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Simplicidade

Simplicidade

Pedro Tornaghi

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Quando você não tiver mais como resolver um problema, tente o caminho da simplicidade. Você descobrirá que a simplicidade é capaz de lhe fornecer olhos novos para enxergar o problema de forma nova e, as paredes opressivas e os muros compactos e intransponíveis que o problema antes impunha, começarão a deixar entrever porosidades e fissuras que apontarão para saídas inesperadas, criativas e saudáveis; permitirão um novo enfoque, uma nova maneira de lidar com eles. A simplicidade mostrará possibilidades de se alcançar a liberdade. Como o rio, de maneira simples, sempre acha um caminho até o mar, você encontrará seu próprio caminho.

Quando falo de simplicidade, não falo de você tornar a vida simples pelo despojamento material. Isso é uma pura expressão exterior. Todos tendemos a achar que a simplicidade está ligada a uma vida frugal. E, como o mundo atual é complexo e exaustivo, torna-se cada dia mais fácil acreditar na velha idéia de que abrindo mão de ter um carro, de ter boas roupas, jogando-se coisas velhas e pouco usadas no lixo, tendo-se poucas posses, se alcançará a simplicidade. É um erro, isso não é simplicidade, é mera ostentação. Pode servir ao ego para dizer-se a si e aos outros: veja como sou superior, não preciso de posses e vivo como um mestre zen. Mas não serve para torná-lo verdadeiramente simples, não serve para que você experimente obrigatoriamente a simplicidade interna.

Na minha adolescência fui morar em Itaipava, achando que, junto à natureza, eu encontraria a vida simples e natural. Cerca de oito amigos meus me acompanharam. O que vi foi que levamos nossa mente disparada para um lugar calmo, e a confusão e os barulhos da mente puderam ser escutados ainda mais altos por lá. No ano seguinte fui morar em Mauá, plantando para colher junto com uma quantidade maior ainda de adolescentes que acreditavam nesse ideal. Conseguimos estragar o ambiente mais do que ele nos consertar. Mudar o externo não foi o suficiente para nos mudar internamente no que era essencial. Voltei para a cidade aos dezenove anos para aprender a meditar e ver se, assim, conseguira amenizar os barulhos internos da cabeça e conhecer a simplicidade de dentro para fora.

A simplicidade não pode nascer de um tipo de comportamento padrão e, muito menos, de um ideal, mesmo que estejamos falando do comportamento e do ideal de uma vida zen ou monástica. Pelo contrário, ser simples é viver sem ideais, sem crenças, sem certezas, ancorado apenas na própria sensibilidade. Crenças e ideais criam divisões e, com isso, complexidade. A simplicidade interna é uma qualidade de atenção, de estarmos simplesmente atentos ao que fazemos. O tipo de simplicidade de que falo é um estado de inocência, de disponibilidade para o que chega à nossa percepção. É poder estar, novamente, como uma inocente criança, simplesmente assistindo ao que acontece a você. A simplicidade interna requer inteligência e não apenas que nos ajustemos a algum padrão de comportamento, por mais nobre que ele pareça a você. É bem fácil ter escassas posses, contentar-se com pouco, mas isso não resolve o problema; e não significa simplicidade interior.

Sim, temos que começar dentro de nós mesmos, mas não de maneira exclusiva. Enquanto somos pessoas inconscientes, quase tudo o que vemos fora é projeção do que somos. Se, em um primeiro momento isso parece negativo, é por não estarmos atentos às possibilidades que essa situação cria. O externo é um espelho do interno. Não adianta tentar mudar as coisas no espelho, se elas estão à frente do espelho, mas, o espelho pode nos ajudar a ver, a descobrir, a entender, a significar nossos pontos cegos e a desarmá-los.

O problema é que nenhum de nós olha no espelho para se enxergar, mas para procurar seu melhor ângulo, para ver em que ângulo se esconde melhor a papada ou com que expressão ou maquiagem disfarça melhor as rugas. Desperdiçamos a possibilidade do espelho funcionar como nosso aliado para a lucidez e o usamos como um cúmplice para a farsa. Desperdiçamos a possibilidade do contato social servir para nos acordar, e fazemos um pacto de sono mútuo com ele. E ainda o culpamos por isso. Criamos nosso próprio beco-sem-saída. Cavamos nossa própria cova!

