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Rio, Mais Vinte Anos Perdidos?

Rio, Mais Vinte Anos Perdidos?

 

Pedro Tornaghi

 

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“Quando você mora em um planeta redondo, não há lados a serem escolhidos.”
Dr Wayne Dyer

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A Rio +20 deixou claro que o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos estava certo, “os grandes problemas ambientais que estão prestes a abalar o mundo nas próximas décadas estão totalmente fora da agenda política dos grandes chefes de estado.” Em um momento em que as multinacionais são responsáveis por cinquenta por cento do PIB mundial, elas passaram a influenciar alterações nas legislações de governos locais, incluindo leis ambientais. Elas estão por trás de Tucuruí e do Código Florestal Brasileiro e também por trás de grande parte do relatório final da convenção.

A ética e filosofia em que eles se apóiam, o neoliberalismo, prega que o mercado acaba sempre se ajustando por si só. Baseado nisso, eles pressionam por exemplo o governo do Chile a permitir que a indústria mineradora no deserto do Atacama retire do sub-solo cinco vezes a quantidade de água que a natureza é capaz de recompor, claro, o privilégio de uso dessa água é para as citadas multinacionais, e não para os aldeões que por lá moram e que não contribuem com doações para campanhas políticas e não possuem deputados eleitos em suas palmas das mãos. Vão assim, esgotando com as condições de vida daquela região em nome de extrair o máximo de minério e de lucro enquanto for possível. Como vampiros cósmicos que extraem o sangue do planeta, até secá-lo.

Ok, concordo que os governos deixam a desejar, que as multinacionais extrapolam, que os poderes são podres e cegos, mas ao mesmo tempo me pergunto, será que teremos mesmo que depender da boa vontade de governos e do poder econômico para resolver os problemas do planeta? Será que havia alguma coisa que pudéssemos fazer para que a Rio +20 desse mais certo? Para que não fosse a frustração que foi para pessoas de bem de uma maneira em geral? Mais do que culpar chefes de estado, poderes econômicos e religiosos, será que há algo que nós, simples mortais, poderíamos ter feito para que o desfecho fosse diferente? Minha impressão é que sim. Há algo ao alcance de nossas mãos; e não o fizemos. E não o temos feito. Nunca.

Talvez a Rio +20 pudesse ter outro nome, chamando-se “sonho hippie +50″. Acho que a decepção e o fracasso da Rio +20 tem a mesma raiz – e caule e frutos – do mal acabado sonho hippie. Será que podemos, finalmente, lançar um olhar inteligente sobre a frustração desses dois sonhos de um mundo utópico e enxergar o que faltou para que ambos se tornassem realidade. Será possível mudar o rumo e o desdobramento de nossos esforços em prol de um mundo mais saudável daqui por diante? O que desejamos? Chorar sempre pelo leite – mal – derramado ou mudar essa situação e usufruir de um mundo com o que pode haver de melhor nele?

Chega de perguntas – por enquanto – e tentemos a análise. Quero lançar à luz e à discussão alguns pontos esquecidos pela reflexão e que podem ser vitais, não apenas para compreensão do naufrágio da nau da utopia, mas também para viabilizá-la, daqui por diante.

Todos os presidentes de empresas ou de países saíram de lares e escolas onde foram educados. Será que se olharmos para alguns aspectos de como temos gerenciado essa educação encontraremos o DNA do cinismo do poder? Ulisses Guimarães dizia “não é o poder que corrompe o homem, é o homem quem corrompe o poder.” E, antes de corromper o poder, esse homem foi corrompido, tentemos entender onde, quando e como, especificamente.

O primeiro ponto é que nossa educação tem sido, a cada dia mais, orientada para a eficiência técnica e para a especialização. Podemos até estar formando profissionais eficientes em suas especialidades, mas que tipo de pessoas estamos formando? O especialista só tem olhos para a sua linha, para um plano, jamais enxerga em outras dimensões, jamais enxerga ou entende o todo. Como ser humano, ele se torna uma pessoa estreita e sem visão sistêmica. Ele perde, de todo, o contato com o todo da vida.

