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Meditação e Lembrança

Meditação e Lembrança

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Pedro Tornaghi

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Meditação e memória são parentes íntimos, uma vez que meditar, em última análise, é recuperar o estado de espírito e de consciência originais da pessoa, esquecido e soterrado sob escombros de milênios de experiências mal digeridas. O estado meditativo é algo de que já fomos íntimos e que permanece gravado em nossa memória celular. Essa “lembrança” se dá em três níveis: o pessoal, o coletivo e o universal.

A nível pessoal, todos experimentamos, na inocência da infância, momentos de total imersão de nossa consciência no Cosmos. Momentos apenas seria injusto dizer, tivemos chance de provar períodos prolongados de total fusão entre nossa consciência e o Universo. Nessa época éramos desprovidos de consciência crítica e de linguagem, éramos somente entrega, aceitação e observação.

Crescer significou para nós a perda dessa “comunhão cósmica”, mas a memória desses momentos está lá, gravada em algum lugar dentro de nós, e pode ser acessada. Uma vez recuperada essa memória, passamos a possuir não apenas um gosto nostálgico de um paraíso perdido, mas o endereço dele; recuperamos a sensibilidade e a inocência da criança que o experimentou e recuperamos o sentido de direção, uma bússola interna afinada e precisa, capaz de indicar onde reencontramos o “paraíso”.

A meditação possibilita que o reencontro do paraíso não seja o simples voltar para o útero da mãe, mas em verdade, perceber o universo inteiro como um grande útero que ampara e permite que se movimente à vontade dentro dele.

O segundo nível de lembrança do paraíso perdido, o nível coletivo, quando atingido, permite que não apenas contatemos nossa própria essência com a meditação, mas que possamos ir além, bem além.

A humanidade como um todo já viveu dias impregnados de harmonia. Já houve um tempo em que disputas territoriais não faziam sentido, uma vez que o território era vasto e convinha associar-se a outros humanos para obter-se melhor performance. Na memória inconsciente coletiva, está gravada a história da humanidade. E ela pode ser acessada, por meio da meditação.

Carl Gustav Jung um dia conheceu na Baviera um camponês que, apesar de nunca ter saído do vale em que vivia e nem ter tido maiores contatos com pessoas de outras culturas, falava javanês antigo. Anos mais tarde, viajando de trem pela Rússia, Jung descobriu que um companheiro seu de viagem, mesmo sendo alemão e estando pela primeira vez na Rússia, era capaz de saber o nome de todas as estações, escritas na língua local. Ele perguntou como o amigo fazia isso e escutou como resposta: não sei, só sei que sei o que está escrito em cada tabuleta, assim como no jornal que está à nossa frente.

A partir dessas duas experiências pessoais, Jung criou o conceito de “inconsciente coletivo”, uma espécie de biblioteca da memória da humanidade, onde, vez por outra, algumas pessoas podem, por alguma razão, ter acesso a informações que vão além de sua experiência pessoal.

A meditação num segundo nível, nos coloca em contato com a mente coletiva, tanto a consciente quanto a inconsciente. Nossa mente pessoal é apenas parte da coletiva, como cada gota é parte do oceano. Na linguagem indiana, nossa mente é formada de “manas”, uma essência mental que permeia todo o universo, e da qual nos apropriamos de uma parte para acreditarmos que somos uma individualidade. No espaço mental, no entanto, as fronteiras são muito mais “transponíveis” do que no espaço físico.

Por exemplo: é normal que uma mãe, vivendo no Rio de Janeiro, ao ter uma filha que adoece na França, sem saber por quê, comece a se inquietar e a pensar na filha, até ao ponto de ligar e perguntar se está tudo bem com ela. A informação do mal-estar da filha viajou pelo campo mental da França ao Rio de Janeiro, em tempo recorde. Da mesma maneira que essa mãe captou uma informação que não era dela, todos podem fazê-lo, quando aprendem a sintonizar suas antenas. E, quando isso acontece, muito mais importante do que informações sobre terceiros é o fato de passarmos a poder entender a essência da humanidade, ganharmos acesso ao entendimento de certas mudanças de rota que se sucederam no comportamento humano e podermos refletir se isso realmente nos diz respeito e interessa.

Assim, podemos no libertar de alguns comportamentos que chamamos de humanos, mas que não obrigatoriamente o são. Como o ciúme, a ansiedade e a angústia. O ciúme por exemplo, quando entendemos sua essência, transforma-se naturalmenteem amor. Puro.

Podemos trocar essas “respostas socialmente aceitas” para certos desafios, por outras que nos são mais úteis, construtivas e satisfatórias. Todas as nossas relações humanas são modificadas quando nos damos conta da história e da construção psicológica humana. Há medos ancestrais e anseios instintivos no homem moderno que não mais se justificam em seu viver atual.

É o caso do instinto de caçador. Durante quatro milhões de anos, o homem precisou correr atrás da caça, abri-la depois com instrumentos rudimentares e comê-la, na maioria das vezes, crua. Ele não possuía uma faca tramontina ou um isqueiro da bic para se virar. Você já imaginou como, após abater um búfalo, ele se virava para adentrar em suas carnes e usufruir delas?

Com o início da civilização, há 10.000 anos em Jericó, o homem que vinha sendo essencialmente caçador/coletor, começou a se transformarem sedentário. Possuirterras passou a ser melhor sinônimo de garantias de sobrevivência do que saber caçar. No entanto, o instinto de caçador continua vivo no ser humano, são quatro milhões de anos contra dez mil de experimentos civilizatórios.

Esse instinto de caçador nos últimos milênios se transformou em instinto conquistador, e nos custou uma média de no mínimo uma guerra a cada vinte anos. Nos dias atuais, esse instinto se expressa no rapaz que passa a mão no traseiro da morena que passa pela porta do bar, nas gangues de rua e nas facções criminosas que criam guerras urbanas, ou até nas belicosas torcidas esportivas. A mais eficaz  maneira de mudar a rota do instinto destrutivo da humanidade, talvez seja a meditação, capaz de levar ao entendimento e dissolução das bombas-relógio que foram instaladas compulsoriamente em nossas psicologias.

O terceiro nível de memória é chamado na Índia de memória akáshika. Para o indiano, o espaço akáshiko é um campo amplo, que a tudo permeia, onde habitam não apenas os registros de experiências humanas, mas de toda a experiência universal. Nesse espaço, está registrada a experiência do primeiro átomo, que ao se deparar com o tempo e espaço, se viu no dilema entre a vontade de se movimentar e a resistência à sua volta. Quando entramos em contato com essa área, podemos entender nossos conflitos mais íntimos e antigos. Essa compreensão se faz em um nível que os universaliza, e assim, os dissolve. Esse é o estado que o indiano chama de iluminação.

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