Pesquisar

Categorias

Arquivos

Favoritos

O Que Será o Amanhã?

O Que Será o Amanhã?

Pedro Tornaghi

 ..

.

“Antes, os políticos justificavam o baixo nível do Congresso dizendo que, para o bem e para o mal, ele era um reflexo do Brasil, representava o que os brasileiros tinham de melhor e de pior. Ou seja, não se podia almejar um Congresso de primeira com um povinho de quinta. E durante muito tempo nos fizeram acreditar que os representantes não eram piores do que os representados. Nos últimos dias, o povo nas ruas provou o contrário.”
Nelson Motta

. 

Ok, uma geração com Plutão em Escorpião está plantando as sementes de um novo comportamento, de um novo “modus vivendi”, mas como fazer com que essa garotada contrarie a máxima de Marx de que a história sempre se repete e não caia nos mesmo erros das gerações anteriores? 

Quase todos os políticos corruptos que esses meninos rechaçam no momento, foram de movimentos estudantis na juventude, e adotaram a prática de ir às ruas protestar contra as indecências dos “velhos políticos ” de sua época. Foi mais ou menos nos anos em que Sarney era líder estudantil, que o Barão de Itararé cunhou a genial frase “adolescência é aquela idade em que achamos que, quando crescermos, não seremos tão idiotas quanto nossos pais”. Mas a história se repete: muitos entre “aqueles meninos que queriam mudar o mundo” hoje são políticos corruptos, insensíveis e que se sentem mais seguros ao mandarem ou aceitarem que a polícia bata na juventude. Nossa presidenta, depois de pegar em armas contra governos que ela julgava injustos, desrespeitosos e tiranos, agora vai à televisão para chamar de vândalos e dizer que não os tolerará, os meninos que tiveram seu ódio propositalmente atiçado por polícias chefiadas por seus aliados. 

O que acontece com esses idealistas que, sob a influência de hormônios da juventude agem de maneira oposta ao que fazem quando a testosterona, estrogênio e progesterona diminuem? O que separa, tão inevitavelmente, a realidade de meninos que “têm em si todos os sonhos do mundo” da realidade crua e pragmática da maturidade? 

A verdade é que não nos conhecemos. Quando vemos emergir em nós os primeiros brotos de galhos da árvore que um dia nos tornaremos, ainda não conhecemos esse tronco. A porção que conhecemos de nós é porção mínima, é a parte do iceberg que fica fora do oceano. Há muito mais iceberg sob o mar do que sobre. E, as correntes que carregam esse iceberg, o carregam a partir da parte submersa e escura. É ela quem decide nossos destinos. Se não fizermos o possível para jogarmos luz e nos aprofundarmos em nossas naturezas íntimas, com um espírito decididamente investigativo, não teremos condições de prometer que seremos honestos mais adiante, não teremos condições de prometer nada. E, as utopias derreterão ao sol enquanto a nossa parte que está na sombra, guiará nossos novos passos. 

A única maneira possível de mudarmos para melhor e sustentarmos a mudança, é conhecermos a massa resistente e gelada que se acumulou em torno de nosso centro de gravidade. E, para isso, é preciso que aceitemos o que quer que surja de dentro de nós, qualquer instinto, conteúdo emocional mal digerido, ou o que quer que de lá venha. 

E para fazermos essa mudança, todo e qualquer instrumento prático de “auto-prospecção” pode ser um importante aliado, as psicoterapias, a meditação, o zen, o tao, o yoga, o tantra, ou o que quer que tenhamos ao nosso alcance. E, cada um desses caminhos pode mesmo ser essencial para você, mas o ingrediente verdadeiramente essencial para essa “transformação de você em você”, essa metamorfose do que você vem sendo naquilo que você foi destinado a ser, é a sinceridade com que você mergulha em qualquer das práticas ou caminhos que escolhe. É preciso que você vá com um espírito altamente investigativo, desprovido de qualquer certeza sobre si mesmo, e disposto a descobrir e aceitar o que quer que se revele, de dentro de você. 

É preciso ainda que você tenha a disponibilidade sincera de abandonar caminhos ou práticas a que você esteja se dedicando, no momento em que esses caminhos dêem sinais (e os sinais sempre aparecem) de que não servem mais para levar você ao seu centro.

Se você fizer isso, terá boa chance de contrariar Marx, Belchior e Cazuza, e não se tornar, como os rebeldes do tempo dos seus pais, um ex-sonhador desvirtuado. Você poderá ser confiável após os 30, você poderá mesmo realizar a utopia de São João quando disse que o homem ainda não existia, o que existia era ainda um projeto de homem. Seu buda florescerá. E tudo dependerá principalmente de você! 