Essa é uma das razões pelas quais viemos destruindo o “sistema” da vida, a ecologia do planeta. O tecnicismo e a especialização crescente são em grande parte responsáveis, uma vez que ecologia significa pensar no todo.

O carpinteiro está interessado na madeira. Ele sabe tudo a respeito do manuseio da madeira, mas sabe muito pouco – ou nada – a respeito da vida das árvores. Ele não tem consciência de que elas atraem nuvens e chuva, de que elas mantêm o solo coeso, de que sem elas, o solo se desertificará, de que sem elas as nuvens não virão mais ou, se vierem, passarão direto, sem verter água por ali. Ele está interessado na madeira, sabe tudo sobre a textura dela, sobre como secá-la, torná-la um produto mais bem qualificado no mercado. E é só.

Tendo aprendido a ver a vida dessa maneira, ele segue cortando árvores. Não há lei que os tenha impedido nos últimos tempos, eles vão à noite, você prende um, aparecem dois para tomar o seu lugar. Não estou certo de que a solução depende unicamente de leis restritivas – como queriam muitos dos críticos da Rio +20. As leis são importantes, mas têm provado que sozinhas, não resolvem. Ou, pelo menos, estão longe de significar o meio único e ideal para que se mude essa condição. Tenho um amigo de adolescência, o Marcelo de Carvalho que sempre me dizia: “o contrabando é mais forte que as fronteiras”. Sábio ele. Não querer enxergar isso é não querer resolver de verdade a questão. Esse é o problema enfrentado todos os dias por psicanalistas: pacientes querem mudar o rumo de atitudes que brotam do inconsciente com regras e resoluções ditadas pelo consciente. O inconsciente teima em ignorar as regras.

Esse ponto da educação é razoavelmente fácil de ser mudado, a princípio, a mudança pode vir em discussões de currículos, em se ensinar a ver o todo.

O segundo ponto é mais difícil de ser mudado – mas não impossível. Aqui a questão é bem mais funda. A palavra ecologia vem de “eco”. Eco é uma ninfa da mitologia grega que cai de amores por narciso, um belo rapaz que, encantado com sua própria imagem refletida na superfície de um lago, não escuta os chamados amorosos de Eco. Somos uma sociedade de narcisos, que não escuta o apelo amoroso de Eco. Quando vi a foto dos chefes de estado no final da conferência, com nossa presidenta estrategicamente vestida de vermelho para sobressair em meio aos paletós cinzas no centro da foto, quando vi a mudança de opinião em menos de 24 horas do representante das Nações Unidas, declarando que o relatório era um avanço histórico, confirmei a triste suspeita de que a preocupação de todos na grande foto era com a imagem. Ela é o que fica – na cabeça deles.

Enquanto tivermos uma educação que prioriza a imagem em vez do amor – como o da Eco – estaremos condenados a ver o planeta sendo destruído enquanto uma presidenta não descuida do rouge para a fotografia.

Nesse ponto, o que importa não é mais discutir currículos, mas, priorizar o coração na educação, o sentimento, o amor pelo aluno. Tive, também, uma outra amiga na adolescência que me disse: “uma pessoa que seja educada com amor verdadeiro, nunca precisará ser presidente de país ou empresa para parecer importante, para si mesma ou para os outros”. Tenho dificuldade de esquecer o que escutei de meus amigos adolescentes, tem me servido de guia mais fiel do que o que leioem jornais. Achoque eles me deram amor e noção de que a vida é muito mais do que eficiência, dinheiro e imagem. Torço agora para que as novas gerações tenham em seus educadores, amigos tão dedicados, instigantes, honestos e amorosos como os que tive. Quando isso acontecer, poderei confiar em um mundo melhor.

 .

