pista sobre um possível amante. E havia decidido, tão logo o achasse, mataria os dois. 

Foi num desses momentos policialescos que, enquanto sua mulher se banhava, ele descobriu meu nome em sua bolsa, e se disse “a-há, eu tinha razão, aqui está o cara!”. Assim que se viu sozinho, Márcio ligou para o meu consultório e, assuntando minha secretaria, acabou entendendo que sua esposa havia ido ali para fazer um mapa astrológico. Daí, marcou a consulta. 

Decidi que seria inapropriado aceitá-lo num grupo de meditação naquele momento, mas aceitei começarmos um processo de consultas individuais de Terapia da Respiração. Eu recém havia chegado da Índia, após uma temporada de formação em Terapia da Respiração e estava coçando as mãos para aplicar o que havia aprendido, mas Márcio me levou para caminhos inusitados. Com ele, descobri que a minha verdadeira escola teria que ser prática. Muitas das coisas que havia aprendido, logo percebi serem inúteis para ele e que precisaria ousar para descobrir um caminho que respondesse às suas questões e necessidades. 

Em nossa primeira consulta, notei que sua postura de achatar o lado esquerdo do tórax e expandir o direito era uma constante nele, e não apenas uma mensagem corporal de sua desconfiança de mim no dia da leitura do mapa. Comecei então um trabalho paciencioso de devolver mobilidade ao seu tórax esquerdo. Nesse primeiro dia, constatei que o tórax esquerdo estava tão defendido, que trabalhar diretamente sobre ele poderia acirrar essas defesas em vez de soltá-las. Decidi então começar desbloqueando movimentos de sua perna direita. Na Índia, eu havia sido tradutor em sessões individuais de Feldenkrais, técnica corporal que me ensinara a relação existente entre a perna direita e o tórax e braço esquerdos. Funcionou. Depois de meia-hora de sessão vi suas costelas esquerdas se permitirem inspirações amplas; elas, por um momento, pareciam inflar como um balão de festa. Foi uma experiência gratificante para Márcio. Ele contou nunca ter passado por sensação semelhante. Disse se sentir um menino como há muito tempo não se sentia. Durante a sessão, ele se lembrou de cenas em que, criança, ficara olhando assustado e sensível a outros meninos judiando de um colega seu, eles o colocaram no meio de uma roda de meninos e o fizeram brigar com outro bem mais forte, uma experiência de fracasso e desespero anunciados. 

Ao chegar à nossa segunda sessão Márcio havia perdido aquele estado de respiração solta. O tórax esquerdo estava novamente rebaixado e suas defesas haviam se reestruturado, aparentemente ainda mais defendidas do que antes. Mas ele contou que pensara muito sobre sua última sessão durante toda a semana e chegara à conclusão que havia construído aquele padrão de rigidez do peito e respiração para se construir um guerreiro, capaz de enfrentar um mundo que humilhava os fracos. Ele era militar e me contou que, ele mesmo, havia se tornado um especialista em humilhar subalternos. Um dia, após mandar um cabo limpar o chão, questionou se o chão estaria realmente limpo e, ao escutar o cabo afirmar que estava limpo, ordenou, sem titubear, que o cabo derramasse seu almoço no chão e comesse direto dali, o cabo não teve escolha. Enquanto assistia o cabo comer, comentou: se o chão está realmente limpo, não há problema em comer nele. 

Nesse segundo dia voltei a trabalhar o lado esquerdo da respiração. E o fizemos inúmeras vezes durante o ano e meio que durou seu tratamento, até que sua nova maneira de respirar pudesse se estabelecer como um novo padrão e se sustentasse nas mais diferentes situações do cotidiano. 

Foi nas sessões com Márcio que comecei a desenhar o mapeamento da respiração que hoje uso e que me tem sido tão útil. Conforme seu tórax esquerdo ia ganhando mobilidade, Márcio ia conquistando uma grande flexibilidade emocional. Ele, que antes era uma pessoa ocupada apenas em tarefas objetivas e práticas, foi aos poucos encontrando crescente prazer em momentos de ócio e lazer, ele que antes via o mundo de maneira estritamente racional, se tornava, dia a dia, uma pessoa mais confiante em sua sensibilidade e “assaltado” por intuições que sempre lhe apontavam caminhos de bom senso; ele se dizia impressionado em como, “quando se permitia escutar seus lampejos intuitivos, costumava acertar mais do que quando ia pela razão”. Márcio pouco a pouco se tornava menos dependente de seu caráter sistemático – que ele classificava como “auto-opressor” – e se sentia mais espontâneo e “pronto para a felicidade”. 