Mas, além da sinceridade será preciso ter ainda determinação e persistência. Sim, muitas “tentações” aparecerão pelo caminho, muitos sabotadores internos vão aparecer de dentro de você: a preguiça, os convites para a situação mais cômoda e confortável no momento… No momento, por que no fim você descobrirá que pagou um preço por se desviar daquilo que, na sua adolescência, parecia tão claro ser o melhor para você: construir o seu caminho a partir do que era mais verdadeiro para você. 

Quando aparecerem esses sabotadores, será preciso ter meios para se trabalhar, para não se deixar enganar, seduzir ou amortecer a percepção… E, sobretudo, para não se tornar ingênuo. 

Nos final dos anos 60, uma multidão de americanos começou a usar roupas coloridas, deixar os cabelos e barbas crescerem e a fazer sinal de paz e amor com os dedos. Eles fizeram manifestações enormes, muitos deles se reuniram em Woodstock e inundaram as estradas dos EUA pedindo carona e buscando descobrir o mundo. Nas grandes cidades americanas você os via pelas ruas tocando violão e cantando, certos de que sua revolução de costumes era tão obviamente melhor do que tudo o que existira antes, que era irreversível; eles tiveram vitórias concretas, conseguiram acabar com a guerra do Vietnã, e achavam que bastava levantar os dedos em V e dizer “paz e amor” que ninguém resistiria. 

Mas sua causa perdeu para a história. Muitos dos mais destacados gurus psicodélicos e das “terapias corporais libertadoras” da época se tornaram gurus de auto-ajuda, que lotam teatros hoje em dia, vestidos de terninhos de grife e ganham milhões ensinando as pessoas a enriquecerem por métodos de mentalização. Muitos dos mais eficientes yuppies dos anos 80, que ajudaram a reconstruir uma moral americana centrada no consumo, eram os ex-hippies dos 60, os que cunharam a expressão “sociedade de consumo” e a apontaram como um estágio da humanidade a ser superado e deixado para trás. 

Onde falharam o hippies e os líderes estudantis que ora, cada um a seu modo, quiseram melhorar e até mesmo salvar o mundo? Na ingenuidade, na falta de conhecimento de si mesmos. A ingenuidade e a ignorância de si mesmo são duas arapucas. Mais cedo ou mais tarde, elas mordem cada uma um pé seu e o tiram do prumo. O colocam em um caminho que você acreditará ser seu, embora seja contrário à sua natureza. 

O antídoto? O único possível, o que apontava Sócrates: “conheça-se a si mesmo”. Mas não se contente com a superfície, com as primeiras qualidades que você identifica em você. Desconfie delas. Não se contente com a primeira idéia que você faz de si mesmo. nem com a segunda, nem com a terceira… e nem com a última; vá sempre um passo mais além, um passo mais fundo e pergunte: esse que estou vendo agora, sou eu? 

Se você faz de si a imagem de um “cara legal”, pergunte-se: e se eu não for legal, continuarei sendo eu? Se você se acha um bom filho, pergunte-se: e se eu deixar de ser um bom filho, continuarei sendo eu? Se você se acha um bom engenheiro, pergunte-se: e se eu deixar de ser engenheiro, continuarei sendo eu? Quem é você afinal? 

Nem todos os ex-hippies viram suas vidas serem arrastadas para o oposto de seus sonhos, pelo “fatídico” pêndulo que oscila desde tempos imemoriais entre luz e sombra. Conheci na Índia um grande número de antigos hippies que se mudaram para lá no final dos anos 60 em busca de instrumentos para se conhecerem, em busca da meditação. A maioria deles quando, em seu país de origem, se viu dividido entre a realidade auto-destrutiva de seus pais quadrados e a realidade também auto-destrutiva de seus amigos contestadores, que adotavam a droga como aliada para descobrir e sustentar suas “verdades revolucionárias”, resolveu buscar uma terceira via, que pudesse ser construtiva, saudável e que criasse pilares, firmes como carvalho, para os sonhos que eles haviam erguido nas nuvens. E para muitos deles deu certo. 

Esses rapazes e meninas, encontram nos ashrams (espaços para retiros espirituais) nos mestres e nas técnicas de respiração e de meditação essa sustentação para seus sonhos. E mostraram na prática, que é possível transformar-se de fato em algo melhor, desde que essa transformação inclua um trabalho interno consistente e persistente. Esses rapazes e meninas se tornaram adultos diferentes de seus pais, e mais parecidos consigo mesmos. E, não resta dúvida, o que garante a eles continuar fiéis a seu amor pela verdade dos dias de adolescência e tornar a vida viável, saudável e feliz a partir disso, foi eles transformarem em prática sincera o que aprenderam no oriente sobre respiração e meditação. 

Os primeiros hippies não tiveram quem mostrasse a eles um caminho como esse, mas agora, os que reivindicam um mundo melhor nas ruas, os têm como exemplo vivo, e com um caminho palpável à disposição. Todos têm. Incluindo você que lê e eu que escrevo sobre essa experiência.