“Cremos olhar a natureza e é a natureza quem nos olha e impregna.”
Christian Charrière

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Leia também:

Montanhas Cariadas: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=235

O Lugar Certo: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=781 

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Conheça os Cursos:

Terapia da Respiração: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=92

Meditação Através dos Chakras e da Respiração: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=68

 

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9 Responses to Rio, Mais Vinte Anos Perdidos?

  • Ricardo Faria:

    Segundo Capra, paradigma social é “uma constelação de concepções, de valores, de percepções e de práticas compartilhados por uma comunidade, que dá forma a uma visão particular da realidade, a qual constitui a base da maneira como a comunidade se organiza”. Esta forma de ver o mundo, que predominou até hoje, são resultados de modelos mentais, ou de uma visão-de-mundo.

  • Rossana Gobbi:

    Oi Pedro,
    Obrigada por compartilhar seus pensamentos, aprendizados e experiência. Abraços.

  • Ingrid Schnoor:

    Linda fala, parabéns. Posso usar teu texto com meus alunos?

    Olá Ingrid,
    Obrigado pelo carinho, fico lisonjeado pelo seu desejo e feliz pelo texto poder ser útil.
    Um grande abraço,
    Pedro

  • Belíssimo texto, muito realista. Quanto à Educação, gostaria de acrescestar alguma coisa a respeito.

    Ontem, ajudava meu filho de 10 anos nos deveres escolares.

    Há muito ando indignado com o que vejo na programação do ensino de nossas Escolas, principalmente no chamado “Ensino Fundamental”, aquele direcionado a alunos-crianças lá pelos seus 7/13 anos de idade.

    Meu filho tinha uma batelada de informações sobre as montanhas rochosas dos Estados Unidos. O livro ostentava lindas fotos, inebriantes paisagens, tudo com detalhadas explicações no rodapé de cada uma dessas imagens, como a atrair o olhar embevecido de uma criança para a maravilha da Natureza.

    Nada contra que sejam estudadas as montanhas rochosas situadas lá no outro lado do Continente. Mas, convenhamos, os detalhes eram absurdamente detalhados, altitude, profundidade de vales e planícies, Estados abrangidos por toda aquelas ondulações terrestres, minúcias do relevo, da fauna, e por aí afora.

    Fiquei me perguntando — indignado mais uma vez — o porquê de tantas informações para uma criança de 10 anos a respeito de um tema que em nada lhe interessa no momento.

    Repito, nada contra a se aprender sobre qualquer assunto, mas…., será por aí…???

    Dentro do contexto em que coloco a questão, sempre me pergunto se o momento é adequado para essa aprendizagem? Há um amadurecimento do aluno (uma criança de 10 anos) para tanta informação sobre algo nada motivante? Interessa-lhe a matéria escolar exigida pela tecnocracia de gabinete?

    Estava eu cursando lá pelos idos de 60 o ginásio, era a primeira série ginasial, hoje quinta do Fundamental, aula de desenho, pendor nenhum tenho para desenho. A professora insistia em me enfiar na cabeça a origem daquela antiga tinta nankim. Vagamente lembro que provinha de um óleo extraído de um peixe existente nos mares do confins da Ásia.

    Acho que minha indignação começou ali. Até hoje não sei como sobrevivi, trabalhei e me aposentei sem nunca ter feito uso daquelas “extraordinárias informações” da tinta nankim.

    Não desejo, caro amigo, esticar demais meu texto, mas penso que há também na nossa Educação um conteúdo de inutilidade, a abarrotar a cabeça de jovens e adolescentes, aos quais nada interessa e se lhes aproveita. Muita cultura inútil, sem qualquer praticidade.

    Que estudem pronfundamente as montanhas rochosas aqueles que buscarem seguir a carreira pertinente a esses temas, e que seja num momento adequado, idade compatível, numa faculdade, e não no quarto ano do Ensino Fundamental.

    Quanto à especialização, sobre a qual comentou, estou também de acordo com a sua argumentação, sempre pensei nesses termos. A especialização é tamanha que gerou miopia acadêmica, só se vê a parte do dedo em que aquele profissional se especializou.

