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Édipo e o Nó da Memória

Édipo e o Nó da Memória

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Pedro Tornaghi

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“Quão mais fundo forem suas raízes,
mais altos e frondosos poderão ser seus galhos
e mais vida terão suas flores e frutos.”
Osho

Desde que surgiu meu interesse em aprofundar no tema memória, uma convicção me segue como uma sombra fiel: a de que o cerne das deficiências de memória do homem comum é o medo da pessoa de lembrar-se de si mesma. Parece estranho num primeiro contato com a ideia, mas, se desenvolvermos o tema, podemos facilitar sua compreensão e, quiçá, farejar saídas para impasses substanciais. Freud baseou sua psicanálise na história de Édipo e essa talvez seja um bom começo para nossa investigação.

Laio, o pai de Édipo, era rei de Tebas e, ao se casar com Jocasta, ouviu de Tirésias, o grande vidente daqueles dias, a profecia de que teria um filho único e que esse o mataria e lhe tomaria o trono e a esposa. Apavorado com a nefasta previsão, Laio decidiu matar seu filho assim que nascesse. Porém, no dia, não encontrou coragem dentro de si para tal ato e delegou-o à esposa, Jocasta. Ela porém, também se sentiu incapaz de consumar o ato e entregou o filho a seu camareiro de confiança que, por sua vez, se mostrou mais um incompetente algoz.

O camareiro levou Édipo ao monte Cíteron e, vendo-se sem forças para cometer o infanticídio, resolveu pendurá-lo pelos pés, de cabeça para baixo, no galho de um arbusto para que as aves de rapina cumprissem a tarefa. Édipo levaria dessa cena uma cicatriz nos pés amarrados, uma marca cheia de significados que nortearia seus atos pretensamente adultos, ele estaria para sempre, preso à árvore-mãe, incapaz de inventar seu próprio destino, de escolher como cresceriam seus galhos, como ele buscaria seu próprio lugar ao Sol. Estaria para sempre, limitado a desígnios que já vinham carimbados, desde o início, em suas raízes. Estaria atado, preso para sempre à mãe.

Às vezes é difícil viver, às vezes é difícil morrer. Um pastor de Corinto, cidade próxima ao monte Cíteron, escutou os gemidos da criança e, sem compreender quem teria feito tal maldade, o desamarrou e levou consigo, entregando-o a seu amo, Polípio, rei de Corinto. Polípio há anos tentava, sem sucesso, engravidar a rainha Mérope e viu em Édipo uma possibilidade de ter um sucessor ao trono; imediatamente o adotou e o criou como filho legítimo, sem jamais confidenciar a Édipo sua origem. Édipo cresceu pleno de cuidados, carinho e proteção, dados sempre de maneira generosa pelo casal que tanto desejara o filho.

Quando adulto Édipo foi um dia se consultar com o mesmo vidente Tirésias e escutou desse uma profecia perturbadora, de que mataria seu pai e se casaria com sua própria mãe, com quem teria filhos. Apavorado com a possibilidade de levar a cabo o destino cruamente revelado por Tirésias, Édipo fugiu de Corinto, para não ter acesso àqueles que acreditava serem seus amados pais e impor-lhes tão cruel fatalidade.

Édipo no entanto, acabou por cruzar com seu pai biológico na estrada. Tentando fugir da profecia, ele se dirigiu a ela. Se encaminhou para a raiz da qual queria se ver livre, abandonou os ventos elísios que acarinhavam seus galhos no reino de Polípio para dirigir-se à escuridão da origem, da raiz dentro do solo. Chegando a uma bifurcação na estrada, Édipo se deparou com uma carruagem que pretendia pegar o mesmo caminho que ele. Os servos da carruagem deram-lhe ordem de deter-se para que a carruagem passasse primeiro. Édipo não gostou e lutou com eles, matando-os, em seguida, matou o dono da carruagem, Laio, sem saber que era seu pai biológico.

Na natureza, as árvores evoluem modificando e embelezando seus galhos, folhas e flores, geração após geração, enquanto suas raízes mantém a forma pré-histórica, nos galhos as flores produzem aromas cada vez mais sedutores às abelhas e pássaros enquanto as raízes procuram o sabor neutro da água pura, o mesmo sabor da origem das espécies, o sabor neutro que guarda o mistério da existência e da evolução posterior.

