Pesquisar

Categorias

Arquivos

Favoritos

Reveillon e Espiritualidade

Reveillon e Espiritualidade 

Pedro Tornaghi

.

.

.

A passagem de ano é um momento cheio de significados e inspira uma dupla reflexão. Por um lado, somos impelidos a fazer um balanço do ciclo anterior e equacionar aquilo que consideramos erro ou acerto. Por outro lado, temos um ano começando do “zero” pela frente, uma página em branco esperando por ser escrita, onde teremos o direito de inaugurar novas fases e retomar trilhas esquecidas anteriormente, atropeladas pela roda da sobrevivência ou desviadas por escolhas agora consideradas equivocadas ou mesmo inconsequentes de nossa parte.

A cidade onde vivo, o Rio de Janeiro, em outros tempos, tinha como tradição e prioridade estimular esse espírito de reflexão nessa data. Há não muitos anos atrás, quando a festa de reveillon era um fenômeno mais espontâneo, as pessoas cultivavam o hábito de ir para a frente do mar no último dia e passar um tempo se “re-conectando” com as forças da natureza – personificadas ali por Iemanjá. Era um instante de profunda meditação sobre o significado, a importância ou irrelevância de experiências anteriores e sobre que futuro se desejava para os anos seguintes. Pessoas re-faziam ali suas listas de resoluções para o próximo período e, em seguida, entravam no mar para sacramentar o pacto com o ano desejado.

Entrar no oceano sempre teve o sentido de revelação, tanto de lucidez interior como exterior. Enfim, o último dia do ano era um momento dedicado à consciência e ao aprofundamento. E o “rito de passagem” não parava por aí, após conquistar a clareza do que se queria para o próximo ciclo, a pessoa recorria a um dos inúmeros terreiros de umbanda ou candomblé instalados na praia, que com seus atabaques, baianas, velas e pais de santos, serviam como um apoio para que a pessoa fizesse as mudanças desejadas em si. Era “de lei” terminar o ritual recebendo um “passe”, em uma atmosfera que costumava ser de acolhimento e carinho.

Depois disso, cada um ia para sua festa, celebrar o início do novo ciclo, muitas vezes até de manhã.

Enfim, o reveilon começava como um ritual pessoal de interiorização e aprofundamento e terminava como alegre celebração e comunhão com os amigos. Era, para muitos, o dia de maior profundidade, calma e contato consigo mesmo, um dia que se diferenciava do usual, onde a pessoa já acordava sentindo que teria mais significado que o normal – na verdade, daria significado aos outros dias – e ia dormir renovada e “lavada por dentro”.

Em minha infância, por conta desse cenário bucólico e único da cidade, essas experiências foram reveladoras e essenciais. Em nenhum outro dia meus pais me orientavam ou estimulavam a ir conversar com o mar. Quando criança, se eu ficasse quieto por muito tempo, já-já vinha um adulto para saber o que estava acontecendo de errado. Mas no último dia do ano, a quietude e o silêncio interno me eram permitidos e respeitados. Em mim e em todos os que frequentavam a praia de Copacabana, por meus pais e por todos os que ali estavam. A cumplicidade incluía a meditação e tenho o sentimento vívido do quanto aqueles reveillons contribuíram em minha formação como ser humano e, particularmente, para minha vocação na direção da meditação.

Foi também nessas festas ao ar livre que tomei contato pela primeira vez com o lado vivo e pulsante da cultura afro-brasileira através dos terreiros de candomblé e macumba. Era bonito ver como cristãos, judeus, muçulmanos, gente de todos os credos e países, faziam questão de entrar na fila para ganhar o “passe” dos pais de santos, confiavam a um desconhecido, de outra religião, a sacramentação para as mudanças que queriam implementar em suas vidas dali em diante.

Não houve um momento preciso para a desfiguração desses costumes, mas é certo que os prefeitos e governadores tiveram um papel fundamental nela. Em um conjunto de atitudes orquestradas, os prefeitos ao mesmo tempo, começaram a iluminar e sonorizar as praias na festa, produzir mega-shows e, deram o tiro de misericórdia nos terreiros ao proibir o estacionamento dos ônibus deles nas redondezas da praia. Ao mesmo tempo, algumas igrejas evangélicas investiram intensamente, desde o final dos anos 80, contra as religiões de origem africana. Buscavam fiéis nas fileiras “adversárias”.

As prefeituras foram tornando a passagem de ano numa festa marcadamente “externa”. Se, no passado, acordávamos nesse dia de uma maneira diferente e mais reflexivos, dedicados a um contato conosco mesmos, agora, se acorda no último dia do ano pensando em que roupa se vai usar, se a bebida já está gelada, em quem vamos encontrar mais tarde, muitos pensando se a barba está bem feita, se o cabelo bem cortado e penteado etc. Enfim, o reveillon carioca foi para o outro lado extremo, se no passado era o dia de maior reflexão interior e profundidade, hoje é para a grande massa, o dia de não se pensar em nada de significado ou interior, de se pensar apenas na festa e nos fogos exteriores. O fogo interior que espere, hoje é dia de festa.

Hoje, quando vejo os jornais (digo, os jornais cariocas) se ufanando do Rio de Janeiro produzir o maior reveillon do planeta, acho os argumentos questionáveis. Falam da maior explosão de fogos. Eu, que já passei essa dataem Nova Iorquee Paris assistindo a queima de fogos sincronizada com show de Jean Michel Jarre, eu que assisti a festival de fogos de artifícios na França, onde se desenhavam no ar figuras extremamente complexas feitas com fogos sofisticados, fico me perguntando como têm coragem de chamar a nuvem de fumaça que se forma sobre as águas de Copacabana, feita por rojões escolhidos por concorrência de preço, de maior espetáculo de fogos de planeta. Isso por que nunca passei um reveillon na China, imagino o que eles devam fazer por lá.