Nosso tratamento se interrompeu quando ele reatou com sua esposa. Com o tempo, ela foi sentindo a receptividade e feminilidade crescentes nele durante as visitas às filhas e aquilo, de alguma maneira a enternecia. Um dia ela voltou em meu consultório para atualizar sem mapa astrológico e confidenciou que, se fosse aquele “novo Márcio” quem coabitasse, mesmo que pouco, sua casa dois anos antes, ela nunca o teria abandonado. Ele passara a perceber detalhes nela que a sensibilizavam, coisas bobas segundo ela. Se antes, ele nem percebia que ela havia cortado o cabelo, agora ele notava nuances novas no penteado do dia, percebia quando ela havia emagrecido, se estava triste ou feliz, zangada ou de bem com a vida. 

Márcio foi uma boa escola para mim. Fico feliz por ter aceitado o desafio de ler seu mapa no primeiro dia, feliz por não ter optado pelo caminho mais fácil e confortável, de cancelar a consulta. Dentre as muitas coisas – técnicas – que não estavam em livros e que aprendi com ele, aprendi que devolver mobilidade ao pulmão esquerdo de quem tem forte preponderância da respiração no outro lado pode ajudar, sobremaneira, a substituir o raciocínio sequencial pelo raciocínio múltiplo, a ser mais imaginativo, sonhador, criativo, enfim, a potencializar todas as boas qualidades “femininas”. 

Se naquele primeiro dia – confesso hoje – cheguei a pensar se deveria cobrar dobrado ao Márcio pelo desgaste e cansaço que aquele ritual me causava, hoje me pego pensando se não teria sido mais justo pagá-lo por suas consultas, pelo tanto que me ensinou. Me resta agora esperar com humor que ele, ao ler o artigo, não decida cobrar de uma só vez todos os seus merecidos cachês atrasados.

 

Nota: Foi trocado o nome real do personagem do texto, apesar de sua anuência para que o artigo fosse escrito e publicado.

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 http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=92

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Curso Intensivo:

Início: 17 de setembro de 2016
sábados de 14:30 às 19:3o h
domingos de 9:00h às 13:00h

Local: Academia Ananda 
Av Nossa Senhora de Copacabana 769/102 – Rio de Janeiro
Mensalidade: R$ 290,00
Informações e inscrições: (21) 2508-8608
meditarsempre@gmail.com
ou mensagem pelo site

http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=92 

Leia também:

Respirar é Viver: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=1497

Explore a Sua Respiração: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=92

A Trilha Libertadora da Respiração: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=1471 

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5 Responses to Um Caso Terapêutico

  • Silvia Almeida de Oliveira Costa Martinez:

    Que legal o relato!!! E mais um lindo texto!!! Também tenho a sensação e às vezes fico me perguntando, quem será o paciente afinal… Jung dizia mais menos assim que todas as nossa atrações bem como todas as nossas aversões ocorrem pela busca e/ou projeção de conteúdos inconscientes no outro que precisam ser reintegrados nas consciências… parece que somos um no espírito e ademais estamos ao mesmo tempo constelados e ao mesmo tempo ânimus/ânimas aprisionadas… bj no coração, S

  • Paulo Humberto:

    Muito legal esse seu depoimento… A respiração é o segredo para muita coisa, não só as endorfinas liberadas mas a consciência de que somos sensíveis e podemos aprender a olhar o mundo e nós mesmos de outra forma. Parabéns. Vamos ao café… que é outro tipo de terapia. Abs.

  • Elenise:

    Quanta sensibilidade neste texto de rara ternura. Quanto crescimento mútuo. Obrigada por partilhar.

  • DALVA:

    NOSSA ESTOU ENCANTADA, COM O RELATO!… COMO É BOM PROPORCIONAR, CARINHO ,PAZ FELICIDADE A NOSSO PRÓXIMO.

    UM GRANDE ABRAÇO FRATERNO IRMÃO. NAMASTÊ

  • JEANETTE MARIA PESSOA:

    Estou impressionada com o relato sobre o homem que havia sido abandonado pela esposa e que após o tratamento mudou completamente sua maneira de ver a vida e a família. PARABÉNS, Pedro Tornaghi

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