Será que, como Édipo, seremos todos nós desejosos dos olores inebriantes das mais sedutoras flores mas, atraídos como que por ímãs irresistíveis pela escuridão inequívoca das raízes? É o que sugeria Freud, à sua maneira.

Continuando a viagem, Édipo se encaminhou para Tebas, que há anos vivia aterrorizada por uma onda de pragas e maldições, das quais só se veria livre, segundo profecias, o dia que alguém decifrasse o enigma de uma esfinge que se postara em sua entrada. Como prêmio para quem livrasse a cidade do desterro, ficou decidido que aquele que decifrasse o enigma teria como recompensa o trono de Tebas, tendo direito, como atributo natural de rei, ao leito nupcial acompanhado da bela rainha Jocasta.

Ao aproximar-se da cidade, Édipo deparou-se com a esfinge, que lhe perguntou: qual animal no princípio da vida anda com quatro patas, na idade adulta com duas e na velhice com três? Édipo respondeu de pronto: o homem que engatinha quando criança, depois anda sobre seus pés e no final da vida recorre à bengala. A esfinge se deu por satisfeita e abandonou a cidade, deixando-a livre da maldição. Édipo entrou assim triunfalmente em Tebas, aclamado pela multidão que o conduziu ao posto máximo de mando e o adorou por anos.

Édipo teve quatro filhos com Jocasta. Freud interpretou seu percurso defendendo que o homem traz no inconsciente o desejo pela mãe, mas vê o pai como impedimento, o dono real da mãe e com isso, cultiva dentro de si o desejo de matar o pai para ter acesso ao objeto do desejo. A partir disso criou a expressão “complexo de Édipo”. Freud defendia que as emoções habitam o reino do inconsciente e que o inconsciente está sempre pressionando o consciente. Para Freud, todos carregamos essa atração feroz pela mãe e isso gera nosso nó emocional fundamental, o mais difícil de ser desatado. Uma memória que não pode ser apagada e que funciona como marca registrada de nossas ações e decisões objetivas, não apenas na infância, mas também da idade adulta.

Todos os seres humanos buscam a experiência de volta ao útero original, de volta aos momentos em que não precisávamos nos esforçar para sobreviver, o calor estava ali, o alimento estava ali, tudo estava cuidado. Quando o cordão umbilical é cortado perdemos essa condição de união com o universo que nos rodeia e passamos a ter existência separada dele. A volta a esse estado de união com “o outro” é o que nos impulsiona a namorarmos, entrarmos em igrejas, a construirmos utopias de todos os tipos. Para Freud, o impulso inconsciente que dirigiu Édipo de volta a sua mãe, era a busca da felicidade perdida, do paraíso perdido.

No início dos anos 60, o psicanalista mineiro Hélio Pellegrino contestou Freud. Ele alegou que se Freud disse que a idade edípica acontecia dos 3 aos 5 anos e Édipo foi abandonado com 15 dias, o “buraco do complexo de Édipo devia ser mais embaixo”. Ele levantou a questão de que Édipo não foi feliz com Jocasta, pelo contrário, lhe foi negado o amor dela, que ele teve amor sim, incluindo a idade entre os 3 e os cinco anos, de sua mãe adotiva, Mérope. Logo, se a teoria de Freud fosse precisa, Édipo quereria se casar era com a rainha Mérope. Para Pellegrino, o amor liberta, não prende. Como Édipo teve o amor de Polípio e Mérope, pode abandonar Corinto, mas como não o teve de Laio e Jocasta, se viu vítima da atração inconsciente que o levou a Tebas.

Quando Édipo descobre ser filho de Jocasta, essa se mata e ele, saca de seu manto duas agulhas de tricô com as quais fura os próprios olhos e se cega, volta à escuridão das raízes, à escuridão do útero universal, podendo agora estar no escuro em qualquer lugar, um ato inconsciente desesperado de se ver livre da necessidade de possuir Jocasta.