Fico me perguntando, se será que nunca passou pela cabeça dos prefeitos e dos que escrevem essas matérias no jornal, na cabeça dos secretários de turismo, que comemoram quando há aumento de turistas internacionais nessa data, que o Rio de Janeiro tinha antes uma festa realmente única, cheia de charme e identidade, que era mesmo fundamental para dar o tom da identidade da cidade. Será que eles nunca imaginaram que a praia tomada pelos terreiros do passado recente, poderia ser, não apenas o diferencial da cidade, não apenas uma notícia que cativaria elogios da imprensa nacional, mas também algo com potencial para atrair os olhares da mídia internacional? E, principalmente, será que nunca imaginaram que o Rio de Janeiro pudesse ser uma cidade melhor, por todo o ano, se cada novo ano se iniciasse com uma experiência marcante onde presença interior e comemoração exterior fossem aliadas?

Rio, querido e amado, diga-me como andas e direi quem és.

.

Leia também:

O Lugar Certo: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=781

Simplicidade: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=1544

Os Ouvidos têm paredeshttp://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=399

.

Participe do curso:

Meditações da Visão e da Audição: . http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=107

.

Artigo também publicado no site:  http://www2.uol.com.br/vyaestelar/transcender.htm

Share

10 Responses to Reveillon e Espiritualidade

  • Cilene Camargos:

    Pedro, imagino/espero que a recente “tradição” de comemorações, utilizando artefatos tão barulhentos e poluentes, não dure muito. Será que precisamos mesmo comemorar com barulho, e como ficam os outros habitantes, os animais, passarinhos, gatos, cães, todos os animais?

  • O dia em que as águas do mar se elevarem em alguns centímetros, a festa pagã pára.

  • Noemi Rocca:

    Lindo texto… Que o futuro venha melhor, mas do jeito que está, vai ficando muito difícil… Tenho nostalgia de algo que não vivi tanto, assim como você, por ser carioca, mas que entendo perfeitamente. O que resta a cada um de nós é fazer o nosso recolhimento interior ao nosso modo, nosso próprio ritual de introspecção… Feliz Ano Novo, que venham novas energias transmutadoras do bem, que os planos sejam traçados e as metas alcançadas de acordo com as Leis Universais… Namastê!

  • Pedro, há quanto tempo!!! Você se lembra de mim? Pois é, cá estou e hoje num caminho que você contribuiu muito para mudar na época em que convivi com você. Saudades. Desejo um 2013 iluminado para você. Bjs

  • Pedro, sou mineira de Juiz de Fora, morando aqui há mais de 40 anos e Amo esta Cidade tão Maravilhosa! Gostei muito do seu texto, concordo com tudo isso e sinto uma nostalgia, saudades daqueles tempos e me vem também o pensamento – que não me sai da cabeça: “qual é a contribuição disso tudo para nosso Planeta tão carente de cuidados sustentáveis e espirituais?” Será que tudo isso não tem mais fim? Todo ano a mesmice? Seria tão bom que não fosse apenas uma comemoração, mas um início para uma nova geração, confraternizando nossos desejos de um mundo melhor.
    Que o Novo Ano venha com mais Luz e Paz para Você!

  • Leila Vieira:

    O comentário do professor é preciosíssimo! E parabéns à amiga Cilene Camargos: “e como ficam os outros habitantes, os animais, passarinhos, gatos, cães, todos os animais?” AMIGA, É ISSO AÍ, PARA OS ANIMAIS É UMA TORTURA; TENHO CÃES E GATOS, QUASE INFARTAM. Abraços, boa noite. -

  • yam´na Jabour:

    Concordo, plenamente,com seus dizeres! Quero meditar nesse momento, vou aproveitar a meditação que você sugeriu. Obrigada! Paz e Luzes para você, meu amigo!!!

  • CRISTINA TARDIN:

    Não tenho o que acrescentar, texto perfeito!!!!!
    Luz, alegria e paz para todos.

  • Ana Maria Prazeres:

    Que bom saber do seu pensamento. Realmente tudo mudou e perdeu o sentido real sem que a gente se desse conta. Quando? Como? Por quê? E nós, mesmo com este sentimento de falta de reflexões necessárias sobre o ciclo de nossas vidas, acabamos entrando no mesmo roldão e escondendo nossas convicções em nome do grupo a que pertencemos, das amizades que nos são caras, da programação anualmente sempre igual e esperada. E no fim das contas, muitas vezes nos vemos tristes por não termos feito aquilo que gostaríamos, por não nos termos dado o tempo necessário às reflexões, às decisões. E tudo recomeça e não pensamos mais a respeito até o próximo ano… Como a consciência disso nos faz mal! Vale a pena repensar o nosso automatismo de cada dia… E mudar o que nos faz triste.

  • Maria Angela Zanol Cavalcanti:

    Seu texto retrata tudo de bom que foi… o que se comemora no momento atual é um desperdício de dinheiro público pra nada. Felizmente tive o privilégio de viver tempos áureos de bons princípios com praias cheias de velas, pais de santo, passes e muitos abraços exatamente como você colocou. Bons tempos! São recordações vividas e jamais esquecidas e que talvez um dia teremos a oportunidade de falar aos nossos filhos e netos.
    Meus agradecimentos pela dedicação que me foi dada desde que nos conhecemos, mesmo que assim virtualmente.
    Bom princípio!!! Um abraço enorme…Bjsss!!!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>