Mas, se somos nós quem a cavamos, também podemos ser nós a decidir parar de cavá-la, ou até mesmo usar a pá para fechá-la de vez. O externo é um espelho que denuncia o tempo todo nossos enganos, basta que nos abramos para, simplesmente, olhá-lo, com sinceridade.

Você não poderá ser simples se não for sincero com os impulsos que brotam de dentro de você, não há simplicidade possível ao homem sem espontaneidade. Quando você começa a querer ocultar de si uma realidade interna, ela começa a criar subterfúgios para se fazer presente, e você terá que criar, cada vez mais, meios complexos para ocultá-la, reprimi-la, comprimi-la, masem vão. Elacontinuará viva, no seu subsolo, buscando um buraco por onde escapar. Você tentará tampar um, dois, três buracos e ela tentará novos. A defesa ficará cada vez mais complexa, e você terá dado adeus à simplicidade. Não importa, a partir disso, que você decida ter apenas a roupa do corpo e uma tigela onde comer todos os dias. Você estará exilado da própria simplicidade. A princípio para sempre. Até que você mude de atitude. Até que você admita dar voz ao que vem de dentro de você. Abrir mão dos limites que impôs ao seu íntimo.

Se você começa a dar voz ao seu interior, começa deixá-lo se expressar, você deu o primeiro e o mais essencial passo na direção de integrar-se. E, sem integrar-se, você não conhecerá a simplicidade. Mas isso, no primeiro momento,  tem um preço social.

Ser simples nos torna sensíveis, e isso é um problema em uma sociedade como a nossa. As soluções para seus impasses passarão a vir de sua sensibilidade e isso não é muito aceito pela maioria – que o prefere o previsível – e nem por sua própria mente – que o quer sob controle. A simplicidade implica em uma pureza de sentir e em você estar sempre junto ao essencial, abrindo mão de complexidades. E, nossa mente e ego foram educadas para acreditar que ser complexo é ser melhor, é ser mais rico.

O homem complexo está sempre perseguindo a verdade. O homem simples está sempre “recebendo” a realidade. A mente simples é desprovida de barreiras ou de temores à realidade. A mente complexa constrói labirintos que cerceiem a pessoa, com camadas e camadas de paredes que o protejam da realidade.  E, depois, sem um fio de Ariadne que a guie, a pessoa fica procurando a saída de um labirinto, cuja porta foi cuidadosamente lacrada. Não adianta estudar mais e mais para encontrar a saída. A saída está em ignorar o labirinto e suas complexidades. Pasme, se você deixar de dar atenção a ele, ele deixará de existir e, no terreno agora baldio onde ele antes se impunha, você encontrará brotando, como capim selvagem nas brechas do asfalto vencido pelo tempo, a simplicidade. Bruta. Sensível. Espontânea. Natural.

E, junto ao capim selvagem brotarão as flores da felicidade, da alegria e da liberdade. Você trocará a pressão escura das paredes pelo pulsar da pele ante aos raios de Sol. Quando a mente e o coração tiverem se tornado simples – e consequentemente sensíveis – você descobrirá maneiras simples de responder aos problemas que se apresentarem. Por mais complexos que eles sejam, você encontrará uma visão nova, novos prismas, que traduzirão e decifrarão a essência dos problemas e possibilitarão desativá-los. Quando você encontrar a simplicidade, encontrará a unidade consigo mesmo e, nenhum antagonismo externo que venha lhe desafiar será respondido como a um antagonismo, mas como uma chance de você enxergar algo maisem si. Eaí acabará o antagonismo. Você usará a situação para se examinar internamente, poderá desfazer complexidades próprias, e se tornar mais simples. Mais uno. Mais realizado e feliz.

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Leia também:

Respirar é Viver: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=1497

A Trilha Libertadora da Respiração: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=1471

O Desapego: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=934

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