    “— …Não, dr…, me dói não é o dedo todo, é apenas a ponta do dedo…!!!.

    — ahah…, bem…, somente a ponta do dedo…!!!???, então não é comigo, é com um outro colega, te indico o nome dele, fica aqui na sala ao lado. … Mas, peraí…, é da mão esquerda…!!!??? …então, não é o colega da sala ao lado, é o da sala do andar de baixo…, ele é especialista nessa área…, pode ficar tranquilo, ele entende tudo de dedo da mão esquerda.”

    Parece piada, mas o que vemos hoje é piada mesmo.

    Perde-se mais um bonde da história com a Rio+20. O carpinteiro vai continuar cortando a madeira, vai saber cada vez mais como moldá-la, envernizá-la e…negociá-la…, mas as nuvens e a chuva prá ele continuarão um mistério, ele apenas continuará esperando que a floresta cresça de novo para continuar cortando, moldando, envernizando e …negociando…

    Primoroso seu artigo, não podia terminar sem dizer isto. Os integrantes da cúpula deveriam tê-lo lido antes da divulgação do documento final.

  • Andrea Guimaraes Phebo:

    Repensar a educação é urgente e necessário.
    Me pergunto. Onde fica o exercício da criatividade, na vida diária das pessoas?
    Pensar a educação sem pensar neste tema é uma inquietação muito grande para mim.
    Obrigada pelo seu texto.
    abraços
    Andrea

  • Armando Sanchez Dussan:

    Em primeiro lugar meu muito obrigado pelas suas palavras sábias e muito bem colocadas. Eu já passei dos 66 anos de idade e, por isso, já vi muito, de vários governos, os quais são eleitos por dinheiro doado de grandes empresas, doações que, uma vez eleitos, eles deverão retornar com juros. Vemos o código florestal, cada vez mais as nossas florestas continuam a diminuir, por quê?! Porque os grandes proprietários são os mesmos, que estão dentro fazendo estas leis aqui no Amazonas. Quando foi feita a estrada Manaus/Venezuela, isto era uma floresta virgem, uma vez que se conheceu o projeto, de imediato, 50%das terras já tinha donos, políticos; terminada a estrada, aparecem grandes fazendas, sítios de fim-de-semana, e algunas terras para o impa/embrapa/ufam/universidade do amazonas. Agora Manaus já tem sua primeira ponte, Manaus/municipio do Iranduba, tem menos de um ano e já existem centenas de condomínios, e terras para venda, a saída da ponte de frente para Manaus, ou seja, margem direita do Rio Negro, já tem donos, sócios de alguns políticos, e já estão vendendo terrenos ….. Não quero me prolongar, pois precisaria de muito papel…Muito obrigado, pelas tuas sábias palavras…

  • Fernanda Melo:

    Oi…
    Estou fazendo uma redação para escola, assunto a Rio+vinte…
    Tenho 17 anos e adorei suas palavras . Porque com certeza irá ajudar em meu trabalho.
    Obrigado!

  • Maria Angela Grolla Zanol Cavalcanti:

    Quando pequena estudei religião, mas não se tratava de religião em si, falava-se de Deus e seus mandamentos, portanto o ensinamento tinha como base Amar a Deus sobre todas as coisas… Parece que sumiram com essa prática devido às divergências, um segue isso o outro aquilo; pois bem, por que não colocam em pauta o tema “Espiritualidade” que ao meu ver abrange todas as religiões?
    Grata!
    Paz sempre…Angela

  • Julieta:

    Muito bom Pedro! É bem isto dai! Só a educação é que reverteria esta situação, mas eu não tenho nenhuma fé que isto possa acontecer através da educação, pois a maioria dos nossos educadores, principalmente nas escolas públicas, está sofrendo uma lavagem cerebral, para pregar a doutrina de uma ideologia nefasta que destrói não só a moral, a ética, os bons costumes, a religião, a família e por conseguinte um país inteiro!

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