Nossa percepção e nossas memórias são sempre moldadas pelos impulsos emocionais inconscientes. Percebemos as coisas alteradas conforme gostamos ou não delas, conforme a carga emocional que elas parecem conter. Édipo queria desesperadamente saber sua verdadeira identidade, ele se desdobrou para conseguir arrancar os fatos de sua infância do fiel camareiro de sua mãe. No entanto, quando conseguiu enxergar a realidade, se cegou, privou-se do que mais buscou durante toda a sua trajetória, o direito de enxergar a verdade sobre si. E passou a não enxergar mais nada. Passou seus últimos dias errante, vivendo graças aos olhos de sua filha Antígona que o acompanhou em suas peregrinações. Buscou independência e se fez dependente. Édipo, como é comum entre heróis, foi em parte na contramão do que faz maioria das pessoas. Ele fez de tudo para conhecer as verdades sobre si, abriu mão de sua situação confortável por mais de uma vez para buscar a verdade sobre si e, acabou comprometido por sua busca. Foi implantado em nossas mentes a ideia de que a busca por nos realizarmos, levará a um destino cruel. Os heróis divulgados em nossas mitologias costumam morrer de maneira trágica, ou acabar mal de alguma maneira. Com isso, alimentam nosso medo de ousar, de conhecer nossa real face, de lembrar de nossa face original. Nossa educação valoriza o estímulo, e nos galhos, a promessa de aromas olorosos na primavera é grande e nos dispersa do natural mergulho nas raízes no inverno. Essa mesma civilização voltada para a leveza dos galhos, nos desestimula a conhecer as raízes, a aprofundar no entendimento de si mesmo. Em cursos de meditação e memória, comecei a usar meditações que trabalham o complexo de Édipo e a surpresa foi grande, quanto mais dissolvíamos as cargas fóbicas de lembranças de abandono e a conseqüente ilusão de felicidade projetada em relacionamentos mitômanos, mais aguda e acurada ficava a memória da pessoa. Quanto mais dávamos suporte para a pessoa romper o cordão umbilical com as carências não preenchidas no passado e propiciávamos o contato consigo mesma, mais ela se mostrava disponível para novos aprendizados e para recordar cenas antigas de maneira precisa. Quanto mais a pessoa se lembrava de si mesma, melhor processava e organizava as novas informações que lhe chegavam de fora. O que me faz pensar, o complexo de Édipo – na versão remodelada pelo Hélio Pellegrino – não é apenas o nó fundamental da psicologia humana, mas aponta também um caminho real e importante para entendermos e revertemos os processos de debilitação da memória no homem.

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Leia também:

“Os Cinco Pilares da Memória”

http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=1159

“O Paraíso Esquecido”

http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=1177

Participe do curso:

“Memória e Rejuvenescimento Celular através da Meditação”:

http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=82

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5 Responses to Édipo e o Nó da Memória

  • Denise Rodriuges Vieira Aurélio:

    Texto fantástico. Esclarecedor!!! A trajetória de Pedro Tornaghi acaba por influenciar a trajetória de todos os que se interessam por seus trabalhos e, assim, o que é Luz, reverbera.

  • Pedro Antônio:

    O tema que vc aborda é analisado muito bem em um livro:
    EDIPO – O SOLUCIONADOR DE ENIGMAS O HOMEM ENTRE A CULPA E A REDENÇAO
    DETHLEFSEN, THORWALD
    Se os homens tiverem êxito em compreender o sentido da tragédia, ela poderá tornar-se uma forma de psicoterapia coletiva, ajudando-os a desvendar o seu destino neste mundo. Sendo assim, a tragédia mostra uma saída para a nossa cultura materialista, que perdeu o contato com as raízes do mito e sua força curadora. Numa análise ampla de duas tragédias de Sófocles, o autor identifica com precisão e clareza os padrões que estão por trás de cada destino humano- diante da culpa e do fracasso, o ser humano só pode conseguir a salvação quando aprender a não se iludir com as coisas do mundo fenomênico e começar a buscar soluções dentro de si mesmo. Neste livro, Dethlefsen torna visível a imagem arquetípica do homem cujo caminho é curar-se curando a própria culpa.

  • Elizabeth Muniz:

    Faz total sentido, para mim, que a memória e o autoconhecimento estejam relacionados. Agradeço-lhe por esse incremento em minha compreensão da psique humana.

  • Roberto Freitas:

    Muito boa colocação.

  • Renata Moreira:

    Só uma pequena observação ao grande texto. O camareiro jamais cometeria infanticídio. Ele não pariu Ėdipo. Por esse mesmo motivo não sendo a mãe e estando em estado puerperal ou na ocasião da hora do parto.

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