 .

.

.

Participe do curso:

Ampliação da Consciência Através da Respiração: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=92

.

.

.

.

Leia também os Artigos:

“Respirar é Viver”: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=1497

“Explore sua Respiração”: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=1482

“A Trilha Libertadora da Respiração”: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=1471

“Prometeu e o Alento Sagrado”: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=534

.

.

.

 

Share

5 Responses to O Que Será o Amanhã?

  • Rossana Alves:

    Pedro, o seu texto é maravilhoso. Concordo plenamente com sua visão sobre a juventude dos anos 60 e sobre a necessidade do auto-conhecimento como forma de se manter fiel aos valores e sonhos da nossa juventude. Eu trilhei esse caminho e hoje, com 53 anos, me sinto muito feliz, pois vivo de acordo com os preceitos que sempre defendi. Obrigada e continue escrevendo para influenciar a visão da nossa sociedade.

  • Maria de Fátima Coelho da Silva:

    Já ouvi muito falar do seu trabalho, gostei desse texto e aceito toda essa visão, na qual vinha pensando. Por onde ficou tudo que lutamos , fiz parte da geração 70, toda sua influência a partir da minha casa com as irmãs mais velhas dos anos 60. E não podia ser diferente, às vezes me faço a pergunta “cadê os nossos jovens?” Graças ao alto eles estão respondendo, mostrando as nossas bandeiras que não ficaram para trás; nossos sonhos não morrerão, estão plasmado no cosmo e o momento é de amor como lutamos e vai ser assim, até suplantar a nova Terra ! Grata por nos fazer pensar e complementar pensamentos, idéias, visão, enfim compartilhar …

  • Margarida Maria Vaz:

    Pedro, você conheceu quem foi à Índia, eu conheci muitos que vieram para cá, interior de São Paulo.
    Aí valeu a capacidade de conseguir dinheiro, muitos terminaram nas ruas como indigentes, alguns se deram a trabalhar na vida comum e se viraram, mas tem um, um só, que sei, dos que por aqui vieram, se tornou, excelente aluno de uma universidade, como não sei, de atirador de pedras, e organizador de motins, de uma hora para outra passou a andar de terno e gravata, se tonou magnata….manda porque ganhou dinheiro, como??????? não sabemos…..

  • Carmen Lúcia:

    Pedro, querido!
    Acabei de me encontrar com você na Academia! Fiquei alguns meses afastada da meditação. Falei com você sobre como estou hoje. E agora, em casa, acabo de ler este texto. Que coisa boa, que texto bom! Fiquei emocionada ao ler. Principalmente a parte que você fala sobre … “A verdade é que não nos conhecemos. Quando vemos emergir em nós os primeiros brotos de galhos da árvore que um dia nos tornaremos, ainda não conhecemos esse tronco. A porção que conhecemos de nós é porção mínima, é a parte do iceberg que fica fora do oceano. Há muito mais iceberg sob o mar do que sobre. E, as correntes que carregam esse iceberg, o carregam a partir da parte submersa e escura. É ela quem decide nossos destinos. Se não fizermos o possível para jogarmos luz e nos aprofundarmos em nossas naturezas íntimas, com um espírito decididamente investigativo, não teremos condições de prometer que seremos honestos mais adiante, não teremos condições de prometer nada. E, as utopias derreterão ao sol enquanto a nossa parte que está na sombra, guiará nossos novos passos.

    A única maneira possível de mudarmos para melhor e sustentarmos a mudança, é conhecermos a massa resistente e gelada que se acumulou em torno de nosso centro de gravidade. E, para isso, é preciso que aceitemos o que quer que surja de dentro de nós, qualquer instinto, conteúdo emocional mal digerido, ou o que quer que de lá venha.

    E para fazermos essa mudança, todo e qualquer instrumento prático de “auto-prospecção” pode ser um importante aliado, as psicoterapias, a meditação, o zen, o tao, o yoga, o tantra, ou o que quer que tenhamos ao nosso alcance. E, cada um desses caminhos pode mesmo ser essencial para você, mas o ingrediente verdadeiramente essencial para essa “transformação de você em você”, essa metamorfose do que você vem sendo naquilo que você foi destinado a ser, é a sinceridade com que você mergulha em qualquer das práticas ou caminhos que escolhe. É preciso que você vá com um espírito altamente investigativo, desprovido de qualquer certeza sobre si mesmo, e disposto a descobrir e aceitar o que quer que se revele, de dentro de você. ” Está muito difícil, mas ninguém disse que seria fácil! Obrigada!

  • Agmar Ray:

    Gostei muitíssimo dos artigos. Muito bom de ler e sentir. Muito obrigada!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>